Alexandra Kollontai
A nova mulher e a moral sexual
A mulher moderna
Quem são as mulheres modernas?
Como as criou a vida?
A mulher moderna, a mulher que denominamos celibatária, é filha do sistema econômico do grande capitalismo. A mulher celibatária, não como tipo acidental, mas uma realidade cotidiana, uma realidade da massa, um fato que se repete de forma determinada, nasceu com o ruído infernal das máquinas da usina e da sirene das fábricas. A imensa transformação que sofreram as condições de produção no transcurso dos últimos anos, inclusive depois da influência das constantes vitórias da produção do grande capitalismo, obrigou também a mulher a adaptar-se às novas condições criadas pela realidade que a envolve, O tipo fundamental da mulher está em relação direta com o grau histórico do desenvolvimento econômico por que atravessa a humanidade. Ao mesmo tempo que se experimenta uma transformação das condições econômicas, simultaneamente à evolução das relações da produção, experimenta-se a mudança no aspecto psicológico da mulher. A mulher moderna, como tipo, não poderia aparecer a não ser com o aumento quantitativo da força de trabalho feminino assalariado. Há cinqüenta anos, considerava-se a participação da mulher na vida econômica como desvio do normal, como infração da ordem natural das coisas. As mentalidades mais avançadas, os próprios socialistas buscavam os meios adequados para que a mulher voltasse ao lar. Hoje em dia, somente os reacionários, encerrados em preconceitos e na mais sombria ignorância, são capazes de repetir essas opiniões abandonadas e ultrapassadas há muito tempo.
Há cinqüenta anos, as nações civilizadas não contavam nas fileiras da população ativa com mais do que algumas dezenas, ou mesmo algumas centenas de milhares de mulheres. Atualmente o crescimento da população trabalhadora feminina é superior ao crescjmento da população masculina. Os povos civilizados dispõem não de centenas de milhares, mas sim de milhões de braços femininos. Milhões de mulheres pertencem às fileiras proletárias; milhares de mulheres têm uma profissão, consagram suas vidas à ciência ou à arte. Na Europa e nos Estados Unidos as estatísticas acusam mais de sessenta milhões de mulheres inscritas na classe trabalhadora. Marcha grandiosa a desse exército independente de mulheres! 50% desse exército é constituído por mulheres do tipo celibatário, isto é, por mulheres que na luta pela subsistência contam apenas com suas próprias forças; de mulheres que não podem, segundo a tradição, viver unicamente dependendo de um marido que as mantenha.
As relações de produção, que durante tantos séculos mantiveram a mulher trancada em casa e submetida ao marido, que a sustentava, são as mesmas que, ao arrancar as correntes enferrujadas que a aprisionavam, impelem a mulher frágil e inadaptada à luta do cotidiano e a submetem à dependência econômica do capital. A mulher ameaçada de perder toda a assistência, diante do temor de padecer privações e fome, vê-se obrigada a aprender a se manter sozinha, sem o apoio do pai ou do marido. A mulher defronta-se com o problema de adaptar-se rapidamente às novas condições de sua existência, e tem que rever imediatamente as verdades morais que herdou de suas avós. Dá-se conta, com assombro, de toda inutilidade do equipamento moral com que a educaram para percorrer o caminho da vida. As virtudes femininas - passividade, submissão, doçura - que lhe foram inculcadas durante séculos, tornam-se agora completamente supérfluas, inúteis e prejudiciais. A dura realidade exige outras qualidades nas mulheres trabalhadoras. Precisa agora de firmeza, decisão e energia, isto é, aquelas virtudes que eram consideradas como propriedade exclusiva do homem. Privada da proteção que até então lhe prestara a família ao passar do aconchego do lar para a batalha da vida e da luta de classes, a mulher não tem outro remédio senão armar-se, fortificar-se, rapidamente, com as forças psicológicas próprias do homem, de seu companheiro, que sempre está em melhores condições para vencer a luta pela vida. Nesta urgência em adaptar-se às novas condições de sua existência, a mulher se apodera e assimila as verdades, propriamente masculinas, freqüentemente sem submetê-las a nenhuma crítica, e que, se examinadas mais detalhadamente, são apenas verdades para a classe burguesa.(1)
A realidade capitalista contemporânea parece esforçar-se em criar um tipo de mulher que, pela formação de seu espírito, se encontra incomparavelmente mais próxima do homem do que da mulher do passado. Este tipo de mulher é uma conseqüência natural e inevitável da participação da mulher na corrente da vida econômica e social. O mundo capitalista só recebe as mulheres que souberam desprezar, a tempo, as virtudes femininas e que assimilaram a filosofia da luta pela vida. Para as inadaptadas, isto é, para aquelas mulheres pertencentes ao tipo antigo, não há lugar nas fileiras das hostes trabalhadoras. Cria-se desta forma, uma espécie de seleção natural entre as mulheres das diversas camadas sociais. As fileiras das trabalhadoras são sempre formadas pelas mais fortes e resistentes, pelas mulheres de espírito mais disciplinado. As de natureza frágil e passiva continuam fortemente vinculadas ao lar. Se as necessidades materiais as arrancam do lar para lançá-las na tormenta da vida, estas mulheres deixam-se levar pelo caminho fácil da prostituição legal ou ilegal, casam-se por conveniência ou lançam-se à rua. As mulheres trabalhadoras constituem a vanguarda de todas as mulheres e integram em suas fileiras representantes das diversas camadas sociais. Entretanto, a imensa maioria dessa vanguarda feminina não se constitui de mulheres do tipo de Vera Niokdinovna, orgulhosas da sua independência, mas, por milhões de Matildes envoltas em xales cinzentos, Tatianas, de Riasan, com os pés descalços, empurradas pela miséria a novos caminhos.(2) É um profundo erro pensar, no entanto, que o novo tipo de mulher, a celibatária, é fruto de esforços heróicos de algumas individualidades fortes que tomaram consciência de sua própria personalidade. Nem a vontade própria, nem o exemplo audacioso de Magda, nem o da decidida Renata foram capazes de criar o novo tipo de mulher. A transformação da mentalidade da mulher, de sua estrutura interior, espiritual e sentimental, realizou-se primeiro e, principalmente, nas camadas mais profundas da sociedade, ou seja, onde se produz necessariamente a adaptação ao trabalho, nas condições radicalmente transformadas de sua existência.
Estas mulheres, as Matildes e as Tatianas, não resolvem nenhum problema. Além disso, ainda tentam agarrar-se com todas as suas forças ao passado. Com muito pesar se vêem obrigadas a curvar-se diante das leis da necessidade histórica - as forças de produção - e a dar os primeiros passos pelo novo caminho. Caminham ao acaso, dominadas pela tristeza, amaldiçoando seus passos e acariciando em seu interior o sonho de um lar, onde possam desfrutar de tranqüilas e modestas alegrias. Ah, se fosse possível abandonar o caminho, voltar atrás. Mas, isto é irrealizável, pois os grupos de companheiras são cada vez mais densos e a corrente as empurra cada vez para mais longe do passado. É preciso adaptar-se à angustiante falta de espaço, preparar-se para a luta, ocupar o lugar correspondente a cada uma; têm que defender o direito de viver.
A mulher da classe operária contempla como nasce e se fortalece dentro de si a consciência de sua independente individualidade. Tem fé em suas próprias forças. Gradualmente, de forma inevitável e poderosa, desenvolve-se o processo de acumulação de novos caracteres morais e espirituais da mulher operária, caracteres que lhe são indispensáveis como representantes de uma classe determinada. Há, porém, algo ainda mais essencial; éque esse processo de transformação da estrutura interior da mulher não se reduz unicamente a personalidades, mas corresponde a grandes massas, a círculos muito grandes, cada vez maiores. A vontade individual submerge e desaparece no esforço coletivo de milhões de mulheres da classe operária, para adaptar-se às novas condições da vida. Também nesta transformação desenvolve o capitalismo uma grande atividade. Ao arrancar do lar, do berço, milhares de mulheres, o capitalismo converte essas mulheres submissas e passivas, escravas obedientes dos maridos, num exército que luta pelos seus próprios direitos e pelos direitos e interesses da comunidade humana. Desperta o espírito de protesto e educa a vontade. Tudo isto contribui para que se desenvolva e fortaleça a individualidade da mulher.
Mas, desgraçada da operária, que crê na força invencível de uma individualidade isolada. A pesada carga do capitalismo a esmagará, friamente, sem piedade. As fileiras. de mulheres combatentes constituem a única força capaz de desviar de seu caminho a pesada carga do capitalismo. Deste modo, ao mesmo tempo que se desenvolve a consciência de sua personalidade e de seus direitos, nasce e evolui na mulher operária do novo tipo o sentimento da coletividade, o sentimento do companheirismo, que só se encontra, e muito levemente, na mulher do novo tipo pertencente a outras classes sociais. Este é o sentimento fundamental, a esfera de sensações e pensamentos que separa com uma linha divisória definitiva as trabalhadoras das mulheres burguesas, pertencentes ao mesmo tipo celibatário.
Nas mulheres do novo tipo, mas pertencentes às
distintas classes, é comum a distinção qualitativa das mulheres do passado.
Como parte integrante das hostes de mulheres trabalhadoras, sua estrutura
interior experimentou igual transformação, ou seja, logrou desenvolver sua
inteligência, reforçar sua personalidade e ampliar seu mundo espiritual. A esfera,
porém, de pensamentos e sentimentos, que derivam do conceito de classe, são os
que separam, fundamentalmente, as mulheres do novo tipo pertencentes às
diversas camadas sociais. As operárias sentem o antagonismo de classe com uma
intensidade infinitamente maior que as mulheres do tipo antigo, que não tinham
consciência da luta social. Para a operária, que deixou sua casa, que
experimentou sobre si mesma toda a força das contradições sociais e que se viu
obrigada a participar ativamente na luta de classes, uma ideologia de classe,
clara e definida, adquire a importância de uma arma na luta pela existência. A
realidade capitalista separa de maneira absoluta a Tatiana, de Gorki, da
Tatiana de Nagrodskaia. Éesta realidade capitalista que leva a proprietária de
uma oficina a encontrar-se, por sua ideologia, muito mais separada de uma de
suas operárias do que a boa dona de casa com relação a sua vizinha, a mulher de
um operário. Esta realidade capitalista torna aguda a sensação do antagonismo
social entre as mulheres trabalhadoras. Para esta categoria de mulheres do novo
tipo só pode haver um ponto comum: sua distinção qualitativa da mulher do
passado, as propriedades específicas que caracterizam a mulher independente, do
tipo que temos denominado celibatário. As mulheres do novo tipo, pertencentes a
estas duas classes sociais, passam por um período de antagonismo: as duas
classes lutam pela afirmação de sua personalidade; as de uma classe,
conscientemente, por princípio, as da outra classe, de forma elementar, coletiva,
sob o jugo do inevitável.
Mesmo, porém, que na nova mulher pertencente à classe operária a luta pela
afirmação de seu direito e de sua personalidade coincida com os interesses de
sua classe, as mulheres do novo tipo pertencentes a outras classes sociais têm
necessariamente que se defrontar com um obstáculo: a ideologia de sua classe,
que é hostil à reeducação do tipo de mulher. No meio burguês, a insurreição da
mulher adquire um caráter muito mais agudo e os dramas morais da mulher do novo
tipo são muito mais vivos, têm mais colorido, oferecem maiores complicações.(3)No
meio operário, não há nem podem existir conflitos agudos entre a psicologia da
mulher do novo tipo, em formação, e a ideologia de sua classe. Tanto sua
psicologia em formação como sua ideologia de classe encontram-se em um processo
de formação, em fase de desenvolvimento.
O novo tipo da mulher, que é interiormente livre e independente, corresponde,
plenamente, à moral que elabora o meio operário no interesse de sua própria
classe. A classe operária necessita, para a realização de sua missão social, de
mulheres que não sejam escravas. Não quer mulheres sem personalidade, no
matrimônio e no seio da família, nem mulheres que possuam as virtudes femininas
- passividade e submissão. Necessita de companheiras com uma individualidade
capaz de protestar contra toda servidão, que possam ser consideradas como um
membro ativo, em pleno exercício de seus direitos, e, conseqüentemente, que
sirvam à coletividade e à sua classe.
A psicologia da mulher do novo tipo, da mulher independente e celibatária, reflete sobre a das demais mulheres que permanecem ainda na retaguarda em relação a seu tempo. Os traços característicos, formados na luta pela vida, das trabalhadoras convertem-se pouco a pouco, gradativamente, nas características das outras mulheres que ficaram atrasadas. Pouco importa que as mulheres trabalhadoras sejam apenas minoria, que para cada mulher do novo tipo haja duas, talvez três mulheres pertencentes ao tipo antigo. As mulheres trabalhadoras são as que dão tom à vida e determinam a figura de mulher que caracteriza uma época determinada.
A psicologia da mulher do novo tipo, da mulher independente e celibatária, reflete sobre a das demais mulheres que permanecem ainda na retaguarda em relação a seu tempo. Os traços característicos, formados na luta pela vida, das trabalhadoras convertem-se pouco a pouco, gradativamente, nas características das outras mulheres que ficaram atrasadas. Pouco importa que as mulheres trabalhadoras sejam apenas minoria, que para cada mulher do novo tipo haja duas, talvez três mulheres pertencentes ao tipo antigo. As mulheres trabalhadoras são as que dão tom à vida e determinam a figura de mulher que caracteriza uma época determinada.
As mulheres do novo tipo, ao criar os valores morais e sexuais, destróem os
velhos princípios na alma das mulheres que ainda não se aventuraram a empreender
a marcha pelo novo caminho. São estas mulheres do novo tipo que rompem com os
dogmas que as escravizavam.
A influência das mulheres trabalhadoras estende-se muito além dos limites de
sua própria existência. As mulheres trabalhadoras contaminam com sua crítica a
inteligência de suas contemporâneas, destróem os velhos ídolos e hasteiam o
estandarte da insurreição para protestar contra as verdades que as submeteram
durante gerações. As mulheres do novo tipo, celibatário e independente, ao se
libertarem, libertam o espfrito agrilhoado, durante séculos, de outras mulheres
ainda submissas.
É certo que a mulher do novo tipo já penetrou na literatura. Mas está ainda muito longe de haver expulsado as heroínas de estrutura moral pertencentes aos tempos passados. Tampouco conseguiu a mulher-individualidade descartar-se do tipo de mulher esposa, eco do homem. Entretanto, é fácil observar que ainda nas heroínas do tipo antigo se encontram, cada vez com maior freqüência, as propriedades e os traços psicológicos que possibilitaram a vida das mulheres do tipo celibatário e independente. Os escritores dotam involuntariamente suas heroínas com sentimentos e características que não eram, de modo algum, próprios das heroínas da literatura do período precedente.(4)
É certo que a mulher do novo tipo já penetrou na literatura. Mas está ainda muito longe de haver expulsado as heroínas de estrutura moral pertencentes aos tempos passados. Tampouco conseguiu a mulher-individualidade descartar-se do tipo de mulher esposa, eco do homem. Entretanto, é fácil observar que ainda nas heroínas do tipo antigo se encontram, cada vez com maior freqüência, as propriedades e os traços psicológicos que possibilitaram a vida das mulheres do tipo celibatário e independente. Os escritores dotam involuntariamente suas heroínas com sentimentos e características que não eram, de modo algum, próprios das heroínas da literatura do período precedente.(4)
A literatura contemporânea é rica, sobretudo, em figuras de mulheres do tipo
transitório. É rica em heroinas que têm simultaneamente as características da
mulher antiga e da mulher nova. Por outro lado, ainda nas mulheres do tipo
celibatário já formado, observa-se um processo de transformação dos novos
valores, que podem ser abafados pela tradição e por uma série de pensamentos
superados. A força dos séculos é demasiado grande e pesa muito sobre a alma da
mulher do novo tipo. Os sentimentos atávicos perturbam e debilitam as novas
sensações. As velhas concepções da vida prendem ainda o espírito da mulher que
busca sua libertação. O antigo e o novo se encontram em continua hostilidade na
alma da mulher. Logo, as heroínas contemporâneas têm que lutar contra um
inimigo que apresenta duas frentes: o mundo exterior e suas próprias
tendências, herdadas de suas mães e avós.
Como disse Hedwig Dohn, “os novos pensamentos já nasceram em nós, mas os
antigos ainda não morreram. Os restos das gerações passadas não perderam sua
força, ainda que possuamos a formação intelectual, a força de vontade da mulher
do novo tipo.” A reeducação da psicologia da mulher, necessária às novas
condições de sua vida econômica e social, não pode ser realizada sem luta. Cada
passo dado nesse sentido provoca conflitos, que eram completamente
desconhecidos das heroinas antigas. São esses conflitos que inundam a alma da
mulher, os que pouco a pouco chamam a atenção dos escritores e acabam por
converter-se em manancial de inspiraçao artística. A mulher transforma-se
gradativamerite. E de objeto da tragédia masculina converte-se em sujeito de
sua própria tragédia.
O amor e a nova moral
Nos anos de 1910 e 1911, período
durante o qual diminuiu na Rússia o interesse pelos problemas sexuais, apareceu
na Alemanha um estudo psico-sociológico de Grete Meisel-Hess sobre a crise
sexual, livro que não foi um êxito público. O romance de Karin Michaelis, A
Idade Perigosa, publicado pouco depois, livro que carece de grande valor
artístico e cuja audácia não vai além dos limites permitidos pelas
conveniências de bom tom literário, relegou a segundo plano, com o seu
imerecido êxito, a obra de Meisel-Hess.(5) Foi qualificado pela crítica
como “um livro bem escrito, mas sem nenhum valor científico.” Unicamente entre
as altas rodas intelectuais, entre a nata da sociedade alemã, este livro foi
saudado com aplausos por alguns e com mostras de desagrado e indignação por
outros, sorte comum a todo sincero investigador da verdade.
O fato de que o livro de Meisel-Hess careça de uma série de qualidades
científicas, o fato de que se possa reprovar a falta de método e análise, o
fato de que não siga um procedimento sistemático, e que seu pensamento seja em
alguns momentos inseguro e sinuoso, e que repita coisas ja expostas, não pode
diminuir de modo algum o valor desse trabalho.
Um hálito de frescor se desprende do livro. A investigação da verdade enche as
páginas vivas e apaixonadas desta exposição, na qual se reflete uma vibrante
alma de mulher, que conhece perfeitamente a vida. Os pensamentos de Meisel-Hess
não são novos, flutuam no ambiente, enchem e saturam toda a nossa atmosfera
moral.
Os problemas que Meisel examina nos são conhecidos. Todos nós temos meditado
sobre eles, vivêmo-los em toda a sua dor. Não há nenhuma pessoa que depois de
refletir sobre esse problema não haja chegado por um caminho ou por outro, às
conclusões gravadas nas páginas do livro A Crise Sexual. Mas, fiéis à
hipocrisia que nos domina, continuamos adorando publicamente o velho ídolo: a
moral burguesa. O mérito de Meisel-Hess é semelhante ao do menino do conto de
Andersen. Meisel-Hess atreveu-se a gritar à sociedade “que o rei está nu”, ou
seja, que a moral sexual contemporânea não passa de uma vã ficção.
Com efeito, as normas morais que regulam a vida sexual do homem não podem ter
mais do que duas finalidades, dois objetivos. Primeiro, assegurar à humanidade
uma descendência sã, normalmente desenvolvida: contribuir para a seleção
natural no interesse da espécie. Segundo, contribuir para o desenvolvimento da
psicologia humana, enriquecê-la com sentimentos de solidariedade, de
companheirismo, de coletividade. A moral sexual atual, como moral que serve
unicamente aos interesses da propriedade, não preenche nenhuma destas duas
finalidades. Todo o código complicado da moral sexual contemporânea, com o
matrimônio monogâmico indissolúvel, que raras vezes está baseado no amor, e a
instituição da prostituição, tão difundida e organizada, não só não contribui
para o saneamento e o melhoramento da espécie, como produz efeitos contraditórios,
ou seja, favorece a seleção natural em sentido inverso. A moral contemporânea
não faz mais do que conduzir a humanidade pelo caminho da degenerescência
ininterrupta.
Os matrimônios tardios, a esterilidade forçada nos períodos mais favoráveis para
a concepção, o recurso da prostituição completamente inútil do ponto de vista
do interesse da espécie, a ausência de um fator tão importante como o êxtase
amoroso nos matrimônios convencionais, no matrimônio legal e indissolúvel; o
fato de que os modelos femininos mais formosos, os mais capacitados para
provocar as emoções eróticas dos homens fiquem reduzidos à esterilidade da
prostituição; a condenação à morte que pesa sobre os filhos do amor, produtos
ilegais da espécie, freqüentemente os mais valiosos por serem os mais sãos e
vigorosos, tudo isto é resultado direto da moral corrente, resultado que conduz
irremediavelmente à realidade, decadência e degenerescência física e moral da
humanidade.
O propósito de Meisel-Hess, de harmonizar a moral sexual e o objetivo da
higiene da espécie, merece uma grande atenção e deve interessar principalmente
aos partidários da concepção materialista da história. A defesa da jovem
geração trabalhadora, a proteção da maternidade, da infância, a luta contra a
prostituição e outras reivindicações dos programas socialistas contêm, no
essencial, a higiene da espécie na sua mais ampla acepção. Tirar da moral
sexual a auréola do inviolável imperativo categorico, harmonizar a moral sexual
com as necessidades vitais e práticas e com as exigências da vanguarda da
humanidade, é a tarefa que deve figurar na ordem do dia e que requer
forçosamente a atenção reflexiva e consciente de todos os programas
socialistas.
Por muito valiosos que sejam os pensamentos de Meisel-Hess sobre essa questão,
ultrapassaríamos indubitavelmente os limites do ensaio se nos dedicássemos a
analisar detalhadamente esta parte do livro. Portanto, somente examinaremos,
aqui, a segunda parte do problema sexual. Unicamente estudaremos as respostas,
não menos valiosas e interessantes de Meisel-Hess à segunda pergunta: atingem
seus fins as formas atuais da moral sexual? Ou seja, contribuem para
desenvolver no homem sentimentos de solidariedade, de companheirismo e
consequentemente para o enriquecimento da psicologia humana?
Depois de submeter a uma análise sistemática as três formas fundamentais da
união entre os sexos, o matrimônio legal, a livre união e a prostituição,
Meisel-Hess chega a uma conclusão pessimista, porém inevitável, de que no mundo
capitalista todas essas formas, tanto umas como outras, marcam e deformam a
alma humana e contribuem para a perda de qualquer esperança de se conseguir uma
felicidade sólida e duradoura, numa comunidade de almas profundamente humanas:
no estado invariável e estagnado da psicologia contemporânea não há solução
possível para a crise sexual.
Somente uma transformação fundamental da psicologia humana poderá transpor a
porta proibida, somente o enriquecimento da psicologia humana no potencial do
amor pode transformar as relações entre os sexos e convertê-las em relações
impregnadas de verdadeiro amor, dotadas de uma afinidade real, em uniões
sexuais que nos tomem felizes. Porém, uma transformação desse gênero exige
inevitavelmente a transformação fundamental das relações econômico-sociais:
isto é, exige o estabelecimento do regime comunista.
Quais são os defeitos fundamentais, as partes sombrías do matrimônio legal? O
matrimônio legal está fundado em dois princípios igualmente falsos: a
indissolubilidade, por um lado, e o conceito de propriedade, da posse absoluta
de um dos cônjuges pelo outro.
A indissolubilidade do matrimônio legal está baseada numa concepção contrária a
toda ciência psicológica; na invariabilidade da psicologia humana no transcurso
de uma longa vida. A moral contemporânea obriga o homem a encontrar sua
felicidade a qualquer preço e, ao mesmo tempo, exige dele que descubra esta
felicidade na primeira tentativa, sem equivocar-se nunca. A moral contemporânea
não admite que o homem se equivoque na sua escolha entre milhares de seres que
o cercam. Necessariamente o homem tem que encontrar uma alma que se harmonize
com a sua, um segundo único eu que o fará feliz no casamento. Quando um ser
humano se equivoca na sua escolha, principalmente se o ser que vacila e se
perde na busca do ideal é uma mulher, a sociedade, tão exigente e deformada
pela moral contemporânea, não o acode. Pouco importa à sociedade que a alma e o
coração de uma mulher que se equivoca, se destrocem no fragor das decepções.
Não a ajudará, mas, ao contrário, a perseguirá com fúria vingativa para,
inexoravelmente, condená-la.
A delicada flor da moral sexual é uma felicidade adquirida à custa da
escravidão da mulher à sociedade. Uma leal separação do casal é considerada
pela atual sociedade, interessada unicamente na idéia da propriedade e não nos
destinos da espécie, nem sequer na felicidade individual, como a ofensa maior
que se lhe pode infligir. Entretanto, nada mais certo, observa com grande
tristéza Meisel-Hess, do que a semelhança entre o matrimônio e uma casa
habitada. Suas más condições só são descobertas após habitá-la por algum tempo.
“Se nos vemos obrigados a mudar freqüentemente de casas sem conforto e pouco
apropriadas a nossas necessidades, sentimo-nos como perseguidos pela má
estrela. Mas, indiscutivelmente, a situação se toma muito mais terrível se a
necessidade nos obriga a viver todo o resto da existência em péssimas
condições”. “A transformação das uniões amorosas no curso da vida humana” -
continua Meisel-Hess - “e durante o processo de evolução de uma individualidade
é um fato que terá que ser reconhecido pela sociedade futura como algo normal e
inevitável.”
“A indissolubilidade do matrimônio legal é ainda mais absurda se leva em conta
que a maioria dos casamentos se realizam às cegas, isto é, as duas partes, o
homem e a mulher, só têm uma idéia confusa uma da outra. Não éapenas o fato de
que um dos cônjuges desconheça completamente a natureza psicológica do outro,
mas algo muito mais grave. Os esposos ignoram, ao contrair o matrimônio legal,
que será indissolúvel, se existe entre eles uma afinidade física, harmonia sem
a qual não é possível a felicidade”.
As noites de provas, praticadas com tanta freqüência na Idade Média, dizem
Meisel-Hess, não são de modo algum uma absurda indecência. Praticadas em outras
condições e tendo como finalidade o interesse da espécie e consideradas um meio
de assegurar a felicidade individual, poderiam, inclusive, conquistar direito à
cidadania.
O segundo fator que envenena o matrimônio legal é a idéia de propriedade, de
posse absoluta de um dos cônjuges pelo outro. Não pode haver, na realidade, um
contra-senso maior. Dois seres, cujas almas só têm raros pontos de contato, têm
necessariamente que adaptar-se um ao outro, em todos os diversos aspectos de
seu múltiplo eu. O absolutismo da posse encerra, irremediavelmente, a presença
contínua desses dois seres, associação que é tão doentia para um como para
outro. A idéia da posse não deixa livre o eu, não há momento de solidão para a
própria vontade e, se a isto se acrescenta a coação exercida pela dependência
econômica, já não fica nem sequer um pequeno recanto próprio. A presença
contínua, as exigências inevitáveis que se fazem ao objeto possuído são a causa
de como um ardente amor se transforma em indiferença, essa terrível indiferença
que leva dentro de si raciocínios insuportáveis e mesquinhos. Com efeito: temos
necessariamente que estar de acordo com MeiselHess quando diz que uma vida em
comum demasiado limitada é a causa principal que faz murchar a delicada flor primaveril
do mais puro entusiasmo amoroso. Quantas precauções uma alma deve ter com a
outra, que imensas reservas de afetuoso calor são necessárias para que se possa
colher, já no outono, os frutos saborosos de uma profunda e indissolúvel adesão
entre duas pessoas!
Não é só isso. Os fatores de indissolubilidade e propriedade, fundamentos do
matrimônio legal, exercem um efeito nocivo sobre a alma humana. Estes dois
fatores exigem poucos esforços psíquicos para conservar o amor de um
companheiro de vida, porquanto se está ligado a ele, indissoluvelmente, por
correntes exteriores. A forma atual do matrimônio legal não faz, portanto, mais
que empobrecer o espírito e não contribui de modo algum para a acumulação na
humanidade de reservas desse grande amor que foi a profunda nostalgia de toda a
vida do gênio russo Tolstoi.
Deforma-se, ainda mais, a psicologia humana com outro aspecto da união sexual:
a prostituição.
Pode haver algo mais monstruoso do que o fato amoroso degradado até ao ponto de se fazer dele uma profissao?
Pode haver algo mais monstruoso do que o fato amoroso degradado até ao ponto de se fazer dele uma profissao?
Deixemos de lado todas as misérias sociais que vêm unidas à prostituição, os
sofrimentos físicos, as enfermidades, as deformações e a degenerescência da
raça, e detenhamo-nos somente ante a questão da influência que a prostituição
exerce sobre a psicologia humana. Não há nada que prejudique tanto as almas
como a venda forçada e a compra de carícias de um ser por outro com que não tem
nada em comum. A prostituição extingue o amor nos corações.
A prostituição deforma as idéias normais dos homens, empobrece e envenena o
espírito. Rouba o que é mais valioso nos seres humanos, a capacidade de sentir
apaixonadamente o amor, essa paixão que enriquece a personalidade pela entrega
dos sentimentos vividos. A prostituição deforma todas as noções que nos levam a
considerar o ato sexual como um dos fatores essenciais da vida humana, como o
acorde final de múltiplas sensações físicas, levando-nos a estimá-lo, em troca,
como um ato vergonhoso, baixo e grosseiramente bestial. A vida psicológica das
sensações na compra de carícias tem repercussões que podem produzir
conseqüências muito graves na psicologia masculina. O homem acostumado à
prostituição, relação sexual na qual estão ausentes os fatores psíquicos,
capazes de enobrecer o verdadeiro êxtase erótico, adquire o hábito de se
aproximar da mulher com desejos reduzidos, com uma psicologia simplista e
desprovida de tonalidades. Acostumado com as carícias submissas e forçadas, nem
sequer tenta compreender a múltipla atividade a que se entrega a mulher amada
durante o ato sexual. Esse tipo de homem não pode perceber os sentimentos que
desperta na alma da mulher. É incapaz de captar seus múltiplos matizes. Muitos
dos dramas têm como causa essa psicologia simplista com que o homem se aproxima
da mulher, e que foi engendrada pelas casas de lenocínio. A prostituição
estende, de modo inevitável, suas asas sombrias tanto sobre a cabeça da mulher
livremente amada como sobre a esposa ingênua e amorosa e sobre a amante
intuitivamente exigente. A prostituição envenena implacavelmente a felicidade
do amor das mulheres que buscam no ato sexual o desfecho de uma paixão
correspondida, harmoniosa e onipotente.(6)
A mulher normal busca no ato sexual a plenitude e a harmonia. O homem, pelo
contrário, formado como está na prostituição, que extermina a múltipla vibração
das sensações do amor, entrega-se apenas a um pálido e uniforme desejo físico
que deixa em ambas as partes, insatisfação e fome psíquica. A incompreensão
mútua cresce quanto mais desenvolvida está a individualidade da mulher quanto
maiores são suas exigências psíquicas, o que traz como resultado uma grave
crise sexual. Portanto, a prostituição é perigosa, pois sua influência se
estende muito além de seu próprio domínio.
Meisel-Hess diz:
Meisel-Hess diz:
“Deixando de lado a questão da degenerescência fisiológica da humanidade, as
enfermidades venéreas, o empobrecimento fisico da espécie, levaremos em conta
ainda outro fator psicológico que obscurece os impulsos morais, mancha e
deforma o sentimento erótico e impede que o homem e a mulher se compreendam
cada vez menos e não saibam gozar sem se enganar mutuamente.”
A terceira forma das relações sexuais, a união livre, traz dentro de si,
também, muitos aspectos igualmente sombrios. As imperfeições dessa forma sexual
são de um caráter reflexo: o homem de nossa época vê a união livre com uma
psicologia já deformada por uma moral falsa e doentia, fruto do matrimônio
legal, por um lado, e do lúgubre abismo da prostituição, por outro. O amor
livre choca-se com dois obstáculos inevitáveis: a incapacidade para sentir o
amor verdadeiro, essência do nosso mundo individualista, e a falta de tempo
indispensável para entregar-se aos verdadeiros prazeres morais. O homem atual
não tem tempo para amar. Nossa sociedade, fundada sobre o princípio da
concorrência, sobre a luta, cada vez mais dura e implacável, pela subsistência,
para conquistar um pedaço de pão, um salário ou um ofício, não deixa lugar ao
culto do amor. A pobre Aspásia esperará, inutilmente, nos dias de hoje, sobre o
leito coberto de rosas, o companheiro de seus prazeres. Aspásia não pode
repartir seu leito com um homem grosseiro, de nível moral indigno dela. Mas o
homem moralmente nobre não tem tempo para passar as noites a seu lado.
Meisel-Hess observa, com toda razão, um fato que se dá com extraordinária
freqüência: o homem do nosso tempo considera o amor-paixão como a maior das
desgraças que lhe pode acontecer. O amor-paixão é um obstáculo para a
realização dos objetivos essenciais de sua vida: a conquista de uma posição, de
um capital, de uma colocação segura, da glória, etc. O homem tem medo dos laços
de um amor forte e sincero que o separaria, possivelmente, do principal
objetivo de sua vida. A livre união, no complicado ambiente que nos rodeia,
exige por sua vez uma perda de tempo e de forças morais infinitamente maiores
do que um matrimônio legal ou do que as carícias compradas.
Os encontros ocupam horas preciosas para os negócios. Ao mesmo tempo milhares
de demônios ameaçam o casal unido unicamente pelos laços do amor. Uma
casualidade é suficiente para que se origine um desacordo momentâneo e,
imediatamente, se produza a separação. O amor livre, nas condições atuais da
sociedade, termina sempre numa separação ou num matrimônio legal.
Segundo Meisel-Hess, não nasceu ainda o homem forte e consciente que seja capaz de considerar o amor como parte integrante da totalidade de seus objetivos vitais. Por esta razão, o homem atual, absorvido por sérios trabalhos, prefere abrir a bolsa e manter uma amante ou comprometer-se com uma mulher, dando-lhe seu nome e tomando sob sua responsabilidade a carga de uma família legal. Tudo isto é melhor do que perder um tempo tão valioso e dilapidar suas energias nas horas entregues aos prazeres do amor.
Segundo Meisel-Hess, não nasceu ainda o homem forte e consciente que seja capaz de considerar o amor como parte integrante da totalidade de seus objetivos vitais. Por esta razão, o homem atual, absorvido por sérios trabalhos, prefere abrir a bolsa e manter uma amante ou comprometer-se com uma mulher, dando-lhe seu nome e tomando sob sua responsabilidade a carga de uma família legal. Tudo isto é melhor do que perder um tempo tão valioso e dilapidar suas energias nas horas entregues aos prazeres do amor.
A mulher, particularmente as mulheres que vivem de um trabalho independente
(este tipo de mulher Constitui 40 ou 50%, em todos os países civilizados), tem
que enfrentar o mesmo dilema que o homem: vêem-se obrigadas a escolher entre o
amor e a profissão. A situação da mulher que trabalha se complica ainda mais
com a maternidade. É suficiente determo-nos um momento na biografia das
mulheres que se distinguiram na vida, para convencermo-nos do conflito
inevitável entre o amor e a maternidade, por um lado, e a profissão e a
vocação, por outro. Talvez o motivo pelo qual as exigências da mulher
independente, em relação ao homem, aumentem cada vez mais, seja precisamente o
fato de que esse tipo de mulher deposita na balança da felicidade do amor
livre, além de sua alma, seu trabalho querido, uma profissão conquistada.
Devido a isto, esta mulher exige em troca, como compensação por tudo a que
renunciou, o mais rico dom: a alma do homem.
A união livre sofre as conseqüências da ausência de um fator moral, da falta de
consciência e um dever interior. No estado atual das relações sociais, não há
motivo para se acreditar que esta forma de união sexual seja bastante forte
para ajudar a humanidade a sair da encruzilhada em que se encontra a crise
sexual, solução que esperam, entretanto, os partidários do amor livre. A
solução para este complicado problema só é possível mediante uma reeducação
fundamental de nossa psicologia, reeducação esta que, por sua vez, só é
possível por uma transformação de todas as bases sociais que condicionam o
conteúdo moral da Humanidade. As medidás e reformas pertencentes ao domínio da
política social, que indica Meisel-Hess como um remédio, não contêm no
fundamental nada essencialmente novo. Correspondem, completamente, às
reivindicações do programa socialista: independência econômica da mulher,
verdadeira proteção e segurança à maternidade e à infância, luta contra a
prostituição em sua base econômica, supressão da noção de filhos legítimos e
ilegítimos, substituição do matrimônio religioso pelo matrimônio civil,
facilmente anulável, reconstrução fundamental da sociedade segundo os
prirtcípios comunistas. O mérito de Meisel-Hess não fica, pois, nas
reivindicações político-sociais, que julga necessárias e que são análogas às
dos programas socialistas, O que éverdadeiramente essencial em sua detalhada
investigação em busca da verdade sexual, é que entrou inconscientemente, sem
ser socialista militante, no único caminho de solução possível do problema
sexual. Mas, todas as reformas sociais, condições indispensáveis para as novas
relações entre os sexos, serão insuficientes para resolver a crise sexual se,
ao mesmo tempo, não se forma uma força criadora poderosa, capaz de aumentar o
potencial de amor da humanidade.
A perspicácia intelectual de Meisel-Hess é o que leva esta escritora à mesma
conclusão, de modo completamente intuitivo.
Meisel-Hess compreendeu que toda a atenção da sociedade no que se refere à
educação e à formação do espírito, no domínio das relações sexuais, deve
modificar-se.
A união dos sexos, como a entende Meisel-Hess, isto é, a união fundamentada
numa profunda identificação, na harmoniosa consonância de corpós e de almas,
será por muito tempo o ideal da humanidade fritura. Porque não se deve esquecer
que o matrimônio baseado no verdadeiro amor é algo que se dá raramente, O amor
verdadeiro só ocorre a poucos.
Milhões de seres não conheceram na vida seus encantos. Qual será, pois, o
destino destes deserdados? Estarão para sempre condenados ao matrimônio de
conveniência? Não terão outro recurso, além da prostituição? Terão que se
propor eternamente o dilema, proposto à atual sociedade, de enfrentar o raro
amor verdadeiro ou de padecer de fome sexual?
Meisel-Hess prossegue na sua investigação e descobre nova solução. Onde não
existe o amor verdadeiro este é substituído pelo amor jogo. Para que o amor
verdadeiro chegue a ser patrimônio de toda a humanidade é preciso passar por
difícil, porém enobrecedora escola de amor. O amor jogo é também uma escola, é
um meio de acumulação do potencial do amor na psicologia humana.
Que será este amor jogo, no qual Meisel-Hess baseia tantas esperanças?
Que será este amor jogo, no qual Meisel-Hess baseia tantas esperanças?
O amor jogo, em suas diversas formas, encontra-se em todas as épocas da
história da humanidade. Nas relações entre a antiga hetaira e seu amigo, no
amor galante da época da Renascença entre a cortesã e seu amante protetor, na amizade
erótica da modista, livre como um pássaro, e seu companheiro estudante. Em
todas estas relações podemos encontrar facilmente os elementos principais deste
sentimento. Não é o Eros que a tudo devora, que exige a plenitude e a posse
absoluta, mas tampouco é a brutal sexualidade reduzida meramente ao ato
fisiológico. O amor jogo que nos descreve Meisel-Hess não pode ser tampouco o
amor nascido de uma psicologia simplista.
O amor jogo é exigente. Seres que se aproximam unicamente por causa de uma
simpatia mútua, que só esperam um do outro a amabilidade e o sorriso da vida,
não podem permitir que se torture impunemente sua alma, não podem consentir que
se esqueça sua personalidade nem que se ignore seu mundo interior. O amor jogo,
que exige dos dois seres unidos maior atenção mútua, mais delicadezas em todas
as suas relações, pode acabar no homem, pouco a pouco, com o egoísmo profundo,
que marca hoje em dia, indelevelmente, todos os seus sentimentos amorosos. Uma
atitude solícita em relação à alma do outro, além de servir de estimulo aos
sentimentos de simpatia, desenvolve a intuição, a sensibilidade e a delicadeza.
Em terceiro lugar, o amor jogo, por não ter como ponto de partida o princípio
da posse absoluta, acostuma os homens a entregar à pessoa amada a parte mais
agradável de seu eu, a parte que faz a vida mais agradável e harmoniosa. Admite
Meisel-Hess que este amor jogo iniciaria os homens numa virtude superior.
Ensiná-los-ia a não entregar-se inteiramente, a não ser quando encontrassem um
sentimento constante e profundo. A tendência atual leva-nos a atentar contra a
personalidade do outro, desde o primeiro beijo. Estamos dispostos a entregar
totalmente nosso coração, embora o outro ainda não sinta nenhuma atração. E
necessário não esquecer nunca que unicamente o sagrado amor verdadeiro pode ter
suficiente força para conceder direitos.
Há ainda outras vantagens no amor jogo ou amizade erótica. Esta relação sexual
ensina os homens a resistir àpaixão que degrada e oprime o indivíduo.
Meisel-Hess afirma: “este ato espantoso que podemos classificar de penetração
pela violência no eu do outro, não pode dar-se no amor jogo. O amor jogo exclui
o pecado maior do amor: “A perda da personalidade na corrente da paixão”. A
humanidade contemporânea vive sob o sombrio signo da paixão, sempre ávida a
devorar o eu do outro. No romance de Lasswitz, uma habitante de Marte replica
àproposição de um habitante da Terra: “Neste ligeiro jogo dos sentimentos,
teria que descer e dobrar-me à escravidão da paixão, perder minha liberdade,
descer contigo àTerra... vossa terra é maior, talvez, mais bela que nosso
planeta, mas eu certamente morreria em sua densa atmosfera. Pesados como vosso
ar são vossos corações. E eu não sou mais que Numa...”
A época atual caracteriza-se pela ausência da arte de amar. Os homens
desconhecem em absoluto a arte de saber conservar relações amorosas, claras,
luminosas, leves. Não sabem todo o valor que encerra a amizade amorosa. O amor
para os homens de nossa época é uma tragédia que destroça a alma, ou um vaudeville.
É preciso tirar a humanidade desse atoleiro: ensinar aos homens a viver horas
cheias de beleza, claras, sem grandes cuidados. A psicologia do homem não
estará aberta para receber o verdadeiro amor, purificado de todos os seus
aspectos sombrios, até que passe pela escola da amizade amorosa. Cada novo amor
(não nos referimos, naturalmente, ao ato brutal, meramente fisiológico) em vez
de empobrecer a alma humana, contribui para enriquecê-la. “Um coração humano
são e rico” - diz Meisel-Hess - “não é um pedaço de pão que diminui à medida
que nós o comemos”. O amor é uma força que quanto mais se consome mais cresce.
“Amar sempre, amar profundamente, em todos os momentos da nossa vida, amar
sempre e cada vez com maior abnegação, é o destino ardente de todo grande
coração.” O amor em si é uma grande força criadora. Engrandece e enriquece a
alma daquele que o sente, tanto como a alma de quem o inspira.
Se a humanidade não tivesse o amor, sentir-se-ia roubada, deserdada e
desgraçada. O amor será seguramente o culto da humanidade futura. Hoje em dia o
homem necessita, para poder lutar, viver, trabalhar e criar, sentir-se
afirmado, reconhecido, O que se sente amado sabe que há alguém que reconhece
sua personalidade, em todo seu valor, e, precisamente pela consciência de
sentir-se afirmado, nasce a suprema alegria de viver. Mas, este reconhecimento
do eu, esta vitória sobre o fantasma ameaçador da solidão moral, não se pode
alcançar, de modo algum, com a satisfação brutal do desejo fisiológico. “Só o
sentimento de uma total harmonia com o ser amado pode extinguir esta sede”. Só
o verdadeiro amor pode nos dar a plena satisfação. Portanto, a crise sexual é
muito mais aguda quando as reservas do potencial do amor são menores, quando os
laços sociais são mais limitados, quando a psicologia humana é mais pobre em
sentimentos de solidariedade.
Desenvolver este imprescindível potencial do amor, educar, preparar a
psicologia humana para que esteja em condições de receber o verdadeiro amor,
esta é precisamente a finalidade que deve cumprir o amor jogo ou amizade
erótica.
Podemos dizer que o amor jogo não é mais que um substituto do verdadeiro amor.
“Isto não é suficiente”, dirão ainda alguns. Neste caso, responde Meisel-Hess,
que se atrevam a olhar em tomo de si e se dêem conta com o que subsfituem na
sociedade moderna o verdadeiro amor! A prostituição disfarçada de verdadeiro
amor! Que grande hipocrisia, que terríveis reservas de mentiras sexuais se
acumulam nesse aspecto! Vejamos um exemplo da vida tomada ao acaso. Dois noivos
se sentem possuídos pelo mesmo desejo. A severa moral contemporânea proíbe sua
satisfação e lhes impõe um decisivo, ainda não. Portanto, o noivo vai à casa da
prostituta, que não deseja suas carícias, mas que tem que entregar-se a ele,
enquanto a noiva se consome na espera da autorização legal. Seria muito mais
natural, e desde logo muito mais moral, que estes dois seres, motivados por um
mesmo desejo, encontrassem a mútua satisfação de sua carne em si próprios, sem
buscar a cumplicidade de uma terceira pessoa, completamente alheia à situação
que eles mesmos criaram.
Além dos aspectos fundamentais de caráter econômico-social, a prostituição
implica um fator psicológico determinante que está profundamente gravado no
espírito humano: a satisfação de uma necessidade erótica sem outra preocupação
ulterior, a liberdade de sua alma e de seu futuro, sem a necessidade de se
colocar aos pés de um ser interiormente alheio a seu eu. E necessário dar
liberdade a esse instinto natural. Não se pode enforcar um enamorado com a
corda do matrimônio. O amor jogo indica o caminho a seguir. “Se queremos ser
sinceros, se não admitimos a hipocrisia da moral e a mentira sexual, não há
motivo para negar a possibilidade de uma solução semelhante para a humanidade
colocada em grau superior da evolução social” - diz Meisel-Hess.
Diante de uma série de reformas sociais, que MeiselHess assinala como uma
condição indispensável de todas as suas deduções morais, que delito pode haver
no fato do êxtase erótico - lançar um ser nos braços do outro?
Finalmente, os limites da amizade erótica são muito amplos e podem estender-se
ainda mais. Ocorre com muita freqüência que dois seres que se aproximaram
atraídos por uma livre simpatia cheguem a conhecer-se mutuamente, ou seja, que
do amor jogo nasça o amor verdadeiro. Para que isto aconteça basta criar
possibilidades objetivas. Quais são, pois, as deduções e reivindicações
práticas a que chega Meisel-Hess?
Em primeiro lugar, a sociedade terá que acostumar-se a reconhecer todas as
formas de união entre os sexos, mesmo que estas se apresentem diante dela com
contornos novos e desconhecidos. Mas sempre que correspondam a duas condições:
que não ofereçam perigo para a espécie e que seu fator determinante não seja o
jugo econômico. O ideal continuará sendo a união monogâmica baseada num amor
verdadeiro, porém sem as caracterísficas de invariabilidade e
indissolubilidade. A mudança será tanto mais evitável quanto mais diversa for a
psicologia do homem. O concubiriato ou monogamia sucessiva será a forma fundamental
do matrimônio. Porém, ao lado desta relação sexual existe toda uma série de
aspectos diversos de uniões amorosas sempre dentro dos limites da amizade
erótica.
A segunda exigência é o reconhecimento real, não somente de palavras, mas de fato, da defesa da maternidade. A sociedade tem a obrigação de estabelecer em todo o caminho da vida da mulher, de todas as formas possíveis, postos de socorro que sustentem a mulher, moral e materialmente, durante o período de maior responsabilidade em sua vida.
A segunda exigência é o reconhecimento real, não somente de palavras, mas de fato, da defesa da maternidade. A sociedade tem a obrigação de estabelecer em todo o caminho da vida da mulher, de todas as formas possíveis, postos de socorro que sustentem a mulher, moral e materialmente, durante o período de maior responsabilidade em sua vida.
Por último, a fim de que as relações mais livres não pareçam o desenfreio
total, torna-se necessário rever todo o instrumental moral com que se equipa a
mulher solteira quando entra no caminho da vida.
A educação contemporânea somente tende a limitar, na mulher, os sentimentos de
amor. Esta educação é a causa dos corações destroçados, das mulheres
desesperadas, que se afogam na primeira tempestade. É preciso que se abram para
a mulher as múltiplas portas da vida. É preciso endurecer seu coração e foijar
sua vontade. Já é hora de ensinar à mulher a não considerar o amor como a única
base de sua vida e sim como uma etapa, como um meio de revelar seu verdadeiro
eu. É necessário que a mulher aprenda a sair dos conflitos do amor, não com as
asas quebradas e sim como saem os homens, com a alma fortalecida. É necessário
que a mulher aceite o lema de Goethe: “Saber desprezar o passado no momento em
que se quer e receber a vida como se acabasse de nascer”. Afortunadamente, já
se distinguem os novos tipos femininos, as mulheres celibatárias para as quais
os tesouros que a vida pode oferecer não se limitam ao amor.
No domínio dos sentimentos do amor esse novo tipo de mulher não permite que as
correntes da vida sejam as que dirijam seu barco: o leme está nas mãos do
timoneiro experimentado, sua vontade enrijeceu na luta pela subsistência. A
velha exclamação: “É uma mulher com passado!”, é agora glosada pela celibatária
da seguinte forma: “Esta mulher não tem passado. Que triste destino o seu!” É
certo que na realidade o novo tipo de mulher ainda não existe em grande número.
É igualmente certo que a nova era sexual, fruto de uma organização mais
perfeita da sociedade, não começará imediatamente. A deprimente crise sexual
não poderá resolver-se de uma só vez, não poderá deixar o caminho livre à moral
do futuro, sem luta. Mas, é igualmente certo que o caminho já foi encontrado e
que ao longe brilha, de par em par, a porta desejada.
O livro de Meisel-Hess nos facilita o fio de Ariadne no labirinto complexo das
relações sexuais, nos dramas psicológicos. Não falta mais nada do que utilizar
o precioso conjunto de pensamentos que nos oferece e extrair as conseqüências
em harmonia com as tarefas essenciais da classe que se eleva ao primeiro posto
na sociedade. Nossa tarefa será, portanto, após deixar de ladó pequenos
detalhes sem importância, depois de sanar inexatidões insignificantes, buscar
também nesse problema, no domínio das relações entre os sexos, na psicologia do
amor, os princípios da nova cultura em marcha, cujo triunfo se aproxima,
inevitavelmente, isto é, os princípios da cultura proletária.
As relações entre os sexos
Entre os múltiplos problemas que
perturbam a humanidade, ocupa, indiscutivelmente, um dos primeiros postos, o
problema sexual. Não há uma só nação, um só povo em que a questão das relações
entre os sexos não adquira cada dia um caráter mais violento e doloroso. A
humanidade contemporânea passa por uma crise sexual aguda. Uma crise que se
prolonga e que, portanto, é muito mais grave e difícil de resolver.
No curso da história da humanidade não encontraremos, seguramente, outra época
na qual os problemas sexuais tenham ocupado, na vida da sociedade, um lugar tão
importante, atraindo como por arte de magia, as atenções de milhões de homens.
Em nossa época, mais do que em nenhuma outra da história, os dramas sexuais
constituem fonte inesgotável de inspiração para os artistas de todos os gêneros
da Arte.
Como a terrível crise sexual se prolonga, seu caráter crônico adquire maior
gravidade e mais insolúvel nos parece a situação presente. Por isto, a
humanidade contemporânea lança-se ardentemente sobre todos os meios
conjecturáveis que tomem possível uma solução para o maldito problema. Mas, a
cada nova tentativa de solução, mais se complica o complexo emaranhado das relações
entre os sexos, dando-nos a impressão de que seria impossível descobrir o único
fio que nos serviria para desatar o complicado nó. A humanidade, atemorizada,
precipita-se de um extremo ao outro. Mas, o círculo mágico da questão sexual
permanece tão hermeticamente fechado como antes.
Os elementos conservadores da sociedade concluem que é imprescindível voltar
aos felizes tempos passados, restabelecer os velhos costumes familiares, dar
novo impulso às normas tradicionais da moral sexual. “É preciso destruir todas
as proibições hipócritas prescritas pelo código da moral sexual corrente. E
chegado o momento de se abandonar esta velharia inútil e incômoda... A
consciência individual, a vontade individual de cada ser é o único legislador
em uma questão de caráter tão íntimo” - ouve-se esta afirmação nas fileiras do
individualismo burguês. “A solução para os problemas sexuais só poderá ser
encontrada com o estabelecimento de uma nova ordem social e econômica, com uma
transformação fundamental de nossa atual sociedade” - afirmam os socialistas.
Precisamente, porém, este esperar pelo amanhã não indica que tampouco nós
conseguimos apoderar-nos do fio condutor?
A própria história das sociedades humanas nos oferece o caminho que devemos seguir em nossa investigação; e que nos é ainda indicado pela história da ininterrupta luta de classes e dos diversos grupos sociais, opostos por seus interesses e suas tendências.
A própria história das sociedades humanas nos oferece o caminho que devemos seguir em nossa investigação; e que nos é ainda indicado pela história da ininterrupta luta de classes e dos diversos grupos sociais, opostos por seus interesses e suas tendências.
Não é a primeira vez que a Humanidade atravessa um período de aguda crise
sexual. Não é a primeira vez que as aparentemente firmes e claras prescrições
da moral cotidiana, no domínio da união sexual, são destruídas pelo afluxo de
novos ideais sociais. A humanidade passou por uma época de crise sexual
verdadeiramente aguda durante os períodos do Renascimento e da Reforma, no
momento em que uma formidável modificação social relegava a segundo plano a
aristocracria feudal, orgulhosa de sua nobreza, acostumada ao dominar sem
limitações, e em seu lugar emergia uma nova força social, a burguesia
ascendente, que crescia e se desenvolvia cada vez mais, com maior impulso e
poder. O código da moral sexual do mundo feudal, nascido no seio da sociedade
aristocrática, com um sistema de economia comunal e baseado nos princípios
autoritários de castas, devorava a vontade individual dos membros dessa
sociedade que tentavam permanecer isolados. O velho código moral entrava em
choque com novos princípios, que impunham à classe burguesa em formação. A
moral sexual da nova burguesia baseava-se em princípios radicalmente opostos aos
princípios morais mais essenciais do código feudal. Em substituição ao
princípio de castas, aparecia uma severa individualização: os estreitos limites
da pequena família burguesa. O fator de colaboração, essencial na sociedade
feudal, característica de sua economia comunal, tanto como da economia
regional, era substituído pelo princípio da concorrência. Os últimos vestígios
de idéias comunais, próprias dos diversos graus de evolução das castas, foram
ultrapassados pelo triunfante princípio da propriedade privada. A humanidade,
perdida durante o processo de transição, ficou em dúvida, durante vários
séculos, entre os dois códigos sexuais, de espírito tão diverso, e permaneceu
ansiosa por adaptar-se à situação, até o momento em que a vida transformou as
velhas normas, alcançando, pelo menos, uma forma harmoniosa, uma solução quanto
ao aspecto externo.
Porém, durante esta época de transição, tão viva e cheia de colorido, a crise
sexual, apesar de revestida de caráter crítico, não se apresentou de uma forma
tão grave e ameaçadora como em nossa época. Isto se deveu ao fato de que,
durante os gloriosos dias do Renascimento, durante aquele novo século,
iluminado pela nova cultura espiritual, que coloria o agonizante mundo da Idade
Média, pobre de conteúdo, apenas uma parte relativamente reduzida da sociedade
experimentou a crise sexual. O campesinato, camada social mais considerável da
época, do ponto de vista quantitativo, sofreu as conseqüências da crise sexual
de forma indireta, quando, por lento processo secular se transformavam as bases
econômicas em que esta classe se fundamentava, isto é, unicamente à medida em
que evoluíam as relações econômicas. As duas tendências opostas lutavam nas
camadas superiores da sociedade. Neste terreno, enfrentavam-se os ideais e as
normas das duas concepções diversas da sociedade. E era onde, precisamente, a
crise sexual, cada vez mais grave e ameaçadora, fazia suas vítimas. Os
camponeses, rebeldes a qualquer inovação, classe apegada a seus princípios,
continuavam apoiando-se nos sustentáculos das tradições e o código da moral
sexual tradicional permanecia inalterável. Só se transformava, não se
abrandava. Adaptava-se às novas condições da vida econômica, sob a pressão da
grande necessidade. A crise sexual, durante a luta entre o mundo burguês e o
mundo feudal, não afetou a classe tributária. E mais, ao arruinar-se, as
tradições apegavam-se à classe camponesa com maior força. Apesar de todas as
tempestades que desabavam sobre sua cabeça, que abalavam até o solo que
pisavam, a classe camponesa, em geral, e particularmente, os camponeses russos
tentaram conservar, durante séculos e séculos, em sua forma primitiva, os
princípios essenciais de seu código moral sexual.
O problema de nossa época apresenta um aspecto totalmente distinto. A crise
sexual não perdoa sequer a classe camponesa. Como doença infecciosa, não
reconhece nem graus, nem hierarquias, contamina os palácios, as aldeias e os
bairros operários, onde vivem amontoados milhares de seres. Penetra nos lares
burgueses, abre caminho até à miserável e solitária aldeia russa, elege suas
vitimas, tanto entre os habitantes da cidade provinciana burguesa da Europa,
quanto nos úmidos sótãos, onde se amontoa a família operária, e nas enegrecidas
choças do camponês. Para a crise sexual não há obstáculos nem ferrolho. E um
profundo erro acreditar que a crise sexual só alcança os representantes das
classes que têm uma posição econômica materialmente segura. A indefinida
inquietação da crise sexual franqueia, cada vez com maior freqüência, a porta
das habitações operárias, causando tristes dramas, que por sua intensidade de
dor, não tem nada a dever aos conflitos psicológicos do mundo burguês. Porém,
justamente porque a crise sexual não ataca somente os interesses dos que tudo
possuem, precisamente porque estes problemas sexuais afetam também uma classe
social tão numerosa como o proletariado de nossos tempos, é incompreensível e
imperdoável que esta questão vital, essencialmente violenta e trágica, seja
considerada com tanta indiferença. Entre as múltiplas idéias fundamentais que a
classe trabalhadora deve levar em conta em sua luta para a conquista da
sociedade futura, deve estar, necessariamente, o estabelecimento de relações
sexuais mais sadias e que, portanto, tomem a humanidade mais feliz.
É imperdoável nossa atitude de indiferença diante de uma das tarefas essenciais
da classe trabalhadora. Éinexplicável e injustificável que o vital problema
sexual seja relegado, hipócritamente, ao arquivo das questões puramente
privadas. Por que negamos a este problema o auxílio da energia e da atenção da
coletividade? As relações entre os sexos e a elaboração de um código sexual que
regulamente estas relações aparecem na história da humanidade, de maneira
invariável, como um dos fatores da luta social. Nada mais certo do que a
influência fundamental e decisiva das relações sexuais de um grupo social e
determinado no resultado da luta dessa classe com outra, de interesses opostos.
O drama da humanidade atual é desesperador porque, enquanto diante de nossos olhos são destruídas as formas banais de união sexual e são desprezados os princípios que as regiam, das camadas mais baixas da sociedade se elevam frescos aromas desconhecidos, que nos fazem conceber esperanças risonhas sobre uma nova forma de vida e impregnam o espírito humano com a nostalgia de ideais futuros, mas cuja realização não parece possível. Nós, homens do século em que domina a propriedade capitalista, de um século onde transbordam as agudas contradições de classe; nós, homens imbuídos da moral individualista, vivemos e pensamos sob o funesto símbolo de invencível alheiamento moral.
O drama da humanidade atual é desesperador porque, enquanto diante de nossos olhos são destruídas as formas banais de união sexual e são desprezados os princípios que as regiam, das camadas mais baixas da sociedade se elevam frescos aromas desconhecidos, que nos fazem conceber esperanças risonhas sobre uma nova forma de vida e impregnam o espírito humano com a nostalgia de ideais futuros, mas cuja realização não parece possível. Nós, homens do século em que domina a propriedade capitalista, de um século onde transbordam as agudas contradições de classe; nós, homens imbuídos da moral individualista, vivemos e pensamos sob o funesto símbolo de invencível alheiamento moral.
A terrível
solidão que o homem sente nas imensas cidades populosas, nas cidades modernas
tão irrequietas e tentadoras; a solidão, que não é dissipada pela companhia de
amigos e companheiros, é que o impulsiona a buscar, com avidez doenfia, a sua
ilusória alma gêmea, num ser do sexo oposto, visto que só o amor possui o
mágico poder de afugentar, embora momentaneamente, as angústias da solidão.
Em nenhuma outra época da história os homens sentiram com tanta intensidade a solidão moral. Necessariamente tem que ser assim. A noite é muito mais impenetrável quando ao longe vemos brilhar uma luz. Os homens individualistas de nossa época, unidos por débeis laços à comunidade ou a outras individualidades, vêem brilhar ao longe uma nova luz: a transformação das relações sexuais mediante a substituição do cego fator fisiológico pelo novo fator criador da solidariedade, da camaradagem.
Em nenhuma outra época da história os homens sentiram com tanta intensidade a solidão moral. Necessariamente tem que ser assim. A noite é muito mais impenetrável quando ao longe vemos brilhar uma luz. Os homens individualistas de nossa época, unidos por débeis laços à comunidade ou a outras individualidades, vêem brilhar ao longe uma nova luz: a transformação das relações sexuais mediante a substituição do cego fator fisiológico pelo novo fator criador da solidariedade, da camaradagem.
A moral da propriedade individualista de nossos tempos começa a afogar os
homens. O homem contemporâneo não se contenta em criticar as relações entre os
sexos, em negar as formas exteriores prescritas pelo código da moral vigente.
Sua alma deseja a renovação da essência das relações sexuais, deseja ardentemente
encontrar o verdadeiro amor, essa grande força confortadora e criadora que é a
única capaz de afugentar a solidão de que padecem os individualistas
contemporâneos. Se é certo que a crise sexual está condicionada em suas três
partes pelas relações externas de caráter econômico-social, não é menos certo
que a outra quarta parte de sua intensidade édevida, à nossa refinada
psicologia individualista, que com tanto cuidado a dominante ideologia burguesa
cultivou. A humanidade contemporânea, como disse, acertadamente, Meisel-Hess, é
muito pobre em potencial de amor. Cada um dos sexos busca o outro com a única
esperança de conseguir a maior satisfação possível de prazeres espirituais e
físicos para si. Cada um utiliza o outro como simples instrumento. O amante ou
o noivo não pensa nos sentimentos, no trabalho psicológico que se efetua na
alma da mulher amada.
Talvez não haja nenhuma outra relação humana como as relações entre os sexos, na qual se manifeste com tanta intensidade o individualismo grosseiro que caracteriza nossa época. Absurdamente se imagina que basta ao homem, para escapar à solidão moral que o rodeia, o amor, exigir seus direitos sobre a outra pessoa. Espera assim, unicamente, obter esta sorte rara: a harmonia da afinidade moral e a compreensão entre dois seres. Nós, os indivíduos dotados de uma alma que se fez grosseira pelo constante culto de nosso eu, cremos que podemos conquistar sem nenhum sacrifício a maior das sortes humanas, o verdadeiro amor, não só para nós, como também para nossos semelhantes. Cremos poder conquistar isso sem dar em troca a nossa própria personalidade.
Talvez não haja nenhuma outra relação humana como as relações entre os sexos, na qual se manifeste com tanta intensidade o individualismo grosseiro que caracteriza nossa época. Absurdamente se imagina que basta ao homem, para escapar à solidão moral que o rodeia, o amor, exigir seus direitos sobre a outra pessoa. Espera assim, unicamente, obter esta sorte rara: a harmonia da afinidade moral e a compreensão entre dois seres. Nós, os indivíduos dotados de uma alma que se fez grosseira pelo constante culto de nosso eu, cremos que podemos conquistar sem nenhum sacrifício a maior das sortes humanas, o verdadeiro amor, não só para nós, como também para nossos semelhantes. Cremos poder conquistar isso sem dar em troca a nossa própria personalidade.
Pretendemos conquistar a totalidade da alma do ser amado mas, em compensação,
somos incapazes de respeitar a mais simples fórmula do amor: acercarmo-nos do
outro dispostos a dispensar-lhe todo o gênero de considerações. Esta simples
fórmula nos será unicamente inculcada pelas novas relações entre os sexos,
relações que já começaram a se manifestar e que estão baseadas também, em dois
princípios novos: liberdade absoluta, por um lado, e igualdade e verdadeira
solidariedade entre companheiros, por outro. Entretanto, por enquanto, a
humanidade tem que sofrer, ainda, a solidão moral e não há outro remédio senão
sonhar com uma época melhor na qual todas as relações humanas se caracterizem
por sentimentos de solidariedade, que serão possíveis por causa das novas
condições da existência. A crise sexual é insolúvel sem que haja uma
transformação fundamental da psicologia humana; a crise sexual só pode ser
vencida pela acumulação de potencial de amor. Mas, essa transformação psíquica
depende completamente da reorganização fundamental das relações econômicas
sobre os fundamentos comunistas. Se recusarmos esta velha verdade, o problema
sexual não terá solução.
Apesar de todas as formas de união sexual que a humanidade experimenta hoje em
dia, a crise sexual não se resolveu em nenhum lugar. Não se conheceu em nenhuma
época da história tantas formas diversas de união entre os sexos. Matrimônio
indissolúvel, com uma família solidamente constituída, e a seu lado a união
livre, passageira; o adultério conservado no maior segredo, ao lado do
matrimônio e da vida em comum de uma moça solteira com o seu amante; o
matrimônio por trás da Igreja, o matrimônio de dois, o matrimônio triângulo e,
inclusive, a forma complicada do matrimônio de quatro, sem contar as múltiplas
variantes da prostituição. Ao lado destas formas de união, entre os camponeses
e a pequena burguesia, encontramos vestígios dos velhos costumes de casta,
mesclados com os princípios em decomposição da família burguesa e
individualista; a vergonha do adultério, a vida em concubinato entre o sogro e
a nora e a liberdade absoluta para a jovem solteira. Sempre a mesma moral
dupla. As formas atuais de união entre os sexos são contraditórias e
complicadas, de tal modo, que nos interrogamos como é possível que o homem que
conservou em sua alma a fé na firmeza dos princípios morais possa continuar
admitindo essas contradições e salvar esses critérios morais irreconciliáveis,
que necessariamente se destróem um ao outro. Precisamente, o trabalho a
realizar consiste em fazer com que suija essa nova moral: é preciso extrair do
caos as normas sexuais contraditórias da época presente, as premissas dos
princípios que correspondem ao espírito da classe revolucionária em ascensão.
Além do individualismo extremado, defeito fundamental da psicologia da época
atual, de um egocentrismo transformado em culto, a crise sexual agrava-se muito
mais com outros dois fatores da psicologia contemporânea: a idéia do direito de
propriedade de um ser sobre o outro e o preconceito secular da desigualdade
entre os sexos em todas as esferas da vida.
A idéia da propriedade inviolável do esposo foi cultivada com todo o esmero
pelo código moral da classe burguesa, com sua família individualista encerrada
em si mesma, construída totalmente sobre as bases da propriedade privada. A
burguesia conseguiu com perfeição inocular essa idéia na psicologia humana. O
conceito de propriedade dentro do matrimônio vai hoje em dia muito além do que
ia o conceito da propriedade nas relações sexuais do código aristocrático. No
curso do longo período histórico que transcorreu sobre o signo do princípio de
casta, a idéia da posse da mulher pelo marido (a mulher carecia de direitos de
propriedade sobre o marido) não se estendia além da posse física, mas sua
personalidade lhe pertencia completamente.
Os cavaleiros da Idade Média chegavam inclusive a reconhecer nas suas esposas o
direito de ter admiradores platônicos e de receber o testemunho desta adoração
pelos cavaleiros e menestréis. O ideal da posse absoluta, da posse não só do eu
físico, mas também do eu espiritual por parte do esposo, o ideal, que admite
uma reivindicação de direitos de propriedade sobre o mundo espiritual e moral
do ser amado, é que se formou na mente e foi cultivado pela burguesia com o
objetivo de reforçar os fundamentos da família, para assegurar sua estabilidade
e sua força durante o período de luta para conquista de seu predomínio social.
Esse ideal não só o recebemos como herança, como também chegamos a pretender
que seja considerado um imperativo moral indestrutível. A idéia da propriedade
se estende muito além do matrimônio legal. É um fator inevitável que penetra
até na união amorosa mais livre. Os amantes de nossa época, apesar de seu
respeito teórico pela liberdade, só se satisfazem com a consciência da
fidelidade psicológica da pessoa amada. Com o fim de afugentar o fantasma
ameaçador da solidão, penetramos, violentamente, na alma do ser amado, com uma
crueldade e uma falta de delicadeza que será incompreensível à humanidade
fritura. Da mesma forma pretendemos fazer valer nossos direitos sobre o seu eu
espiritual mais intimo. O amante contemporâneo está disposto a perdoar mais
facilmente ao ser querido uma infidelidade física do que uma infidelidade moral
e pretende que lhe pertença cada partícula da alma da pessoa amada, que se
estenda mais além dos limites de sua união livre. Considera tudo isto como um
desperdício, como um roubo imperdoável de tesouros que lhe pertenciam,
exclusivameflte e, portanto, como um saque cometido à sua revelia.
Tem a mesma origem a absurda indelicadeza que cometem constantemente dois
amantes com relação a uma terceira pessoa. Todos tivemos ocasião de observar um
fato curioso que se repete continuamente: dois amantes, que mal tiveram tempo
de conhecer-se em suas relações múltiplas, apressam-se a estabelecer seus
direitos sobre as relações sexuais do outro e intervir no mais sagrado e no
mais intimo de sua vida. Seres que ontem eram dois estranhos, hoje, unicamente
porque os unem sensações eróticas, apressam-se a apossar-se da alma do outro, a
dispor da alma desconhecida e misteriosa sobre a qual o passado gravou imagens
inapagáveis e a instalar-se no seu interior como se estivesse em sua própria
casa. Esta idéia da posse recíproca de um casal amoroso estende seu domínio de
tal forma que pouco nos surpreende um fato tão anormal quanto o seguinte: dois
recém-casados viviam até ontem cada um com a sua própria vida; no dia seguinte
à sua união, cada um deles abre sem o menor escrúpulo a correspondência do
outro inteirando-se conseqüentemente, do conteúdo da carta procedente de uma
terceira pessoa que só tem relação com um dos esposos e se converte em
propriedade comum. Uma intimidade desse gênero só se pode adquirir como
resultado de uma verdadeira união entre as almas no curso de uma longa vida em
comum, de amizade posta à prova. O que se busca, em geral, é legitimar essa
intimidade, baseando-se na idéia equivocada de que comunhão sexual entre dois seres
é suficiente para estender o direito de propriedade sobre o ser moral da pessoa
amada.
O segundo fator que deforma a mentalidade do homem contemporâneo e que agrava a
crise sexual é a idéia de desigualdade entre os sexos, desigualdade de direitos
e desigualdade no valor de suas sensações psicofisiológicas. A moral dupla,
característica do código burguês e do código aristocrático, envenenou durante
séculos a psicologia de homens e mulheres e tomou muito mais difícil livrar-se
de sua influência venenosa do que das idéias referentes à propriedade de um
esposo sobre o outro, herdadas da ideologia burguesa. A concepção de
desigualdade entre os sexos, até no domínio psicofisiológico, obriga à
aplicação constante de medidas diversas para atos idênticos, segundo o sexo que
os haja realizado. Um homem de idéias avançadas no campo burguês, que soube
desde algum tempo superar as perspectivas do código da moral em uso, será
incapaz de subtrair-se àinfluência do meio ambiente e emitirá um juízo
completamente distinto, segundo se trate do homem ou da mulher. Basta um
exemplo vulgar: imaginemos que um intelectual burguês, um cientista, um
político, um homem de atividades sociais, ou seja, uma personalidade, se
enamore de sua cozinheira (fato que, aliás, se dá com bastante freqüência) e
chegue, inclusive, a casar-se com ela. Modificará a sociedade burguesa por este
fato sua conduta em relação à personalidade desse homem? Porá em questão sua
personalidade? Duvidará de suas qualidades morais? Naturalmente, não. Agora
vejamos outro exemplo: uma mulher pertencente à sociedade burguesa, uma mulher
respeitável, considerada, uma professora, médica ou escritora; uma mulher, em
suma, com personalidade, se enamora de um criado e chega ao clímax do
escândalo, consolidando esta questão com um matrimônio legal. Qual será a
atitude da sociedade burguesa em relação a esta pessoa até agora respeitada? A
sociedade, naturalmente, a mortificará com seu desprezo. Mas, será muito mais
terrível se seu marido, o criado, possui uma bela fisionomia e outros atrativos
de caráter físico. Nossa hipócrita sociedade burguesa julgará sua escolha da
seguinte forma: até onde desceu essa mulher?
A sociedade burguesa não pode perdoar a mulher que se atreve a dar à escolha do
marido um caráter individual. Segundo a tradição herdada dos costumes de casta,
a sociedade pretende que a mulher continue levando em conta, no momento de
entregar-se, uma série de considerações de graus e hierarquias sociais, a
respeito do meio familiar e dos interesses da família. A sociedade burguesa não
pode considerar a mulher independente da célula da família; é-lhe completamente
impossível apreciá-la como personalidade fora do círculo estreito das virtudes
e deveres familiares.
A sociedade contemporânea vai muito mais longe que a ordem antiga na tutela que
exerce sobre a mulher. Não só lhe prescreve casar-se unicamente com homens
dignos dela, como lhe proíbe, inclusive, que chegue a amar um ser que lhe é
socialmente inferior. Estamos acostumados a ver como homens, de nível moral e intelectual
muito elevado, escolhem para companheira de vida uma mulher insignificante e
vazia, sem nenhum valor comparado ao valor do esposo. Apreciamos este fato como
completamente normal e que, portanto, não merece sequer nossa consideração.
Tudo que pode suceder é que os amigos “lamentem que Ivan Ivanitch tenha se
casado com uma mulher insuportável”. O caso varia tratando-se de uma mulher.
Então, nossa indignação não tem limites e a expressamos com frases como a
seguinte: “Como é possível que uma mulher tão inteligente como Maria Petrovna
possa amar uma nulidade assim!... Teremos que por em dúvida sua
inteligência...”
Que determina essa maneira diferente de julgar as coisas? A que princípio
obedece uma apreciação tão contraditória? Essa diversidade de critérios tem
origem na idéia da desigualdade entre os sexos, idéia que tem sido inculcada na
humanidade durante séculos e séculos e que acabou por apoderar-se de nossa
mentalidade, orgânica-mente. Estamos acostumados a valorizar a mulher, não como
personalidade, com qualidades e defeitos individuais, independente de suas
sensações psicofisiológicas. Para nós, a mulher só tem valor como acessório do
homem. O homem, marido ou amante, projeta sobre a mulher sua luz; é a ele e não
a ela que tomamos em consideração como o verdadeiro elemento determinante da
estrutura espiritual e moral da mulher. Em troca, quando valorizamos a
personalidade do homem, fazemos por antecipação uma total abstração de seus
atos no que diz respeito às relações sexuais.
A personalidade da mulher, pelo contrário, valoriza-se em relação à sua vidá
sexual. Este modo de apreciar o valor de uma personalidade feminina deriva do
papel que representou a mulher durante séculos. A revisão de valores, neste
domínio essencial, só se faz, ou melhor dizendo, só se indica, de modo gradual.
A atenuação dessas falsas e hipócritas concepções só se realizará com a
transformação do papel econômico da mulher na sociedade, com sua entrada nas
fileiras do trabalho.
Os três fatores fundamentais que deformam a psicologia humana são os seguintes:
o egocentrismo extrema-do, a idéia do direito de propriedade dos esposos entre
si e o conceito da desigualdade entre os sexos no aspecto psicofisiológico.
Esses três fatores são os que travam o caminho que conduz à solução do problema
sexual. A humanidade não encontrará solução para este problema até que haja
acumulado em sua psicologia suficientes reservas de sensações depuradas, até
que se haja apoderado de sua alma o potencial do amor, até que o conceito da
liberdade no matrimônio e na união livre seja um fato consolidado, em suma, até
que o princípio da camaradagem haja triunfado sobre os conceitos tradicionais
de desigualdade e de subordinação nas relações entre os sexos. Sem uma
reconstrução total e fundamental da psicologia humana é insolúvel o problema
sexual.
Mas, não será essa condição prévia uma utopia desprovida de base, utopia na
qual os idealistas sonhadores baseiam suas considerações ingênuas? Tentemos
aumentar o potencial de amor da humanidade. Acaso os sábios de todos os povos,
desde Buda e Confúcio até Cristo, não se entregaram desde tempos remotos a essa
tarefa?
Entretanto, há alguém que creia que o potencial do amor aumentou na humanidade?
Reduzir a questão da crise sexual a utopias desse tipo, por muito bem intencionadas
que sejam, não significará praticamente um reconhecimento de impotência e uma
renúncia à busca de soluções possíveis?
Vejamos se isto é certo. A reeducação fundamental do ser humano no domínio das
relações sexuais não é algo impossível de se conseguir. A reeducação é possível
porque não é algo que esteja em contraposição com a vida real. Precisamente,
nos momentos atuais, observamos como se inicia um poderoso deslocamento social
e econômico, suficiente para engendrar novas bases de vida no campo dos
sentimentos e que, pelas condições que surgiram, estão de acordo com as
exigências assinaladas acima.
Na sociedade atual avança um novo grupo social que tenta ocupar o primeiro
posto e deixar de lado a burguesia, com sua ideologia de classe e seu código de
moral sexual individualista. Esta classe ascendente, de vanguarda, leva
necessariamente em seu seio os germens de novas relações entre os sexos,
relações que, forçosamente, estarão ligadas a seus objetivos sociais de classe.
A complexa evolução das relações econômico-sociais, que se verifica diante de nossos olhos, que transtorna todas as nossas concepções sobre o papel da mulher na vida sexual e destrói os fundamentos da moral sexual burguesa, traz consigo dois fatos que, à primeira vista, parecem contraditórios. Por um lado, observamos os esforços infatigáveis da humanidade para adaptar-se às novas condições da economia social transformada, esforços que tendem ou a conservar as formas antigas, dando-lhe um novo conteúdo (manutenção da forma exterior do matrimônio indissolúvel e monógamo, mas ao mesmo tempo, o reconhecimento de fato da liberdade dos esposos), ou ao contrário a aceitação de novas formas que tragam em seu interior, ao mesmo tempo, todos os elementos do código moral do matrimônio burguês (a união livre na qual o direito de propriedade dos dois esposos unidos livremente ultrapassa os limites do direito de propriedade do matrimônio legal). Por outro lado, não podemos deixar de assinalar o aparecimento, vagaroso porém invencível, de novas formas de união entre os sexos. Novas, não tanto pela forma, como pelo caráter que anima os seus preceitos.
A complexa evolução das relações econômico-sociais, que se verifica diante de nossos olhos, que transtorna todas as nossas concepções sobre o papel da mulher na vida sexual e destrói os fundamentos da moral sexual burguesa, traz consigo dois fatos que, à primeira vista, parecem contraditórios. Por um lado, observamos os esforços infatigáveis da humanidade para adaptar-se às novas condições da economia social transformada, esforços que tendem ou a conservar as formas antigas, dando-lhe um novo conteúdo (manutenção da forma exterior do matrimônio indissolúvel e monógamo, mas ao mesmo tempo, o reconhecimento de fato da liberdade dos esposos), ou ao contrário a aceitação de novas formas que tragam em seu interior, ao mesmo tempo, todos os elementos do código moral do matrimônio burguês (a união livre na qual o direito de propriedade dos dois esposos unidos livremente ultrapassa os limites do direito de propriedade do matrimônio legal). Por outro lado, não podemos deixar de assinalar o aparecimento, vagaroso porém invencível, de novas formas de união entre os sexos. Novas, não tanto pela forma, como pelo caráter que anima os seus preceitos.
A humanidade sonda com inquietação os novos ideais. Mas, basta examiná-los um
pouco, detalhadamente, para neles reconhecer, apesar de seus limites não estarem
suficientemente demarcados, os traços característicos, pelos quais se unem as
tarefas do proletariado, classe social incumbida de se apoderar da fortaleza do
futuro. Aquele que quer encontrar, no labirinto das normas sexuais
contraditórias, os germens de relações futuras entre os sexos, mais sadias e
que prometam libertar a humanidade da crise sexual, tem, necessariamente, que
abandonar os bairros onde habitam as elites, com sua refinada psicologia
individualista, e olhar as casas amontoadas dos operários, nas quais, em meio à
obscuridade e, ao horror gerados pelo capitalismo, surgem, apesar de tudo,
fontes que vivificam o amor e abrem caminho a um novo tipo de entendimento
entre homens e mulheres.
Entre a classe operária, sob a pressão de duras condições econômicas e o jugo
implacável da exploração capitalista, observa-se o duplo processo a que nos
referimos. A influência destruidora do capitalismo, que aniquila todos os
fundamentos da família operária, obriga o proletariado a adaptar-se, instintivamente,
às condições do mundo que o cerca e provoca, portanto, uma série de fatos
referentes às relações entre os sexos, análogos aos que se produzem, também, em
outras camadas da sociedade. Devido aos salários reduzidos, retarda-se,
contínua e inevitavelmente, a idade de contrair matrimônio do operário. Há um
quarto de século, um operário podia casar-se dos vinte e dois aos vinte e cinco
anos. Hoje em dia, o proletariado não pode estabelecer um lar antes dos trinta
anos, aproximadamente (7) . Além disso, quanto mais desenvolvidas
estão as necessidades culturais entre os operários, mais valor concedem à
possibilidade de seguir o ritmo na vida cultural, de ir ao teatro, de assistir
conferências, ler jornais, consagrar o tempo que o trabalho não consome à luta
sindical, à política, a uma atividade pela qual sentem atração, à arte, à
leitura, etc.
Tudo isto contribui para que o operário contraia matrimônio com maior idade.
Entretanto as necessidades fisiológicas não levam em conta o estado do bolso.
São necessidades vitais das quais não se pode prescindir e o operário solteiro,
tanto quanto o burguês solteiro, resolve seu problema na prostituição. Este
fato é um sintoma da adaptação passiva da classe operária às condições
desfavoráveis de existência. E, por causa do nível bastante baixo dos salários,
a família operária vê-se obrigada a resolver o problema do nascimento dos
filhos do mesmo modo que as famílias burguesas.
A freqüência dos infanticídios e o desenvolvimento da prostituição são fatos que podem classificar-se dentro de uma só ordem. Ambos são meios de adaptação passiva do operário à espantosa realidade que o cerca. Mas, o que não se pode esquecer é que nesse processo não há nada que caracterize, propriamente, o proletariado. Essa adaptação passiva é própria de todas as classes sociais envolvidas pela evolução mundial do capitalismo.
A freqüência dos infanticídios e o desenvolvimento da prostituição são fatos que podem classificar-se dentro de uma só ordem. Ambos são meios de adaptação passiva do operário à espantosa realidade que o cerca. Mas, o que não se pode esquecer é que nesse processo não há nada que caracterize, propriamente, o proletariado. Essa adaptação passiva é própria de todas as classes sociais envolvidas pela evolução mundial do capitalismo.
A linha de diferenciação começa, precisamente, quando entram em jogo os
princípios ativos e criadores. A delimitação começa onde já não se trata de uma
adaptação, mas de uma reação à realidade que oprime. Começa onde nascem e se
expressam novos ideais, onde surgem tímidas tentativas de relações sexuais
dotadas de um espírito novo. Ainda mais: devemos assinalar que o processo de
reação se inicia, unicamente, entre a classe operária.
Isto não quer dizer, de modo algum, que as outras classes e camadas da
sociedade, principalmente a dos intelectuais burgueses que, pelas condições de
sua existência social, se encontra mais próxima da classe operária, não se
apoderem dos elementos novos que o proletariado cria e desenvolve. A burguesia,
impulsionada pelo desejo instintivo de injetar vida nova às suas formas
agonizantes, e diante da impotência de suas diversas formas de relações
sexuais, aprende rapidamente novas formas com a classe operária. Mas,
desgraçadamente, nem os ideais nem o código da moral sexual, elaborados
gradativamente pelo proletariado, correspondem à moral das exigências burguesas
de classe. Portanto, enquanto a moral sexual, nascida das necessidades da
classe operária, converte-se para ela num instrumento novo da luta social, os
modernismos de segunda mão que dessa moral extrai a burguesia, não fazem mais
do que destruir, definitivamente, as bases de sua superioridade social.
A tentativa dos intelectuais burgueses de substituir o matrimônio indissolúvel pelos laços mais livres, mais facilmente desligáveis do matrimônio civil, atinge as bases da estabilidade social da burguesia, bases que não podem ser outras senão a família monogâmica baseada no conceito da propriedade.
Na classe operária, sucede tudo ao contrário. A maior liberdade na união entre os sexos condiz, totalmente, com as suas tarefas históricas fundamentais. E até podemos dizer que derivam diretamente dessas tarefas. O mesmo sucede com a negação do conceito de subordinação, no matrimônio, rompendo os últimos laços artificiais da família burguesa. O contrário acontece, na classe proletária. O fator de subordinação de um membro desta classe social a um outro é o mesmo que o conceito de proletariado. Não convém, de modo algum, aos interesses da classe revolucionária atar um de seus membros, visto que cada um de seus representantes, independentes diante de tudo, tem a incumbência e o dever de servir aos interesses de sua classe e não aos de uma célula familiar isolada. O dever do membro da sociedade proletária é antes de tudo contribuir para o triunfo dos interesses de sua classe, por exemplo, atuar nas greves e participar em todo o momento da luta. A moral com que a classe trabalhadora julga todos estes atos caracteriza com perfeita clareza a base da nova moral.
A tentativa dos intelectuais burgueses de substituir o matrimônio indissolúvel pelos laços mais livres, mais facilmente desligáveis do matrimônio civil, atinge as bases da estabilidade social da burguesia, bases que não podem ser outras senão a família monogâmica baseada no conceito da propriedade.
Na classe operária, sucede tudo ao contrário. A maior liberdade na união entre os sexos condiz, totalmente, com as suas tarefas históricas fundamentais. E até podemos dizer que derivam diretamente dessas tarefas. O mesmo sucede com a negação do conceito de subordinação, no matrimônio, rompendo os últimos laços artificiais da família burguesa. O contrário acontece, na classe proletária. O fator de subordinação de um membro desta classe social a um outro é o mesmo que o conceito de proletariado. Não convém, de modo algum, aos interesses da classe revolucionária atar um de seus membros, visto que cada um de seus representantes, independentes diante de tudo, tem a incumbência e o dever de servir aos interesses de sua classe e não aos de uma célula familiar isolada. O dever do membro da sociedade proletária é antes de tudo contribuir para o triunfo dos interesses de sua classe, por exemplo, atuar nas greves e participar em todo o momento da luta. A moral com que a classe trabalhadora julga todos estes atos caracteriza com perfeita clareza a base da nova moral.
Suponhamos que um reputado financista, movido unicamente por seus interesses
familiares, retire dos negócios seu capital, num momento crítico para a
empresa. Sua ação, avaliada do ponto de vista da moral burguesa não pode ser
mais evidente, porque os interesses da família devem estar em primeiro lugar.
Comparemos agora este ato com a atitude dos operários diante do fura-greves,
que retorna ao trabalho durante o conflito, para que sua família não passe
fome. Os interesses da classe figuram em primeiro lugar, neste exemplo.
Referimo-nos agora a um marido burguês que conseguiu, por amor e devoção à
família, manter afastada a mulher de seus interesses, à exceção dos deveres de
dona de casa e de mulher dedicada completamente aos cuidados dos filhos. O
julgamento da sociedade burguesa será: um marido ideal que soube criar uma
família ideal. Mas, qual seria a atitude dos operários para um membro
consciente de sua classe que tentasse manter sua mulher afastada da luta social?
A moral da classe exige, a custo inclusive da felicidade individual, a custo da
família, a participação da mulher na luta pela vida que transcorre fora dos
muros de seu lar. Manter a mulher em casa, colocar em primeiro lugar os
interesses familiares, propagar a idéia dos direitos de propriedade absoluta de
um esposo sobre sua mulher, são atos que violam o princípio fundamental da
ideologia da classe operária, que destróem a solidariedade e o companheirismo,
que rompem a união de todo o proletariado. O conceito de posse de uma
personalidade sobre a outra, a idéia de subordinação e de desigualdade dos
membros de uma só e mesma classe, são conceitos que contrariam a essência do
conceito de camaradagem, que é o princípio mais fundamental do proletariado. Este
princípio básico da ideologia da classe ascendente é o que dá colorido e
determina o novo código em formação da moral sexual do proletário, pelo qual se
transforma a psicologia da humanidade, chegando a adquirir uma acumulação de
sentimentos de solidariedade e de liberdade, ao invés do conceito de
propriedade: uma acumulação de companheirismo ao invés dos conceitos de
desigualdade e de subordinação.
Toda classe ascendente, nascida como conseqüência de uma cultura material
distinta daquela que a antecedeu no grau anterior da evolução econômica,
enriquece toda a humanidade com uma nova ideologia que lhe écaracterística.
Esta afirmativa corresponde a uma velha verdade. O código da moral sexual
constitui parte integrante da nova ideologia. Portanto, basta pronunciar as
expressões ética proletária e moral proletária, para escapar da trivial
argumentação: a moral sexual proletária não é no fundo mais do que uma
superestrutura. Enquanto não se experimenta a total transformação da base
econômica, não pode haver lugar para ela. Como se uma ideologia, seja qual for
o seu gênero, não se formasse até que se produzisse a transformação das
relações econômico-sociais necessárias para assegurar o domínio da classe que a
gerou! A experiência da história ensina que a ideologia de um grupo social e,
conseqüentemente, a moral sexual se elaboram durante o próprio processo da luta
contra as forças sociais que se lhe opõem.
A classe revolucionária só pode fortalecer suas posições sociais com a ajuda de
novos valores espirituais tirados de seu próprio seio e que correspondam
totalmente às suas tarefas de força em ascensão. Só mediante novas normas e
ideais pode esta classe arrebatar o poder dos grupos sociais opostos.
A tarefa que corresponde, portanto, aos ideólogos da classe operária é buscar o
critério moral fundamental, produto dos interesses específicos da classe
operária, e harmonizar com este critério as nascentes normas sexuais.
Já é hora de compreender que, unicamente depois de haver ensaiado o processo
criador que se realiza mais embaixo, nas profundas camadas sociais, processo
que engendra necessidades novas, novos ideais e formas, será possível
visualizar o caminho, no caos contraditório das relações sexuais e desemaranhar
a embaraçada meada do problema sexual.
Devemos recordar que o código da moral sexual, em harmonia com as tarefas
fundamentais da classe, pode converter-se em poderoso instrumento, que reforce
a posição de combate da classe revolucionária. Por que não utilizar este
instrumento no interesse da classe operária, em sua luta para o estabelecimento
do regime comunista e, por sua vez, também, estabelecer relações novas entre os
sexos, que sejam mais perfeitas e felizes?
A nova mulher na literatura
O problema da existência de um
novo tipo de mulher, isto é, da mulher moderna, é de palpitante atualidade.
Mas, será que existe, na realidade, este novo tipo de mulher? Não será por
acaso, um produto da imaginação criadora dos literatos, sempre em busca de
novidades sensacionais? E, no caso de existir, como será e quem será esta
mulher moderna?
Para constatar sua existência basta olhar a nossa volta. Uma breve análise, uma
não muito prolongada reflexão, é o suficiente para mostrar que a mulher do novo
tipo vive e que a encontramos na realidade.
A mulher moderna atua ao nosso lado. Fácil é conhecê-la. Nós nos acostumamos a
vê-la e a encontramos com grande freqüência na vida, em todas as classes
sociais, tanto entre as operárias como entre as mulheres dedicadas ao estudo
das ciências, como na modesta empregada e na artista genial. O que surpreende é
que esta nova mulher, que se dedica cada dia com maior freqüência a todas as
manifestações da vida, não aparece na literatura com seus traços próprios, como
heroína, nem nas novelas dos últimos tempos. A vida, nas últimas décadas, forjou,
na luta pesada da necessidade vital, outra mulher de tipo psicológico
completamente desconhecido até agora. Uma mulher com novas necessidades e
emoções. Enquanto a literatura continuava apresentando mulheres do velho tipo;
enquanto os literatos se esforçavam em desenhar tipos de mulheres do passado,
que a vida fazia desaparecer, a realidade russa do período compreendido entre
1870 e 1880 produzia figuras do novo tipo de mulher que nascia para a vida,
plenas de luminosidade e encanto. Mas os escritores passavam ao seu lado sem
senti-las nem ouvi-las; eram incapazes de assimilá-las e distingui-las...
Turguenev é o único escritor que se atreveu a esboçar estas figuras, mas as
imagens que nos apresenta são muito mais inexpressivas, muito mais pobres do que
a realidade. No poema em prosa dedicado à moça russa, Turguenev inclina-se ante
a comovedora figura da mulher que se atreveu a transpor o umbral sagrado.
As mulheres heróicas, cujos nomes ficaram gravados nas páginas da história, foram seguidas por uma grande quantidade de desconhecidas que pereceram como abelhas em um favo de mel destroçado. Seus cadáveres semearam no caminho pedregoso que leva ao perfeito, ao desejado futuro. O número de mulheres do novo tipo aumentava, multiplicava-se no transcurso dos anos, mas os escritores e os poetas passavam a seu lado sem vê-las, como se uma espessa venda lhes cobrisse os olhos. A visão do escritor, apaixonada pelos tipos tradicionais de mulher, não podia penetrar nem compreender a nova realidade que passava diante de seus olhos. A literatura evoluía, aperfeiçoava-se e seguia novos caminhos; enriquecia seus meios de expressão com novos matizes e palavras. Mas, em compensação, continuava obstinada em nos apresentar débeis criaturas enganadas, mulheres abandonadas, entregues à dor, esposas ávidas de vingança, fêmeas sedutoras, almas “sem vontade, não compreendidas”, e encantadoras jovens “puras e sem personalidade”.
As mulheres heróicas, cujos nomes ficaram gravados nas páginas da história, foram seguidas por uma grande quantidade de desconhecidas que pereceram como abelhas em um favo de mel destroçado. Seus cadáveres semearam no caminho pedregoso que leva ao perfeito, ao desejado futuro. O número de mulheres do novo tipo aumentava, multiplicava-se no transcurso dos anos, mas os escritores e os poetas passavam a seu lado sem vê-las, como se uma espessa venda lhes cobrisse os olhos. A visão do escritor, apaixonada pelos tipos tradicionais de mulher, não podia penetrar nem compreender a nova realidade que passava diante de seus olhos. A literatura evoluía, aperfeiçoava-se e seguia novos caminhos; enriquecia seus meios de expressão com novos matizes e palavras. Mas, em compensação, continuava obstinada em nos apresentar débeis criaturas enganadas, mulheres abandonadas, entregues à dor, esposas ávidas de vingança, fêmeas sedutoras, almas “sem vontade, não compreendidas”, e encantadoras jovens “puras e sem personalidade”.
Na mesma época em que Flaubert escrevia Madame Bovary, vivia a seu lado em
carne e osso Jorge Sand, a mais luminosa precursora do novo tipo de mulher que
despertava para a vida.
Tolstoi estudava a psicologia estreita e limitada da mulher, produto da
escravidão de que foi vítima no correr dos anos, em Ana Karenina. Sentia prazer
em acariciar a imagem encantadora da inofensiva Ketty; divertia-se com a
ardente natureza de mulher de Natacha Rostova, enquanto a seu lado a implacável
realidade acorrentava duramente as mulheres do novo tipo em formação, cujo
número crescia sem cessar. Os grandes talentos do século XIX não sentiram a
necessidade de substituir a graça sedutora de suas heroínas pelas qualidades
características da nova mulher em formação. Os escritores mais modernos dos
últimos dez ou quinze anos, particularmente as mulheres escritoras, no entanto
não podiam deixar passar em silêncio o novo tipo feminino que se afirmava ao
seu redor: a nova mulher acaba sendo retratada nas páginas de suas últimas
obras.
Atualmente a nova mulher não é mais uma novidade sensacional. Encontrâmo-la na
novela de tese de vanguarda, em que se estuda um complicado problema e também
na narração moderna, na narração sem nenhuma pretensão literária.
O tipo de mulher nova varia, como é natural, de um a outro país. A classe
social a que pertencem essas novas mulheres lhes imprime igualmente um caráter
particular. Também podem variar, consideraveLmente, os traços psicológicos, os
desejos e a finalidade vital da heroína. Mas, por muito diferente que se
apresentem diante de nós estas novas mulheres, é certo que encontramos em todas
elas um traço comum, algo que podemos considerar “racial” e que nos permite
diferenciálas imediatamente das mulheres do passado. As mulheres do passado
viam o mundo de maneira distinta e reagiam diante dele de outra forma;
encaravam a vida de modo igualmente distinto. Não é necessário possuir
conhecimentos especiais, históricos ou literários, para reconhecer a fisionomia
da nova mulher, no meio da densa multiplicidade do passado que a circundava.
Nem sempre nos damos conta de quais são esses novos traços, nem em que consiste
a diferença; mas é um fato evidente que em alguma parte, na região do
subconsciente possivelmente, temos nosso juízo plenamente formado, e com ele
podemos classificar e determinar os novos caracteres femininos.
Determinemos, pois, quem são essas mulheres que constituem o novo tipo
feminino. Desde logo, não são as encantadoras e “puras” jovens cujas novelas
terminam com o matrimônio feliz, nem as esposas que sofrem resignadamente as
infidelidades do marido, nem as casadas culpadas de adultério. Não são,
tampouco, as solteironas que dedicaram toda a sua vida a chorar um amor
desgraçado de juventude, nem as “sacerdotisas do amor”, vítimas das tristes
condições da vida ou de sua própria natureza viciada. Não. Estas mulheres são
algo novo, isto é, um quinto tipo de heroína desconhecida anteriormente,
heroínas que se apresentam àvida com exigências próprias, heroínas que afirmam
sua personalidade; heroínas que protestam contra a submissão da mulher dentro
do Estado, no seio da família, na sociedade; heroínas que sabem lutar por seus
direitos. Representam um novo tipo de mulher. São mulheres celibatárias, a
denominação mais apropriada que podemos dar a este novo tipo.
O tipo essencial da mulher do passado recente era a esposa, a mulher somente eco, instrumento, apêndice do marido. A nova mulher, celibatária, está bem longe de ser um eco do marido. Cessou de ser um simples reflexo do homem. Esta mulher possui seu próprio mundo interior, vive entregue a interesses humanos generosos. É independente, exterior e interiormente. Há vinte e cinco anos, uma definição desta classe carecia de sentido, era vazia de significado. Os quadros eram simples e definidos: a jovem, a mãe, a literata, a amante ou a mundana do gênero de Elena Kurakin, na novela Guerra e Paz, de Tolstoi. Esses tipos eram modelos correntes, claros e compreensíveis. Para a mulher não havia lugar, na literatura nem na vida.
O tipo essencial da mulher do passado recente era a esposa, a mulher somente eco, instrumento, apêndice do marido. A nova mulher, celibatária, está bem longe de ser um eco do marido. Cessou de ser um simples reflexo do homem. Esta mulher possui seu próprio mundo interior, vive entregue a interesses humanos generosos. É independente, exterior e interiormente. Há vinte e cinco anos, uma definição desta classe carecia de sentido, era vazia de significado. Os quadros eram simples e definidos: a jovem, a mãe, a literata, a amante ou a mundana do gênero de Elena Kurakin, na novela Guerra e Paz, de Tolstoi. Esses tipos eram modelos correntes, claros e compreensíveis. Para a mulher não havia lugar, na literatura nem na vida.
Quando a história produzia mulheres com tipos semelhantes às heroínas
contemporâneas, consideravam-se desvios puramente acidentais da norma,
verdadeiros fenômenos psicológicos.
A vida, porém, não pode permanecer imóvel e a roda da história, ao girar cada vez com ritmo mais acelerado, obriga aos homens de uma mesma geração a aceitar noções diferentes, enriquece-lhes o vocabulário com material novo. A nova mulher, a mulher celibatária desconhecida de nossa época e até mesmo de nossas mães, é em nossa época um fato real, um ser vivo, com existência própria.
Elas são milhões de figuras, envoltas em trajes cinzentos, que se movem desde as primeiras horas da aurora em intermináveis filas desde os bairros operários até os armazéns, as fábricas e estações, que enchem os trens, a caminho do trabalho. São essas milhares de moças ou de mulheres já maduras que, nas grandes cidades, fazem aumentar as estatísticas de lares independentes. São as moças e mulheres que sustentam uma surda e contínua luta pela vida, que passam toda sua existência sentadas diante da mesa dos escritórios, junto aos aparelhos telegráficos e atrás dos balcões. São essas jovens de alma alegre que, com a cabeça cheia de sonhos e projetos audazes, se atrevem a assomar à porta dos templos da ciência e da arte, são as que, com passo firme, quase masculino, percorrem as ruas da cidade em busca de uma aula mal remunerada ou de algum trabalho ocasional. Elas estão sentadas diante da mesa de trabalho, no laboratório, entregues a uma experiência científica, nos arquivos, folheando livros, executando o trabalho de sua clínica ou dedicadas a preparar um discurso político.
Essas figuras não se parecem em nada às heroínas do passado próximo, àquelas sedutoras e comovedoras mulheres de Turguenev, de Tchekov, às heroínas de Zola e Maupassant, aos tipos femininos de virtude impessoal da literatura inglesa e alemã de 1880 até a última década do século passado. A vida criou estas novas mulheres, que a literatura depois transcreveu.
A vida, porém, não pode permanecer imóvel e a roda da história, ao girar cada vez com ritmo mais acelerado, obriga aos homens de uma mesma geração a aceitar noções diferentes, enriquece-lhes o vocabulário com material novo. A nova mulher, a mulher celibatária desconhecida de nossa época e até mesmo de nossas mães, é em nossa época um fato real, um ser vivo, com existência própria.
Elas são milhões de figuras, envoltas em trajes cinzentos, que se movem desde as primeiras horas da aurora em intermináveis filas desde os bairros operários até os armazéns, as fábricas e estações, que enchem os trens, a caminho do trabalho. São essas milhares de moças ou de mulheres já maduras que, nas grandes cidades, fazem aumentar as estatísticas de lares independentes. São as moças e mulheres que sustentam uma surda e contínua luta pela vida, que passam toda sua existência sentadas diante da mesa dos escritórios, junto aos aparelhos telegráficos e atrás dos balcões. São essas jovens de alma alegre que, com a cabeça cheia de sonhos e projetos audazes, se atrevem a assomar à porta dos templos da ciência e da arte, são as que, com passo firme, quase masculino, percorrem as ruas da cidade em busca de uma aula mal remunerada ou de algum trabalho ocasional. Elas estão sentadas diante da mesa de trabalho, no laboratório, entregues a uma experiência científica, nos arquivos, folheando livros, executando o trabalho de sua clínica ou dedicadas a preparar um discurso político.
Essas figuras não se parecem em nada às heroínas do passado próximo, àquelas sedutoras e comovedoras mulheres de Turguenev, de Tchekov, às heroínas de Zola e Maupassant, aos tipos femininos de virtude impessoal da literatura inglesa e alemã de 1880 até a última década do século passado. A vida criou estas novas mulheres, que a literatura depois transcreveu.
Como numa longa fita de matizes coloridos, surge diante de nós a vanguarda
dessas heroínas diferentes à frente, sem deter-se diante da espessa barreira
que formam as plantas espinhosas da realidade contemporânea, adianta-se com
passo tranqüilo, valente e resoluta, a operária Matilde. (8)
As plantas espinhosas do caminho da vida fazem sangrar as mãos e os pés de Matilde, e dilaceram seu peito. Mas sua fisionomia endurecida, temperada nas desgraças e sofrimentos, não expressa a menor vacilação.
As plantas espinhosas do caminho da vida fazem sangrar as mãos e os pés de Matilde, e dilaceram seu peito. Mas sua fisionomia endurecida, temperada nas desgraças e sofrimentos, não expressa a menor vacilação.
Somente rugas amargas se formam mais profundamente no canto da boca: unicamente
sua expressão invencivelmente desafiadora brilha com uma expressão mais fria.
Uma nova dor, um novo esplendor de alegria, dessa rara visitante do mundo
operário, passam por Matilde, sem comovê-la. Envolta em seu xale cinzento,
mantém-se firme sobre a montanha, valente e invencível, como estátua da
tristeza. Somente seus olhos fixos no desconhecido vêem um distante futuro, no
qual acredita com a alma temperada pelos choques com a vida; Matilde vai à
cidade alegre, jovem, transbordante de saúde.
Chega à porta da fábrica e entra na oficina, O monstro de tijolo tragou mais uma vítima. Matilde, porém, não tem medo. Com passo seguro e firme, desfaz-se dos ardis que o destino traiçoeiro estende à jovem que caminha só, sem rumo. A lama e as baixezas da vida não mancham seu lindo vestido. Matilde conduz sua inquebrantável fé, com ignorância ingênua, seu eu humano, claro e puro. Não é mais que “uma jovem operária, só e pobre”. Mas, sente-se orgulhosa de ser o que é, satisfeita de sua força interior e de sua independência.
Chega à porta da fábrica e entra na oficina, O monstro de tijolo tragou mais uma vítima. Matilde, porém, não tem medo. Com passo seguro e firme, desfaz-se dos ardis que o destino traiçoeiro estende à jovem que caminha só, sem rumo. A lama e as baixezas da vida não mancham seu lindo vestido. Matilde conduz sua inquebrantável fé, com ignorância ingênua, seu eu humano, claro e puro. Não é mais que “uma jovem operária, só e pobre”. Mas, sente-se orgulhosa de ser o que é, satisfeita de sua força interior e de sua independência.
Surge, mais tarde, o primeiro amor, terno e claro, como a própria juventude.
Vem a primeira alegria da maternidade. A primeira sensação de dependência
amorosa, a tímida rebelião pela liberdade perdida. Depois, a inquietude de uma
nova paixão. Os sofrimentos e os tormentos do amor: desejo, dor e decepção.
Outra vez a maternidade e, outra vez, o abandono. Agora, não temos diante de
nós uma jovem abandonada, perdida, um pobre ser oprimido, mas sim toda uma
individualidade, mãe digna, só e encerrada em si mesma. A personalidade de
Matilde cresce, faz-se mais forte. A nova dor não é mais do que uma nova página
em sua vida, que revela com maior clareza seu eu poderoso e inquebrantável.
Ao lado de Matilde, Tatiana caminha com passo suave. A jovem de Riasan, com os pés descalços, curtidos e feridos pelo calor e pelo mau tempo. Tatiana anda com os vagabundos, sem abrigo, sem lar, como ela. “Pedaço de cobre entre um montão de sucata carcomida pela ferrugem”. Algumas vezes trabalhando em Maikope, durante o período da ceifa; outras, vagando sem rumo pelas margens do Don, com um grupo de companheiros de sorte, homens à espreita de um modesto salário.
Ao lado de Matilde, Tatiana caminha com passo suave. A jovem de Riasan, com os pés descalços, curtidos e feridos pelo calor e pelo mau tempo. Tatiana anda com os vagabundos, sem abrigo, sem lar, como ela. “Pedaço de cobre entre um montão de sucata carcomida pela ferrugem”. Algumas vezes trabalhando em Maikope, durante o período da ceifa; outras, vagando sem rumo pelas margens do Don, com um grupo de companheiros de sorte, homens à espreita de um modesto salário.
Tatiana caminha com eles, livre como o vento, solitária como a erva da estepe.
Ninguém a quer, ninguém a defende. Mantém uma luta, contínua e interminável,
frente a frente, corpo a corpo, com o destino, que a atormenta, implacavelmente.
Para as mulheres do tipo celibatário, como Tatiana e Matilde, não há ternura no
mundo. Para elas a vida só reserva asperezas.
Tatiana tampouco se dobra aos castigos da vida. Sua alma traz profundamente
escondido o sonho de um futuro, de transparente inocência; Tatiana caminha pelo
mundo em busca de sorte. Mas esta, como se quisesse dela zombar, toma-se cada
vez mais distante. E a doce e sonhadora Tatiana de Riasan, ávida de vida,
ardentemente esperada, somente recolhe as sobras das poucas alegrias que a
terra lhe proporciona.
Um caminhante comove sua alma, fá-la chorar, anima-a e ela se entrega,
singelamente, com toda a sinceridade, por necessidade, como somente se dão as
mulheres solitárias e celibatárias, operárias nômades, a fim de arrancar da
vida pequenos prazeres. Entretanto Tatiana nega-se a unir sua vida ao estranho.
“Isto não é para mim; não o quero. Talvez, se fosses um camponês; mas, assim,
não tem senfido. Não se mede a vida por uma hora, mas, sim, por anos.”
E Tatiana, com um sorriso de adeus, parte em busca de seus sonhos, parte com
seus pensamentos, como se estivesse só no mundo e como se lhe estivesse
destinada, unicamente, a tarefa de recriá-lo completamente.
Assim, vivem Matilde e Tatiana, traçando com o peito e as mãos um novo caminho
para o futuro. Seguindo-as, de perto, vêm as mulheres do novo tipo,
pertencentes a outras classes sociais, desejosas de encontrar a trilha aberta.
Os espinhos as prendem e as ferem; seus pés, não acostumados a caminhar sobre
pontas afiadas, cobrem-se de chagas e suas pegadas ficam marcadas por filetes
rubros de sangue. Mas, não é mais possível deter-se. Uma multidão compacta,
cada vez mais densa, avança. Débeis desgraçadas! Imediatamente são lançadas à
margem da estrada pelas fileiras comprimidas que apressam sua marcha. As
companheiras, que se aventuraram a lançar um olhar ao castelo cinzento da
escravidão do passado, continuam sua marcha com a cabeça baixa, na ignorância
do novo caminho.
Na densa multidão das novas mulheres podemos encontrar heroínas de todas as nacionalidades e classes sociais. Destaca-se, na primeira fila, a fina silhueta da atriz Magda (9) , jovem orgulhosa de sua arte, de suas lutas e de seu audaz lema: “eu sou eu e tudo que sou devo-o a meu esforço”. Magda soube vencer as tradições limitadas de um lar, de uma pequena província. Atreveu-se a lançar um desafio à moral burguesa. Mantém seu ar de orgulho, ela que pecou na casa patema, na sua terra. Magda tem plena consciência do que vale sua individualidade e defende inflexivelmente seu direito de ser o que é. “Elevar-se acima do pecado vale muito mais do que a pureza que aqui se pratica”.
Na densa multidão das novas mulheres podemos encontrar heroínas de todas as nacionalidades e classes sociais. Destaca-se, na primeira fila, a fina silhueta da atriz Magda (9) , jovem orgulhosa de sua arte, de suas lutas e de seu audaz lema: “eu sou eu e tudo que sou devo-o a meu esforço”. Magda soube vencer as tradições limitadas de um lar, de uma pequena província. Atreveu-se a lançar um desafio à moral burguesa. Mantém seu ar de orgulho, ela que pecou na casa patema, na sua terra. Magda tem plena consciência do que vale sua individualidade e defende inflexivelmente seu direito de ser o que é. “Elevar-se acima do pecado vale muito mais do que a pureza que aqui se pratica”.
Entra no novo caminho a audaz, inteligente e resoluta Olga, arrancada do seio
de uma família judia de costumes tradicionais. Após vencer uma série de
obstáculos, lança-se no turbilhão de uma grande cidade européia. Olga participa
de um círculo intelectual seleto, a nata da sociedade. A vida afigura-se-lhe
cheia dos atrativos de um centro cultural capitalista. Na sua luta pela
subsistência, na luta contra a ausência de trabalho para os intelectuais, na
luta pela afirmação de si mesma como individualidade humana e como mulher, Olga
vive como vivem milhares de moças numa grande cidade civilizada, uma vida de
solidão e de trabalho. Não teme a vida e audaciosamente pede ao destino sua
quota de sorte pessoal. Olga sente que o homem que ama está ao mesmo tempo
muito perto e muito longe dela. Seus destinos se cruzam apenas em um momento.
Uma vida em comum, porém, não corresponde a seus interesses particulares. O
amor é somente uma parte de sua intensa e complexa vida. A paixão esmorece.
Extingue-se. O amor também se esvai. Separam-se. Não temos diante de nós, uma
vez mais, uma frágil jovem abandonada, mas sim toda uma individualidade que
conheceu o prazer, na qual o vinho estava misturado com veneno. Olga é mais
forte que o homem por ela escolhido. Nos seus momentos de tristeza, inclusive
naquelas de seus sofrimentos amorosos, ele vai em busca de Olga, que soube
distinguir corno sua única amiga fiel. Na complicada vida de Olga, rica em
acontecimentos e lutas, o amor não constitui mais que um episódio.
Entre a multidão de novas mulheres, ergue sua formosa cabeça, adiantando-se,
com segurança, Lansovelo (10), a médica, heroína típica da mulher
celibatária. Toda sua vida está dedicada à ciência e à prática da medicina. As
clínicas representam, ao mesmo tempo, seu templo e seu lar. Conquistou, por
parte de seus colegas de trabalho, a estima e o reconhecimento de seu valor.
Soube recusar, com doçura, porém com obstinação, suas propostas matrimoniais.
Lansovelo necessita de liberdade e solidão para dedicar-se completamente ao
trabalho, sem o que não conseguiria viver nem respirar. Diante dessa figura de
mulher emancipada, vestida sobriamente, cuja vida está dividida em horas de
trabalho, que luta pelo exercício de sua profissão e obtém triunfos de amor
próprio ao emitir um diagnóstico exato, o leitor se sente surpreendido por uma
corrente de frieza. Repentinamente, porém, como cena observada casualmente, a
doutora nos revela um aspecto completamente distinto. Quando chegam as férias,
Lansovelo descansa no campo com seu amigo, médico como ela. Nesse lugar,
revela-se-nos a mulher: reina agora seu eu feminino. Seus vestidos são
vaporosos e claros, seu riso alegre. Não esconde seus amores. Em Paris não vive
com seu amante, porque lhes é mais conveniente, a ambos, e a seu trabalho
profissional.
Deixando para trás a doutora, surge Teresa (11), toda desejo e paixão. Teresa é uma socialista austríaca, uma valente propagandista. Esteve presa, trabalha com toda sua alma pelo partido. Mas, quando dela se apodera a paixão, Teresa não renuncia a este esplendor que alegra a vida, não se envolve hipocritamente no manto desbotado da virtude feminina. Muito pelo contrário. Teresa estende a mão ao eleito e parte com ele por várias semanas para sorver até a última gota do prazer e convencer-se de sua profundidade. Quando Teresa, porém, percebe sua vulgaridade, despreza-o sem remorsos e sem amargura. Pobre Teresa! Para ela, assim como para a maioria de seus companheiros, o amor não pode ser mais que uma etapa, um ato momentâneo no caminho da vida. O partido, seus ideais, a propaganda e o trabalho são o fim de sua existência, todo o seu conteúdo.
Deixando para trás a doutora, surge Teresa (11), toda desejo e paixão. Teresa é uma socialista austríaca, uma valente propagandista. Esteve presa, trabalha com toda sua alma pelo partido. Mas, quando dela se apodera a paixão, Teresa não renuncia a este esplendor que alegra a vida, não se envolve hipocritamente no manto desbotado da virtude feminina. Muito pelo contrário. Teresa estende a mão ao eleito e parte com ele por várias semanas para sorver até a última gota do prazer e convencer-se de sua profundidade. Quando Teresa, porém, percebe sua vulgaridade, despreza-o sem remorsos e sem amargura. Pobre Teresa! Para ela, assim como para a maioria de seus companheiros, o amor não pode ser mais que uma etapa, um ato momentâneo no caminho da vida. O partido, seus ideais, a propaganda e o trabalho são o fim de sua existência, todo o seu conteúdo.
Agnes Petrovna, outra mulher, uma das primeiras heroínas russas do tipo
celibatário, elege, após amadurecida reflexão, o novo caminho para sua vida.
Agnes é escritora e secretária de redação; é antes de tudo, uma mulher que ama
o trabalho. Diante de sua mesa de trabalho, quando em sua mente se forma um
pensamento, uma idéia, nada nem ninguém existe para ela. “Não poderia repartir
esses momentos com ninguém - diz. - Por isso necessito de minha liberdade.
Porém, quando Agnes retorna a sua casa, deixando a redação, trocando seu
simples vestido de trabalho por um cômodo roupão, encanta-se ao se sentir
somente mulher e experimentar a influência de seus atrativos sobre o homem. Não
busca no amor o conteúdo e o fim da vida, e sim, somente, o que écomum nos
homens: o repouso, a poesia, a luz. Agnes não reconhece, nem ao homem amado o
menor direito sobre ela, sobre o seu eu”.
“Pertencer a um homem como uma coisa, entregarlhe a vontade e o coração,
consagrar toda a inteligência e todos os esforços para fazer sua felicidade,
conscientemente, isto talvez possa fazer uma mulher feliz. Mas, por que dedicar
todos esses esforços a um homem somente? Se é preciso esquecer-se de si mesma,
não o faria por um homem, não lhe proporcionaria, a ele unicamente, uma boa
comida e uma vida tranqüila. Fá-lo-ia, também, por muitos outros desgraçados...
“E, quando Miatlev tenta acabar com a liberdade de Agnes, quando exige que
escolha entre seu amor e o trabalho, Agnes considera finda sua união.
Separam-se os caminhos.
Segue Agnes, sem pressa, com certa vacilação e dúvida, sem tanto amadurecimento,
outra figura de mulher; Vera Nikodinovna (12) pertence à antiga
geração com ligeiros traços de modernismo. Vera é a mulher com um passado que
deixou fortes vestígios sombrios em sua alma. Não é precisamente a necessidade
fisiológica que lançou a fria e calculada Vera nos braços de um homem. “Ninguém
consegue imaginar quão longe estava meu ato da sexualidade, quão longe estava
de deixar-me levar”, declara Vera à sua jovem amiga. Algo distinto a
impulsionou. Sede de maternidade? Talvez, somente o desejo de encontrar uma
alma semelhante à sua, um ser capaz de compreendê-la; perigoso anzol em que se
deixam prender até as mulheres do tipo celibatário, nas quais predomina o
racional. Depois daquilo Vera vê-se assediada de homens que a desejam, mas evita
aproximar-se deles, ainda que mantenha suas esperanças de um hábito adquirido
das gerações passadas. A sedução é a especialidade de Vera. Entretanto,
liberta-se do passado ao manter antes de tudo sua liberdade. Afastada da
vaidade dos salões, Vera é a mulher-individualidade de pensamento e trabalho.
Com seu sorriso triste, segue também a figura da tuberculosa Mary (13).
Continuando, a pequena Talia (14), intrépida lutadora, que corre em busca
de trabalho, arrastando seus desgastados sapatos. Logo após, ouve-se o riso
mesquinho da inconstante Annette (15), pobre de espírito, espécie de
paródia do tipo de mulher celibatária. A heroína de Sangar, Anna (16) avança
com ingenuidade brutal pela nova senda. De mãos dadas, caminham Mira, Lydia e
Nolly (17). Cada uma delas é interessante por seu algo “sagrado” que não é
somente qualidade propriamente feminina. Até a pequena Lydia, insignificante na
aparência, possui vaidade e ambições. Quando se apresenta o amor, quando sua
natureza de mulher faz suas exigências, todas essas moças superam o tabu
proibido às jovens solteiras, sem o medo sentimental de si mesmas que sentiam
as mulheres do passado. Arrastadas pelos múltiplos interesses da vida, o amor
para essas mulheres não é mais do que uma melodia iniciadora.
Embevecendo nosso olhar com a finura de sua alma, tingida de tons suaves, a
atriz de variedades, Renée (18), anda com cuidado para não pisar pedras
pontiagudas. Com as ilusões perdidas e o coração ferido, deixa seu marido e
lança um desafio ao mundo que até então lhe pertencia. Toda a sua vida está
agora na arte, na dança, nas pantomimas que sabe criar. Uma vida errante,
fatigante, consagrada ao trabalho. Não vai em busca de aventuras. Evita-as,
porque seu coração já sofreu demasiado. A liberdade, a independência e a
solidão constituem o conteúdo de todos os seus desejos individuais. Entretanto,
quando Renée se senta junto à chaminé de seu lar solitário, depois de uma
jornada de duro trabalho, experimenta a sensação de que a melancolia e a
solidão, com seus olhos frios, penetraram na sua casa e se instalaram atrás da
banqueta em que estava sentada.
“Estou acostumada a viver só - anota em seu diário. - Hoje, porém, me sinto tão
solitária! Não sou livre, independente?... Sim. Mas terrivelmente só.” Nesta
queixa há algo da mulher do passado, acostumada a escutar ao seu redor vozes
conhecidas e amadas, a se sentir rodeada pela ternura que lhe é necessária.
Assim, quando Renée encontra em seu caminho um amor obstinado, deixa-se
prender, mergulhada no vazio cada vez mais profundo em que vive. Mas a paixão
não a cega, não obscurece seu cérebro, acostumado à reflexão.
“Os únicos atacados são meus sentidos”, declara com um arrependimento repleto
de melancolia. “Não sinto nenhum prazer, a não ser físico.” Renée volta a ser o
que era. O novo amor não lhe deu o que sua alma buscava. Nos braços do amado se
sente tão só quanto antes. A vagabunda foge, foge de seu amor, foge porque sua
paixão está muito longe, não tem a menor relação com as exigências delicadas do
amor.
A carta de despedida de Renée ao homem que abandona é um documento revelador da
mulher contemporânea, das novas exigências que este tipo de mulher faz àvida.
Atrás de Renée, segue a heroína de Bennet (19), uma escritora. Uma ânsia
de êxtase, de adoração leva-a aos braços de um grande músico. Esta paixão,
entretanto, só serve para que se encontre a si mesma, para afirmar sua
personalidade, para revelar seu talento de escritora e enfrentar a vida com
mais calma, com maior reflexão, de modo mais consciente. Algum tempo depois,
quando um novo amor a cerca, não foge assustada, como faziam as heroínas das
velhas novelas inglesas, por se considerarem indignas, perdidas: Não, ao
contrário, vai sorridente ao seu encontro.
Cheia de dor, adianta-se a inquieta, apaixonada Maia (20), a de espírito
irônico. Todos os acontecimentos de sua vida não são mais do que etapas na
busca de si mesma, no desenvolvimento de sua personalidade. A luta com sua
família para conquistar a independência; a ruptura com seu primeiro marido; um
curto idílio com um herói oriental; um segundo matrimônio, cheio de
complicações psicológicas; a luta ardente na alma de Maia entre a mulher do
passado e a nova mulher que vive dentro de seu ser; outra vez a ruptura e de
novo a busca, até encontrar o homem que sabe respeitar sua voz interior,
símbolo da personalidade, homem que reconhece seu valor e que pode criar a
união amorosa, interiormente livre com a qual Maia sonhou durante toda a sua
vida.
A vida de Maia está cheia de complicações psicológicas e de diversos
acontecimentos. O que prontamente arrasava a mulher do passado, a traição do
homem amado, a separação de seus dois maridos, serve a Maia como uma “lição”,
através da qual pode melhor compreender e examinar a si mesma. De modo
inconsciente, Maia segue o conselho de Goethe: “Começar, todos os dias a vida,
como se de novo realmente, a começasse...” “Minha forte e inquebrantável
vontade, que nada conseguiu romper foi o que me salvou. Minha vontade de
conservação inconsciente, como se fosse um anjo-da-guarda, conduziu-me pela
vida”, diz Maia. A nova mulher, independente, interior-mente livre, tem que
lutar continuamente com uma tendência atávica, que a põe em perigo de
converter-se em sombra do marido, em seu eco. São bem conhecidos os esforços
ingênuos e conscientes da mulher para adaptar-se, inclusive interiormente, ao
gosto do homem amado; para corrigir-se, segundo o ideal do seu eleito. Como se
a mulher, por si mesma, não tivesse nenhum valor, como se sua personalidade só
se medisse pela atitude dos homens que a ela se dirigiam. É este traço
feminino, atávico que fez uma personalidade tão magnífica, luminosa e sedutora,
como a de Jorge Sand, tentar, algumas vezes, abandonar a terra, em companhia de
Musset, e, outras, a renunciar ao mundo da criação artística. Mas, a sua forte
individualidade de Jorge Sand era o que limitava estas experiências. Chegava o
momento em que Jorge Sand sentia esvair-se a sua personalidade e que, em
conseqüência de sua adaptação, Aurora Dudevant, seu eu feminino, acabaria por
devorar, por apagar o audaz, o rebelde, o ardente sonhador, o poeta Jorge Sand.
Refazia-se completa, repentinamente, e rompia implacável a antiga união. Quando
sua alma havia amadurecido esta decisão, não havia força humana, nem sequer sua
própria paixão, capaz de modificá-la. Quando Aurora Dudevant, num sombrio
outono, deixou sua morada para travar o último e breve encontro com seu amante,
decidida a romper com ele, não sentimos medo por Jorge Sand, pois sabemos que o
encontro não poderá fazê-la recuar, porque a ela se evidencia, como último
tributo, a agonizante paixão que Jorge Sand lança à soluçante Aurora. A etapa
foi concluída. Um ponto termina o episódio.
A Maia de Meisel-Hess é, naturalmente, muito menor e mais frágil do que Jorge
Sand. Mas nela também descobre-se o desejo de adaptar-se aos gostos do homem
amado, e a tendência atávica de renunciar a si mesma, de desaparecer, de
dissolver-se no amor, que choca com a personalidade humana que se desenvolveu e
que nela se apresenta de modo específico. No momento preciso, Maia também sabe
como refazer-se e partir para salvar sua voz.
Mesmo para a mulher de nossos dias é muito difícil libertar-se da tendência,
formada no transcurso de séculos, de assimilação ao homem que o destino lhe deu
por amo e senhor. Quão difícil é convencer-se de que para a mulher é também um
crime renunciar a si mesma, ainda que em favor do homem amado, em nome do amor!
Ao lado de Maia, segue a ambiciosa Outa, a calculista. Outa é atriz, mas
consagra toda a sua vida a valorizar e enfeitar seu eu, que para ela é o melhor
do mundo. Parece que somente ama a arte, porque é um meio de desenvolver e
revelar, com maior grandeza e variedade, sua forte personalidade. Há em Quta,
como reação natural ante a secular humilhação da mulher, um protesto contra sua
renúncia ao direito de ser uma personalidade com valor próprio.
Uma forte e apaixonada ambição, uma razão calculista, um imenso egoísmo e um
excepcional talento de atriz fazem-na relegar a mulher, Outa, a um lugar
obscuro. Passa indiferentemente ao lado da felicidade, ao lado da infinita
devoção de Klodt. Aprecia este amor, porque lhe satisfaz contemplar o reflexo,
como se se olhasse no espelho. Quando Klodt, impulsionado pelo desespero,
atormentado por sua indiferença, a trai, Outa chora. Porém, não é a mulher que
sente a ofensa, mas sim a artista, exposta aos olhares de todos, a que sofre,
porque seu admirador se atreveu a deixá-la por uma rival. E por orgulho ferido
e não por amor humilhado que Outa soluça. Esta mulher continua até ao fim, fiel
a si mesma. Pela vida, acompanham-na a alma fria e a admiração pelo seu eu.
Precisamente porque carece do fogo sagrado que alimenta os grandes artistas, é
derrotada por uma mulherzinha insignificante e apaixonada; a fina e inteligente
Outa, “grande artista na compreensão da arte, mas à qual falta a paixão
criadora”.
Entre a multidão de novas mulheres, passa a artista Tânia, para quem a vida
reserva todas as suas carícias. Tânia, embora casada, pertence à categoria das
mulheres celibatárias e, assim como Maia, casou-se três vezes. Este aspecto de
sua vida corresponde completamente à sua fisiologia. Ainda que Tânia viva sob o
mesmo teto que seu marido, continua sendo, como antes de casar-se, uma
individualidade livre e independente. Tânia franze as sobrancelhas quando ele a
apresenta a seus amigos como sua mulher, sem designá-la por seu nome de
solteira.
Marido e mulher vivem seu próprio mundo. Ela, consagrada à arte, e ele,
dedicado à investigação científica. Constituem um casal de bons companheiros,
unidos por laços espirituais sólidos, que não impedem sua mútua liberdade.
A clara atmosfera em que vivem se rompe pela cega paixão física que Tânia sente
pelo formoso e másculo Stark. Tânia não ama em Stark o eterno masculino que a
arrastou para ele desde seu primeiro encontro. Tânia não tem nenhum interesse
pela vida espiritual do homem amado, assim como para os homens, mesmo os mais
modernos, não tem importância a alma da mulher apaixonadamente amada. Quando
Ana, Maia, ou Lisa lançam ao homem amado a reprovação habitual: “Eu quero tua
alma, que nunca me entregas..., ele se sente desconcertado. A atitude de Tânia,
com respeito a Stark, tem, portanto, algo de masculino. Sentimos que a
personalidade de Tânia é mais forte, está mais desenvolvida que a de seu amado.
Tânia é demasiado humana, pouco fêmea, para que uma simples paixão possa
satisfazê-la. Reconhece que a paixão que sente por Stark empobrece e seca sua
alma, ao invés de enriquecê-la. Mulheres como Tânia não sofrem tanto com o
pensamento de uma infidelidade feita ao marido, como diante da possibilidade de
conciliar a paixão com o trabalho paciente e metódico que constitui a sua vida.
A paixão devora suas energias e rouba o tempo que deve consagrar ao trabalho. A
paixão entrava seu livre trabalho criador. Tânia sente que começa a perder a si
mesma e a perder o que mais aprecia em sua vida. Parte. Volta para o lado do
marido, não impulsionada pelo sentimento do dever, mas, para salvar a sua personalidade. (21) Ao lado de Stark acabará por perder a si mesma.
Abandona-o, levando em seu ventre um filho, quando a paixão ainda não estava
totalmente extinta. Que heroína de romance dos bons tempos passados tivera
coragem para agir como Tânia?
Tânia tem que enfrentar o mesmo dilema que a Ellida de Ibsen, uma das primeiras mulheres do novo tipo psicológico. Quando o homem do mar exige de Ellida que se vá com ele, ela fica ao lado de seu marido que lhe havia dado toda liberdade para decidir-se. Ellida permanece consciente de que assim poderá conservar sua liberdade interior, que perderia ao lado do homem do mar. Dá-se conta de que está ameaçada pela mais terrível escravidão: a escravidão da paixão. Compreende a superioridade de quem tem preso entre as mãos seu coração de mulher.
Tânia tem que enfrentar o mesmo dilema que a Ellida de Ibsen, uma das primeiras mulheres do novo tipo psicológico. Quando o homem do mar exige de Ellida que se vá com ele, ela fica ao lado de seu marido que lhe havia dado toda liberdade para decidir-se. Ellida permanece consciente de que assim poderá conservar sua liberdade interior, que perderia ao lado do homem do mar. Dá-se conta de que está ameaçada pela mais terrível escravidão: a escravidão da paixão. Compreende a superioridade de quem tem preso entre as mãos seu coração de mulher.
Josefa (22), a de alma firme, forte de espírito, abre o caminho da vida
modestamente. Avança por entre as dificuldades que obstruem todas as margens do
caminho. Rasga a estrada que leva à independência econômica das mulheres da
classe burguesa. E prepara-se para as profissões liberais. Indecisa, vai tateando
o novo caminho, a fina e prudente Christa Rouland (23), deliciosa figura
espiritual de mulher que desperta, que interroga o mundo com grandes olhos
extraordinariamente abertos, que busca a nova verdade; figura de mulher que
pela primeira vez se dá conta e toma consciência de si mesma.
“Eu sou eu e tu és tu, e somente no amor podemos fundir-nos,” é seu lema.
A heroína de Yuchkevitch, a estranha e oprimida Elena (24), passa timidamente à beira do caminho com os olhos fechados para a nova verdade, enquanto procura ocultar a tragédia de sua alma, sua grande tristeza humana, incompreensível para ela mesma. Flena não é celibatária. Não é uma nova mulher. Os traços do velho e do novo tipo nela se fundem em complicado nó. Um pujante eterno feminino, equilibrado pelo espírito, por um eu humano, debate-se em sérios problemas. Sua doce alma de mulher carinhosa, amante, está cheia de contradições, e até de mentiras de escrava, ainda que seu espírito rebelde, investigador, em um contínuo interrogar-se, faça de Elena uma figura de novo tipo. Yuchkevitch soube pintar sua heroína com tons suaves. Expressou sua imagem com tanto cuidado e carinho como se temesse quebrar com uma palavra esta delicada alma de mulher, que se perde na tragédia de seu espírito.
Entre a multidão de mulheres novas, destaca-se Renata Fuchs (25), alma
rebelde que soube conservar a pureza de sua alma em meio à vergonha e à
degradação. Na fisionomia de Renata denota-se uma calma majestosa. Em seus
braços de moça solteira descansa uma criança que era um novo homem. Ao lado de
Renata caminha a heroína de Grent Aliena (26), que cheia de orgulho leva
nas mãos sua filha ilegítima, fruto de uma união que explicitamente recusou a
forma legal. Com expressão atarefada, apressa seus passos em direção ao laboratório,
Maia (27), do claro sorriso, que encontrou harmonia na vida. Com a cabeça
erguida, a prostituta Myiada (28)sustenta sua missão sagrada em meio à
lama da vida que a rodeia. A socialista revolucionária Anna Siemenovna (29) sabe
sobrepujar sua própria paixão, escondida sob a máscara de coquete. A estudante
inglesa Fanny (30), que zomba dos preconceios do mundo, desfila também com
passos ligeiros. A imagem da estudante do longínquo norte Anna Mahr (31) também
nos acena ao passar. As heroínas de Bjornson, de Jonas Lie, as filhas do
comandante Jakobson, de Loffler, também querem entrar no novo caminho. Repleta
de inquietação, avança indecisa Jenny, como se ainda escutas;e em sua alma a
voz da mulher do passado. Como Tânia de Nadgrodskaia, Jenny (32) abandona
o pai do filho que espera, temendo que a maternidade estreite mais fortemente
os laços que já começam a aprisioná-la. Audaciosamente continua, mas a voz
mulher do velho tipo lhe Faz recordar o passado, despertando nela sentimentos e
concepções já esquecidos. Jeriny detém sua marcha, olha para trás e
desfalece...
A seu lado, porém, passam figuras sempre novas de mulheres que despertam, que
se rebelam, que buscam o novo caminho. A doce e encantadora figura de Françoise
Houdonn (33), a que sabe sentir um amor-amizade por Christophe e uma
paixão por outro; a de temperamento ardente, ambição insaciável de artista,
vontade de ferro e alma sensível e delicada. A seu lado o tipo cheio de vida e
tão real da trabalhadora Cecília (34), a de forças equilibradas que ignora
que em sua tranqüila conquista, está contida toda a nova verdade. A sufragista
Júlia France (35) a emigrante russa Marie Antine (36), a moça
judia que goza dos direitos da cidadania norte-americana e luta para conquistar
uma posição segura; igualmente todas as heroínas de Rikarda Huch (37),
Gabriela Reuther, Sarah Grande e até as heroínas do mundano Marcel Prevost. (38)
São tantas as heroínas do novo tipo que é completamente impossível citá-las
neste breve estudo. Precisamente pelo fato de que sejam tantas as mulheres que
pertencem a este novo tipo, que cresce todos os dias com outras forças, ainda
que algumas dessas figuras apareçam sob forma banal e em literatura dos
boletins, é sinal de que a vida cria e forma sem descanso o novo tipo de
mulher.
A nova mulher traz consigo algo que nos é completamente estranho, que às vezes chega inclusive a repugnar-nos por sua originalidade. Contemplamos e buscamos nesse novo tipo de mulher os traços queridos e conhecidos de nossas mães e avós. Diante de nós, ergue-se, cobrindo totalmente o passado, um mundo de emoções, de sentimentos, de necessidades completamente distintas. Onde encontrar a encantadora submissão feminina, a doçura de nossas mulheres do passado? Onde estará aquele seu talento especial para adaptar-se ao matrimônio, para se submeter até a um homem insignificante, para ceder-lhe sempre o primeiro posto na vida?
Temos diante de nós a mulher-individualidade, uma personalidade que tem valor próprio, com um mundo interior todo seu, personalidade que se afirma, em suma, a mulher que arranca as enferrujadas algemas que aprisionam o sexo.
Quais são, pois, os traços característicos, os sentimentos, as qualidades psicológicas da mulher que nos permitem classificá-la, de acordo com sua aparência interna, como fazendo parte da classe de mulheres celibatárias?
A direitos conquistados, a mulher tem que realizar um trabalho de auto-educação, muito mais profundo que o do homem. No rocaracterística típica da mulher do passado, considerada seu maior ornamento e defeito, era o predomínio do sentimento. A realidade contemporânea, que arrastou a mulher à ativa luta pela existência, exige, antes de tudo, a ciência de saber vencer seus sentimentos e os numerosos obstáculos de ordem social que se interpõem no seu caminho, assim como a capacidade de fortalecer seu espírito pouco resistente, seu espírito que cede com demasiada facilidade, por meio da vontade. Para conservar seus novos mance de Ilse Frapan, Trabalho, recaem sobre Josefa sombrios pensamentos, graves cuidados. Josefa gostaria de poder soluçar, chorar por si mesma, entregar-se a sua dor como o faziam as mulheres do passado. Mas, o trabalho na clínica, seu trabalho, organizado, dividido em horas, não admite espera. O trabalho da clínica não é um trabalho que se possa deixar para outro dia, como os afazeres de casa ou o remendar a roupa das crianças. Josefa tem que ter força de vontade sobre si mesma, coisa a que o homem está acostumado, esforço completamente desconhecido das mulheres dos tempos passados; tem que fazer um esforço para esconder sua vida privada atrás de um muro e apresentar-se no trabalho sempre à hora certa.
Matilde assiste à morte de seu filho, que constitui toda alegria, era tudo o que havia restado de seu ardente amor. Porém, seu ofício amarra-a com todas as suas forças à oficina e seus dedos práticos trabalham, como sempre, sem romper o fio.
A realidade contemporânea exige de uma maneira implacável que toda mulher que se vê obrigada a trabalhar num ofício ou profissão em qualquer trabalho que a leve a do lar, possua autodisciplina e força de vontade para saber vencer seus sentimentos, qualidade que somente poderíamos encontrar, excepcionalmente, nas mulheres do tipo antigo.
O ciúmes, a desconfiança, a absurda “vingança feminina” eram as características próprias da mulher do tipo antigo. Os ciúmes constituem o sentimento que origina todas as tragédias da alma feminina. É certo que os ciúmes constituem, também, uma estratégia para o homem porém, não devemos esquecer que Shakespeare não escolheu para seu Otelo um inglês disciplinado, educado, nem um veneziano de inteligência refinada, mas sim um mouro dominado pelas paixões.
Precisamente é a dependência da mulher com relação a seus sentimentos o que a levou a expressar seu ódio por uma rival de maneira verdadeiramente monstruosa, fazendo-a trazer à superfície suas qualidades mais mesquinhass de “escrava”. Se a heroína não desfigurava sua rival com ácido, não deixava, entretanto, de lançar sobre o veneno da calúnia.
As mulheres do novo tipo não reivindicam a propriedade de seu amor. Ao exigir o respeito à sua própria liberdade de sofrimento, têm que aprender a admitir esta mesma liberdade nos demais. E realmente interessante observar a atitude das heroínas de uma série de romances contemporâneos no que se refere a uma rival. As mulheres do novo tipo não empregam ácido nem a calúnia. Ao invés disso , educado demonstram delicadeza e compreensão para com a outra mulher, para com a rival. No romance Voz, por exemplo, a heroína Maia e a primeira mulher do homem que ama não só não se odeiam como chegam a encontrar uma linguagem comum e descobrem que em muitos pontos se encontram mais intimamente unidas do que com o homem que as duas amam. Maia chora quando percebe como ele feriu o coração de sua rival. Maia se sente pessoalmente humilhada quando conhece os sofrimentos de sua rival, que lhe conta que o homem amado a considerava uma coisa que lhe pertencia legalmente, e que não tinha para com ela a menor ternura confortadora. Maia sente-se ofendida pelo menosprezo à mulher, porque sabe sentir além dos limites propriamente individuais. Em Maia se manifesta um sentimento completamente desconhecido da mulher do passado: o sentimento de coletividade, de companheirismo.
Igualmente característica é a atitude que Maia adota diante da absurda e inútil traição de seu segundo marido. Maia não desfalece, nem arma um escândalo. Refugia-se ao lado das camas dos filhos da primeira mulher de seu marido. As cabecinhas adormecidas têm o poder de dissipar sua tristeza. Regressa depois ao seu lar solitário.
Maia sente frio. Acende a lareira, se enrola em um xale e se impõe a leitura de um livro interessante. Assim, conseguirá libertar-se, o mais rapidamente possível, de si mesma, de seus próprios pensamentos; assim recuperará o equilíbrio necessário.
Irina, a heroína do romance de Kredo, Na Névoa da Vida, não somente aceita a antiga união de Victor, como exige dele para com sua rival, uma atitude delicada. O contrário sucede quando Victor, ao tomar conhecimento do passado de Irina, lhe disse com ares de macho ofendido: “que número sou eu? Quero saber... Foram muitos?” Victor é um homem de vanguarda, um escritor, porém dentro dele, como dentro dos outros, a besta é mais forte que na insignificante Irina, que só é interessante por estender seus braços para a nova verdade da vida.
No novo tipo de nova mulher, a ciumenta é vencida cada vez com maior freqüência pela mulher-individualidade. Outro traço característico da mulher contemporânea consiste nas exigências, cada vez maiores, que faz ao homem. A mulher do passado estava acostumada por seu amo e senhor, durante séculos e séculos, a esquecer-se de si mesma, a descuidar completamente seu pequeno mundo espiritual. A mulher do passado não dava nenhum valor a sua própria personalidade, acostumada aos sorrisos indulgentes que os homens tinham para com suas debilidades e sofrimentos de mulher. Por isto resignava-se, sem protestar, a que seu companheiro não prestasse a menor atenção ao que pensava e sentia. Ainda, em nossos tempos, admiramo-nos de que somente alguns homens extraordinários saibam compreender a mulher, ainda que nos momentos de maior intimidade. A causa de quase todas as tragédias familiares, de todas as épocas, tem sido a atitude superficial, de abandono, do homem diante do eu feminino.
Com sua experiência, os Don Juan sabiam possuir o corpo da mulher; mas apoderavam-se também de sua alma, para o que representavam hipocritamente a comédia da compreensão; deixavam transparecer um interesse cheio de amor pelo eu insignificante da mulher, ao qual seu marido, embora mais sincero, não prestava a menor atenção. Como os Don Juan, porém, surgiam e desapareciam e o senhor legítimo permanecia, a mulher acabava reduzindo suas necessidades e exigências, obrigada durante séculos e séculos a adaptar-se à vida, até chegar a converter sua concepção de felicidade à satisfação das coisas exteriores e concretas. Ele presenteava-a com anéis e brincos; levava-lhe flores e bombons. Não havia necessidade de outra prova de seu amor. Se se portava com relação a ela de modo grosseiro e despótico, se lhe impunha uma série de proibições e exigências, era seu direito, direito de dono do seu coração.
A mulher contemporânea torna-se exigente. Deseja e exige respeito à sua personalidade, à sua alma; pretende que se leve em consideração seu eu. Não admite o despotismo. Quando o amante de Maia a proíbe de cantar em concertos e ela não o obedece, ele decide, para castigála, não lhe escrever durante duas semanas. Este ato exterminou em Maia todo sentimento para com seu amante. “Como pode castigá-la, logo a ela, que lhe entregou livremente seu coração?”
Na luta da mulher moderna para proteger sua liberdade interior, há algo que lembra as mulheres das antigas lendas, as mulheres dos tempos heróicos. “Cumpriu-se tua vontade, porém, já não sou tua mulher”, afirma Rosamunda a seu real esposo quando este a obriga a beber no crânio de seu pai, que assassinara. Na boca de Rosamunda estas palavras não são uma simples ameaça. Rosamunda mata seu marido, a quem havia amado apaixonadamente até aquele momento.
A mulher contemporanea perdoa muitas coisas que para a mulher do passado eram mais amargas de perdoar. Perdoa a incapacidade do homem para proporcionar-lhe um bem-estar material; perdoa uma falta de atenção de ordem exterior para com ela; inclusive pode perdoar uma infidelidade; em troca, porém, não esquecerá nunca, nem aceitará uma falta de atenção para com seu eu espiritual, para com sua alma. Se seu amigo não é capaz de compreendê-la, suas relações perdem, para a mulher moderna, a metade do valor.
Quando Christa Rouland pergunta a seu amante o que pensa sobre as mulheres, e este lhe responde primeiro com gracejos ligeiros e logo depois de forma corriqueira, Christa experimenta um alheamento involuntário. Não pode compreender como o homem que soube conquistar seu coração, devido ao interesse que demonstrou por sua personalidade, por seu eu espiritual, pode mostrar-se tão insensível e não compreender a enorme importância que para ela teria ouvi-lo expressar-se de outra forma. O que Christa não pode perdoar a Frank, e o mesmo sucede a todas as mulheres do novo tipo, é a transformação que sofre o homem depois da posse. O homem temeroso de perder a mulher amada precisa nela extinguir, ainda que seja precisamente na mulher querida pelo espírito audaz, pela independência de seu pensamento, o fogo sagrado da investigação. Esforça-se, cumulando-a de carinhos, por convertê-la apenas em objeto de seu prazer, de seu gozo.
Christa Rouland observa, cheia de assombro, como o mesmo Frank, que queria levá-la à esfera de seus próprios interesses espirituais, que sonhava sempre com uma atividade realizada em comum, começa a se separar, a viver em um mundo intelectual exclusivamente seu. Já não se trata de um trabalho realizado em colaboração. Nos momentos em que Christa toma parte, com grande interesse, no trabalho de seu pensamento, Frank vê nela somente a mulher, tanto mais sedutora por ser fina e espiritual. Christa sente que seu espírito e sua capacidade para elevar-se com ele às altas regiões do pensamento não fazem mais do que aumentar seu desejo sexual para com ela. A nova mulher perdoará a ofensa feita à fêmea, mas ser-lhe-áimpossível esquecer uma simples falta de atenção para com sua personalidade. O mesmo sucede com a exigência da mulher moderna de que o homem eleito tenha uma formação espiritual, questão de que nos fala também Vera Nikodinovna. “Na mulher - pensa Vera - a inteligência, ainda que seja da melhor qualidade, não desempenha mais do que um papel secundário. O essencial na mulher é a base moral. Precisamente o estudo e as leituras desenvolvem esta base moral, a tornam mais refinada e aguda. Nos homens esta base moral, ao contrário, se cristaliza, e quando se desenvolve é de forma débil. Esta é a causa de sermos desgraçadas... os homens não compreendem quase nunca o que nos separa deles.”
A necessidade que tem a mulher de sentir-se amada, não tanto pelo eterno feminino, e sim pelo conteúdo espiritual de seu eu, torna-se muito mais intensa, como é natural, quanto mais consciência tem de si mesma, como individualidade. “Maldigo meu corpo de mulher por sua culpa. Não podeis ver que há dentro de mim algo muito mais valioso...” Isto se manifesta em todas as páginas do livro Notas de Ana, de Nadejda Sanjar. Este protesto, expresso de uma ou de outra forma, repetem-no as heroínas de todas as nacionalidades. Até a alma simples da Tatiana de Gorki protesta por quererem fazer dela simplesmente um instrumento de prazer.
“Possuíram-me... Porém eu não quero, eu não quero que seja assim, sem carinho, como os cães... Que seres tão baixos são todos os homens!”
Quanto mais viva é a personalidade da mulher, quando se sente com maior intensidade como ser humano, mais fortemente sente, também, a ofensa do homem que, com a mentalidade formada através dos séculos, não sabe perceber por trás da mulher desejada uma individualidade que desperta.
As exigências que, com respeito ao homem, têm as mulheres contemporâneas, são a causa de que as heroínas dos romances de nossa época se entregem de uma paixão a outra, deixem um amor por outro, numa dolorosa luta para alcançar um ideal inacessível: a harmonia da paixão e a afinidade espiritual, a conciliação entre o amor e a liberdade, a união nascida do companheirismo e da independência recíproca.
Maia, a infatigável exploradora da sorte, exclama:
“Meu mais ardente desejo é encontrar um homem do qual jamais queira separar-me.” E aquela mulher errante termina as relações com seu amigo, unicamente porque aspira a alcançar o inextinguível ideal de uma união amorosa mais completa. A realidade presente engana todas essas mulheres, ansiosas por encontrar um amor perfeito e cheio de harmonia. Implacavelmente, têm que romper os laços do amor e partir novamente em busca da realização de seu sonho. É que estas infatigáveis sonhadoras esquecem que o que buscam, atualmente, com tanto afã, só poderá realizar-se em um futuro longínquo, quando os homens modelarem de novo suas almas, quando os homens chegarem a assimilar organicamente a idéia de que, em toda união amorosa, o primeiro lugar corresponde ao companheirismo e à liberdade.
A mulher do passado não sabia apreciar a independência pessoal. Mas, ter-lhe-ia servido para alguma coisa apreciá-la? Não há nada mais doloroso, nada que dê maior sensação de impotência do que uma esposa, ou uma amante do tipo da mulher do passado, abandonada. Quando o homem a abandonava, ou morria, a mulher não somente perdia a sua subsistência material, mas também, seu único apoio moral. A mulher do passado, incapaz de enfrentar a vida sozinha, tinha medo da solidão, e por isso estava sempre disposta a renunciar, quando se lhe apresentava a menor ocasião, à sua inútil e desagradável independência.
A mulher do novo tipo não somente não tem medo da independência, como cada dia aprecia mais seu valor, à medida que seus interesses se sobrepõem aos limites impostos pela família, pelo lar e pelo amor. Assim, não há nada mais espantoso para Vera Nikodinovna que a dependência material com respeito ao homem: “Oh, se eu viesse a depender de um homem, se eu viesse a precisar escolher um, para que fosse meu marido e para que me mantivesse, seria minha maior desgraça...” disse a uma amiga. Para Vera, ter um marido “proprietário e dono de sua alma” é um pensamento tão terrível como o cárcere para o prisioneiro que chegou a conquistar a liberdade com a fuga. “Jamais” - continua Vera - “adaptar-me-ei a essa escravidão. Já havia passado por uma experiência semelhante...”
“Esteve casada?”
“Não, não me casei nunca; mas vivi meu romance, tive uma paixão.”
A nova mulher se sente presa no matrimônio, ainda que este não seja mais do que laços exteriores. A mentalidade do homem do passado, que ainda permanece viva, cria laços morais que não são menos sólidos que as cadeias exteriores.
Portanto, as novas heroínas de nossa literatura fogem obstinadamente de tudo aquilo que possa prendê-las, ainda que seja só exteriormente, ao homem amado. A dependência material da mulher em relação ao homem, sua completa impotência para enfrentar o mundo sem se apoiar no braço de um homem, obrigava a mulher do passado a preocupar-se antes de tudo em concretizar suas relações com o homem, em consolidar de alguma forma as relações amorosas. Só então sentia-se segura. A nova mulher, obrigada a suprir por si só as necessidades materiais da vida, toma atitude negativa ou indiferente diante de todas essas formalidades que para ela não têm objetivo. Este novo tipo não tem nenhuma pressa em dar uma forma determinada às suas relações amorosas. Quando a amiga de Renée, em A Vagabunda, a interroga sobre que tipo de relações mantém com o homem amado, se uma união legal ou simplesmente uma união passageira, ela só pode responder com um movimento de ombros.
-Nós? Simplesmente nos amamos.
-“Muito bem, mas, e no futuro?”
“Oh, Margot” - exclama Renée - “eu não penso no futuro!”
Até agora o conteúdo fundamental da vida da maioria das heroínas se reduzia aos sentimentos do amor. Este bastava para dar colorido até a uma vida cheia de privações de ordem material. Ao contrário, a ausência do amor tornava pobre e vazia a vida de uma mulher. Nem as riquezas exteriores, nem as honras, nem sequer as alegrias da maternidade podiam substituir para a mulher a perda de um amor venturoso. (39)
Se uma mulher não amava, a vida parecia-lhe tão vazia como seu coração. Esta é uma das características que estabelecem uma diferença nítida entre a mulher do passado e o homem. No homem, ao lado dos acontecimentos amorosos, existia sempre uma atividade particular. Enquanto a mulher enlouquecia languescia esperando por ele, o homem lutava contra o destino, em um mundo desconhecido e incompreensível para a mulher. A maioria das tragédias psicológicas das relações entre o homem e a mulher eram causadas pelo fato de que o homem, ansiosamente esperado ao regressar à casa depois de uma ausência, devido aos negócios ou ao trabalho, retirava os papéis da pasta, comia depressa e apressava-se para alguma reunião ou se entregava avidamente à leitura de um livro, ao invés de dedicar toda sua atenção à mulher que com tanto afã o havia esperado. A mulher não podia compreender esta atitude do homem, e seu coração explodia em reprovações. Ela havia deixado por acabar, uma blusa, para esperá-lo; havia abandonado a comida por fazer; havia adormecido as crianças com o único fim de ficar sozinha a seu lado, para fazê-lo esquecer os assuntos, os trabalhos e a política. As mulheres de todas as classes sofriam igualmente com esta incompreensão do homem e de seus interesses; porque tanto o homem como suas atividades estavam situados, para elas, em um mundo totalmente desconhecido, muito distante dos limites do aconchego familiar. A falta de compreensão da psicologia do homem era igual na mulher do professor e na mulher do funcionário, na mulher do operário e na mulher do empregado.
A exclamação da esposa ofendida: “Vais outra vez a tua aborrecida reunião” acompanhava e ainda acompanha da mesma forma o marido banqueiro e o proletário.
Entretanto, à medida que a mulher intervém no movimento da vida social, à medida que se converte em mola ativa do mecanismo da vida econômica, seu horizonte se alarga. Os muros de sua casa, que antes encerravam para ela todo o seu mundo, derrubam-se, e a mulher se apodera, inconscientemente no início, acabando por assimilálos, dos interesses que pouco antes lhe eram completamente desconhecidos e incompreensíveis.
O amor deixa de ser para a mulher o conteúdo único de sua vida, começa a ficar relegado a um lugar secundário, como sucede com a maioria dos homens. E certo que as mulheres do novo tipo passam alguns períodos de sua vida, nos quais o amor ou a paixão tomam completamente sua alma, sua inteligência, seu coração e até sua vontade; épocas em que todos os outros interesses da vida empalidecem ou ficam relegados a um segundo plano. Nestes momentos as mulheres do novo tipo podem viver também como as mulheres do passado. Mas, na mulher moderna, a paixão e o amor constituem apenas uma parte de sua vida, cujo verdadeiro conteúdo é algo mais sagrado e a cuja realização se entrega, isto é, um ideal social, o estudo da ciência, uma vocação ou o trabalho criador. A finalidade de sua vida é, geralmente, para a mulher moderna, algo muito mais importante, muito mais apreciado, muito mais sagrado que todas as alegrias do amor e todos os prazeres da paixão.
Disto nasce a atitude, completamente nova, da mulher com respeito ao trabalho, atitude que era impossível encontrar na~ heroínas dos bons tempos passados.
A heroína de Bennet teve seu primeiro encontro amoroso com o homem. Quando este lhe pergunta se pode ir vê-la na manhã seguinte, ela o interrompe quase com espanto, apesar de seu amor e de sua felicidade:
- “Só venha depois do almoço”.
- “Depois do almoço, por quê?”
“Ele não sabia o que pensar.”
“É que durante os últimos cinco anos de minha vida eu me acostumei a ser a dona de meus próprios atos. Todos os meus gostos, meus costumes, meu regime de vida já estão estabelecidos. Nunca recebo ninguém antes do almoço. Amanhã, precisamente amanhã, tenho muito que fazer.” “Será que este homem, como um conquistador, virá roubar minhas manhãs de trabalho? Sem que me desse conta despertou em mim uma surda inquietação pela minha liberdade e independência.”
Esta confissão nos revela uma nova característica da psicologia da mulher moderna. Uma mulher é capaz de retardar por sua própria vontade um encontro desejado e que a faria feliz. E faz isto unicamente porque está acostumada a escrever pela manhã, porque lhe doem as horas perdidas, roubadas ao trabalho. Para a mulher do passado, como seria possível que as horas entregues ao amor fossem horas perdidas? Tânia, a heroína do romance de Nagrodsafla, durante a lua de mel com Stark, sente-se continuamente atormentada pela consciência de sua ociosidade.
“Decididamente, reservar-me-ei o dia de hoje. Pedirei a Stark que me deixe só.” Porém Stark indigna-se e protesta diante de sua proposta. Este era o papel reservado, no passado, às heroínas dos romances.
“Todo um dia sem você”, diz-lhe em tom de criança caprichosa. “Não a molestarei. Ficarei quieto.” E prossegue logo depois: “Começo a odiar sua arte. E uma rival com a qual é difícil lutar.” Tânia cede uma vez mais, porém a consciência do trabalho abandonado a martiriza. Não é possível para ela entregar-se inteiramente ao prazer, encontrar calma em seus gozos amorosos, tendo seu trabalho que sofrer as conseqüências.
“Hoje trabalhei - escreve Târtia, feliz; trabalhei avidamente, com alegria, quase ininterruptamente, desde as primeiras horas da manhã.” E a descrição deste dia de traba
lho está escrita de maneira clara e alegre. Sente-se ao ler estas linhas que o ser de Tânia se libertou temporariamente da embriaguez da paixão e encontrou de novo a si mesmo. Com a paleta na mão, Tânia, entregue ao trabalho, despertou de seu sonho e se deu conta, de repente, de que iridependentemente dela e de Stark, além de sua atmosfera de paixão que os leva até o êxtase, existe um mundo, cheio de cores e prazeres, com suas próprias alegrias e sofrimentos. De repente se recorda de seu amigo Weber e lamenta seu abandono. Não se encontra uma mulher do tipo antigo, capaz de lançar um suspiro de alívio, à maneira dos homens, ao ver-se livre da embriaguez da paixão, ao retomar o trabalho abandonado, ao apreciar de novo o valor de sua existência independente, sua própria individualidade.
A maior tragédia para a mulher do passado era a perda ou a traição do homem amado. Para a nova mulher, a maior desgraça é a perda de si mesma, a renúncia ao seu próprio eu, sacrificado ao homem amado, à felicidade do amor. As mulheres do novo tipo se sublevam, não somente contra as correntes exteriores, mas, também contra a “escravidão do amor por si só”. Têm medo das correntes do amor com que a psicologia deformada de nossa época aprisiona os amantes. Acostumada a perder-se totalmente nos tormentos da paixão, a mulher, mesmo a mulher do novo tipo, vai ao encontro do amor quase sempre com um sentimento de ansiedade, temerosa de que a força do sentimento desperte nela as tendências atávicas, da mulher eco do homem, temerosa de que a paixão a obrigue a renunciar a si mesma, a abandonar seu trabalho, sua vocação e a finalidade de sua vida. Já não se trata da luta pelo direito ao amor, mas sim, do protesto contra a escravidão moral de um sentimento que exteriormente pode ser livre. Tudo isto significa a rebelião das mulheres de nosso período de transição, as quais, todavia, não aprenderam a conciliar a independência e a liberdade interior, com a força renovadora do amor.
A mulher do passado, quando se desligava do amor, submergia no mundo incolor de sua vida cinzenta e pobre de conteúdo. A mulher do novo tipo, quando escapa do cativeiro do amor, recobra sua liberdade com alegria e surpresa. “Terminou a submissão do pensamento”, escreve triunfalmente a heroína de Kredo, depois de haver-se convencido de que havia passado a embriaguez da paixão, de que já terminaram todos os sofrimentos, agitação e temores. Outra vez sente-se livre e seu coração não está destroçado, apesar de o homem amado ter desaparecido repenfinamente de sua alma. Irina regozija-se quando “sente que recupera as forças e a energia que diminuíam sempre que tentava penetrar nas profundezas de uma alma estranha àsua, esforço que lhe dava uma sensação de humilhação. Por isso o despertar de Irina é alegre.”
Libertar-se do cativeiro de um pensamento alheio, escapar à dor e ao sofrimento, voltar a si mesma, encontrar de novo a personalidade perdida, constitui a maior felicidade para a mulher-individualidade; sentimentos estes incompreensíveis e desconhecidos para as mulheres do passado.
Foi necessário, para não fracassarem todos os sentimentos da mulher, nos momentos em que o homem se afastava de sua vida, que se produzisse uma enorme transformação em sua alma; foi preciso que enriquecesse poderosamente sua vida intelectual e que chegasse a acumular um grande capital de valores próprios. Precisamente porque a vida da nova mulher não se reduz a amar, porque tem em sua alma uma reserva de necessidades e interesses que a tomam uma individualidade, mudamos nosso critério de apreciação sobre a personalidade da mulher. Durante muitos séculos a mulher foi valorizada, não pelas propriedades de sua alma, mas sim, pelas virtudes femininas que exigia a moral burguesa da propriedade: a pureza, a virtude sexual. Não haveria perdão para a mulher que pecasse segundo o código da moralidade sexual. Por isso, os romancistas evitavam, com todas as precauções, a queda de suas heroínas preferidas, enquanto deixavam que as outras pecassem como os homens, ainda que estes não perdessem por isto seu valor moral.
As heroinas dos romances contemporâneos, as mulheres celibatárias, freqüentemente infringem as proibições do código corrente da virtude sexual, sem que o autor nem o leitor considerem essas heroinas como tipos viciados. Admiramos a audaciosa Magda, de Sudermann, mesmo tendo esta moça pecado várias vezes. Matilde, a heroína de Hauptmann, comove-nos apesar de seus amores ilegítimos e de possuir filhos de vários amantes. (40)
Apesar destes fatos ocorrerem com a maioria dos homens, nós os respeitamos assim mesmo.
Sem nos darmos conta disto, experimentamos uma modificação em nossa psicologia no que se refere à nova moral em formação. O que há cinqüenta anos classificávamos como uma mancha indelével em uma moça solteira ou em uma mulher, hoje consideramos como um fato que não necessita nem de justificativa nem de perdão. Jorge Sand teve que defender o direito da mulher de abandonar seu marido por um amante que elegeu livremente. Na paradisíaca Inglaterra, Grent Allan, não faz muito tempo, teve que tomar sob sua proteção a mãe solteira. À medida porém, que a mulher se torna independente, que deixa de depender de um pai ou de um marido, à medida que participa ao lado do homem da luta social, o velho critério torna-se completamente inútil.
A acumulação gradativa na mulher de características e sentimentos morais humanos nos ensina a nela apreciar não somente a representante do sexo, mas também uma individualidade. Ao mesmo tempo desaparece o antigo critério, que considerava a mulher como a fêmea, capaz de assegurar ao marido um rebento legítimo.
Primeiramente a vida nos ensinou a aplicar estes critérios somente às almas superiores; por isto perdoamos as infrações do código corrente da moral sexual às artistas, às mulheres de talento.
“Mas, por que hão de ser as almas superiores as únicas que gozam desses direitos?”, pergunta com razão Bebel.
“Se Goethe e Jorge Sand - tomemos estas duas personalidades como exemplo, ainda que sejam muitas as que agiram da mesma forma - atreveram-se a viver conforme os desejos de seu coração; se as aventuras amorosas de Goethe ocupam volumes inteiros, devorados com entusiasmo respeitoso por admiradores de ambos os sexos, por que, então, condenar em outros o que precisamente nos encanta em Goethe e Jorge Sand?” (41)
Seguramente riríamos dos hipócritas que fossem capazes de negar um aperto de mão a Sarah Bernhardt ou de abandonar um espetáculo por imoral. Mas, quando se trata de simples mortais, vacilamos freqüentemente antes de reconhecer uma personalidade, duvidamos da atitude que devemos adotar ante a mulher livre do tipo celibatário. Se verdadeiramente estivéssemos decididos a aplicar a estas mulheres a medida moral dos tempos passados, seríamos obrigados a abandonar todas as figuras das mulheres mais belas e humanas da literatura contemporânea. Enquanto as mulheres do passado, educadas no respeito à pureza imaculada da virgem, se esforçavam em conservar sua virtude, tinham necessariamente que esconder e dissimular os sentimentos reveladores das necessidades naturais de seu corpo, o traço característico da mulher do novo tipo é a afirmação de si mesma, não somente como individualidade, mas também como representante de seu sexo. A rebelião das mulheres contra a falsidade da moral sexual é um dos traços mais vivos da nova mulher.
Tem que ser assim, porque na mulher, na mãe, a vida fisiológica ocupa, contrariamente às concepções que lhe foram inculcadas de maneira hipócrita, um papel muito mais importante que no homem. A liberdade de sentimento, a liberdade de eleger o homem amado, que pode chegar a ser o pai de seus filhos, a luta contra o fetiche da moral hipócrita, tais são os pontos do programa que realizam, silenciosamente, as mulheres do novo tipo. O traço típico da mulher do passado era a renúncia à atração da carne, a máscara da pureza, inclusive no matrimônio. A nova mulher não abdica da sua natureza de mulher, não foge da vida, nem de suas alegrias terrenas, que a realidade, tão avara em sorrisos, lhe concede. As heroínas modernas são mães sem estar casadas; abandonam o marido ou o amante; sua vida pode ser rica em aventuras amorosas, e, entretanto, nem elas mesmo, nem o autor ou leitor contemporâneo as consideram criaturas perdidas. As aventuras do amor livre e sincero de Matilde, de Olga, de Maia, têm uma ética própria, talvez mais perfeita que a passiva virtude da Tatiana, de Puchkin (42), ou a moral negligente de Lisa, de Turguenev. (43)
Esta é a mulher moderna: a autodisciplina, ao invés de um sentimentalismo exagerado; a apreciação da liberdade e da independência, ao invés de submissão e de falta de personalidade; a afirmação de sua individualidade e não os estúpidos esforços por identificar-se com o homem amado; a afirmação do direito a gozar dos prazeres terrenos e não a máscara hipócrita da “pureza”, e finalmente, o relegar das aventuras do amor a um lugar secundário na vida. Diante de nós temos, não uma fêmea, nem uma sombra do homem, mas sim uma mulher-individualidade.
A nova mulher traz consigo algo que nos é completamente estranho, que às vezes chega inclusive a repugnar-nos por sua originalidade. Contemplamos e buscamos nesse novo tipo de mulher os traços queridos e conhecidos de nossas mães e avós. Diante de nós, ergue-se, cobrindo totalmente o passado, um mundo de emoções, de sentimentos, de necessidades completamente distintas. Onde encontrar a encantadora submissão feminina, a doçura de nossas mulheres do passado? Onde estará aquele seu talento especial para adaptar-se ao matrimônio, para se submeter até a um homem insignificante, para ceder-lhe sempre o primeiro posto na vida?
Temos diante de nós a mulher-individualidade, uma personalidade que tem valor próprio, com um mundo interior todo seu, personalidade que se afirma, em suma, a mulher que arranca as enferrujadas algemas que aprisionam o sexo.
Quais são, pois, os traços característicos, os sentimentos, as qualidades psicológicas da mulher que nos permitem classificá-la, de acordo com sua aparência interna, como fazendo parte da classe de mulheres celibatárias?
A direitos conquistados, a mulher tem que realizar um trabalho de auto-educação, muito mais profundo que o do homem. No rocaracterística típica da mulher do passado, considerada seu maior ornamento e defeito, era o predomínio do sentimento. A realidade contemporânea, que arrastou a mulher à ativa luta pela existência, exige, antes de tudo, a ciência de saber vencer seus sentimentos e os numerosos obstáculos de ordem social que se interpõem no seu caminho, assim como a capacidade de fortalecer seu espírito pouco resistente, seu espírito que cede com demasiada facilidade, por meio da vontade. Para conservar seus novos mance de Ilse Frapan, Trabalho, recaem sobre Josefa sombrios pensamentos, graves cuidados. Josefa gostaria de poder soluçar, chorar por si mesma, entregar-se a sua dor como o faziam as mulheres do passado. Mas, o trabalho na clínica, seu trabalho, organizado, dividido em horas, não admite espera. O trabalho da clínica não é um trabalho que se possa deixar para outro dia, como os afazeres de casa ou o remendar a roupa das crianças. Josefa tem que ter força de vontade sobre si mesma, coisa a que o homem está acostumado, esforço completamente desconhecido das mulheres dos tempos passados; tem que fazer um esforço para esconder sua vida privada atrás de um muro e apresentar-se no trabalho sempre à hora certa.
Matilde assiste à morte de seu filho, que constitui toda alegria, era tudo o que havia restado de seu ardente amor. Porém, seu ofício amarra-a com todas as suas forças à oficina e seus dedos práticos trabalham, como sempre, sem romper o fio.
A realidade contemporânea exige de uma maneira implacável que toda mulher que se vê obrigada a trabalhar num ofício ou profissão em qualquer trabalho que a leve a do lar, possua autodisciplina e força de vontade para saber vencer seus sentimentos, qualidade que somente poderíamos encontrar, excepcionalmente, nas mulheres do tipo antigo.
O ciúmes, a desconfiança, a absurda “vingança feminina” eram as características próprias da mulher do tipo antigo. Os ciúmes constituem o sentimento que origina todas as tragédias da alma feminina. É certo que os ciúmes constituem, também, uma estratégia para o homem porém, não devemos esquecer que Shakespeare não escolheu para seu Otelo um inglês disciplinado, educado, nem um veneziano de inteligência refinada, mas sim um mouro dominado pelas paixões.
Precisamente é a dependência da mulher com relação a seus sentimentos o que a levou a expressar seu ódio por uma rival de maneira verdadeiramente monstruosa, fazendo-a trazer à superfície suas qualidades mais mesquinhass de “escrava”. Se a heroína não desfigurava sua rival com ácido, não deixava, entretanto, de lançar sobre o veneno da calúnia.
As mulheres do novo tipo não reivindicam a propriedade de seu amor. Ao exigir o respeito à sua própria liberdade de sofrimento, têm que aprender a admitir esta mesma liberdade nos demais. E realmente interessante observar a atitude das heroínas de uma série de romances contemporâneos no que se refere a uma rival. As mulheres do novo tipo não empregam ácido nem a calúnia. Ao invés disso , educado demonstram delicadeza e compreensão para com a outra mulher, para com a rival. No romance Voz, por exemplo, a heroína Maia e a primeira mulher do homem que ama não só não se odeiam como chegam a encontrar uma linguagem comum e descobrem que em muitos pontos se encontram mais intimamente unidas do que com o homem que as duas amam. Maia chora quando percebe como ele feriu o coração de sua rival. Maia se sente pessoalmente humilhada quando conhece os sofrimentos de sua rival, que lhe conta que o homem amado a considerava uma coisa que lhe pertencia legalmente, e que não tinha para com ela a menor ternura confortadora. Maia sente-se ofendida pelo menosprezo à mulher, porque sabe sentir além dos limites propriamente individuais. Em Maia se manifesta um sentimento completamente desconhecido da mulher do passado: o sentimento de coletividade, de companheirismo.
Igualmente característica é a atitude que Maia adota diante da absurda e inútil traição de seu segundo marido. Maia não desfalece, nem arma um escândalo. Refugia-se ao lado das camas dos filhos da primeira mulher de seu marido. As cabecinhas adormecidas têm o poder de dissipar sua tristeza. Regressa depois ao seu lar solitário.
Maia sente frio. Acende a lareira, se enrola em um xale e se impõe a leitura de um livro interessante. Assim, conseguirá libertar-se, o mais rapidamente possível, de si mesma, de seus próprios pensamentos; assim recuperará o equilíbrio necessário.
Irina, a heroína do romance de Kredo, Na Névoa da Vida, não somente aceita a antiga união de Victor, como exige dele para com sua rival, uma atitude delicada. O contrário sucede quando Victor, ao tomar conhecimento do passado de Irina, lhe disse com ares de macho ofendido: “que número sou eu? Quero saber... Foram muitos?” Victor é um homem de vanguarda, um escritor, porém dentro dele, como dentro dos outros, a besta é mais forte que na insignificante Irina, que só é interessante por estender seus braços para a nova verdade da vida.
No novo tipo de nova mulher, a ciumenta é vencida cada vez com maior freqüência pela mulher-individualidade. Outro traço característico da mulher contemporânea consiste nas exigências, cada vez maiores, que faz ao homem. A mulher do passado estava acostumada por seu amo e senhor, durante séculos e séculos, a esquecer-se de si mesma, a descuidar completamente seu pequeno mundo espiritual. A mulher do passado não dava nenhum valor a sua própria personalidade, acostumada aos sorrisos indulgentes que os homens tinham para com suas debilidades e sofrimentos de mulher. Por isto resignava-se, sem protestar, a que seu companheiro não prestasse a menor atenção ao que pensava e sentia. Ainda, em nossos tempos, admiramo-nos de que somente alguns homens extraordinários saibam compreender a mulher, ainda que nos momentos de maior intimidade. A causa de quase todas as tragédias familiares, de todas as épocas, tem sido a atitude superficial, de abandono, do homem diante do eu feminino.
Com sua experiência, os Don Juan sabiam possuir o corpo da mulher; mas apoderavam-se também de sua alma, para o que representavam hipocritamente a comédia da compreensão; deixavam transparecer um interesse cheio de amor pelo eu insignificante da mulher, ao qual seu marido, embora mais sincero, não prestava a menor atenção. Como os Don Juan, porém, surgiam e desapareciam e o senhor legítimo permanecia, a mulher acabava reduzindo suas necessidades e exigências, obrigada durante séculos e séculos a adaptar-se à vida, até chegar a converter sua concepção de felicidade à satisfação das coisas exteriores e concretas. Ele presenteava-a com anéis e brincos; levava-lhe flores e bombons. Não havia necessidade de outra prova de seu amor. Se se portava com relação a ela de modo grosseiro e despótico, se lhe impunha uma série de proibições e exigências, era seu direito, direito de dono do seu coração.
A mulher contemporânea torna-se exigente. Deseja e exige respeito à sua personalidade, à sua alma; pretende que se leve em consideração seu eu. Não admite o despotismo. Quando o amante de Maia a proíbe de cantar em concertos e ela não o obedece, ele decide, para castigála, não lhe escrever durante duas semanas. Este ato exterminou em Maia todo sentimento para com seu amante. “Como pode castigá-la, logo a ela, que lhe entregou livremente seu coração?”
Na luta da mulher moderna para proteger sua liberdade interior, há algo que lembra as mulheres das antigas lendas, as mulheres dos tempos heróicos. “Cumpriu-se tua vontade, porém, já não sou tua mulher”, afirma Rosamunda a seu real esposo quando este a obriga a beber no crânio de seu pai, que assassinara. Na boca de Rosamunda estas palavras não são uma simples ameaça. Rosamunda mata seu marido, a quem havia amado apaixonadamente até aquele momento.
A mulher contemporanea perdoa muitas coisas que para a mulher do passado eram mais amargas de perdoar. Perdoa a incapacidade do homem para proporcionar-lhe um bem-estar material; perdoa uma falta de atenção de ordem exterior para com ela; inclusive pode perdoar uma infidelidade; em troca, porém, não esquecerá nunca, nem aceitará uma falta de atenção para com seu eu espiritual, para com sua alma. Se seu amigo não é capaz de compreendê-la, suas relações perdem, para a mulher moderna, a metade do valor.
Quando Christa Rouland pergunta a seu amante o que pensa sobre as mulheres, e este lhe responde primeiro com gracejos ligeiros e logo depois de forma corriqueira, Christa experimenta um alheamento involuntário. Não pode compreender como o homem que soube conquistar seu coração, devido ao interesse que demonstrou por sua personalidade, por seu eu espiritual, pode mostrar-se tão insensível e não compreender a enorme importância que para ela teria ouvi-lo expressar-se de outra forma. O que Christa não pode perdoar a Frank, e o mesmo sucede a todas as mulheres do novo tipo, é a transformação que sofre o homem depois da posse. O homem temeroso de perder a mulher amada precisa nela extinguir, ainda que seja precisamente na mulher querida pelo espírito audaz, pela independência de seu pensamento, o fogo sagrado da investigação. Esforça-se, cumulando-a de carinhos, por convertê-la apenas em objeto de seu prazer, de seu gozo.
Christa Rouland observa, cheia de assombro, como o mesmo Frank, que queria levá-la à esfera de seus próprios interesses espirituais, que sonhava sempre com uma atividade realizada em comum, começa a se separar, a viver em um mundo intelectual exclusivamente seu. Já não se trata de um trabalho realizado em colaboração. Nos momentos em que Christa toma parte, com grande interesse, no trabalho de seu pensamento, Frank vê nela somente a mulher, tanto mais sedutora por ser fina e espiritual. Christa sente que seu espírito e sua capacidade para elevar-se com ele às altas regiões do pensamento não fazem mais do que aumentar seu desejo sexual para com ela. A nova mulher perdoará a ofensa feita à fêmea, mas ser-lhe-áimpossível esquecer uma simples falta de atenção para com sua personalidade. O mesmo sucede com a exigência da mulher moderna de que o homem eleito tenha uma formação espiritual, questão de que nos fala também Vera Nikodinovna. “Na mulher - pensa Vera - a inteligência, ainda que seja da melhor qualidade, não desempenha mais do que um papel secundário. O essencial na mulher é a base moral. Precisamente o estudo e as leituras desenvolvem esta base moral, a tornam mais refinada e aguda. Nos homens esta base moral, ao contrário, se cristaliza, e quando se desenvolve é de forma débil. Esta é a causa de sermos desgraçadas... os homens não compreendem quase nunca o que nos separa deles.”
A necessidade que tem a mulher de sentir-se amada, não tanto pelo eterno feminino, e sim pelo conteúdo espiritual de seu eu, torna-se muito mais intensa, como é natural, quanto mais consciência tem de si mesma, como individualidade. “Maldigo meu corpo de mulher por sua culpa. Não podeis ver que há dentro de mim algo muito mais valioso...” Isto se manifesta em todas as páginas do livro Notas de Ana, de Nadejda Sanjar. Este protesto, expresso de uma ou de outra forma, repetem-no as heroínas de todas as nacionalidades. Até a alma simples da Tatiana de Gorki protesta por quererem fazer dela simplesmente um instrumento de prazer.
“Possuíram-me... Porém eu não quero, eu não quero que seja assim, sem carinho, como os cães... Que seres tão baixos são todos os homens!”
Quanto mais viva é a personalidade da mulher, quando se sente com maior intensidade como ser humano, mais fortemente sente, também, a ofensa do homem que, com a mentalidade formada através dos séculos, não sabe perceber por trás da mulher desejada uma individualidade que desperta.
As exigências que, com respeito ao homem, têm as mulheres contemporâneas, são a causa de que as heroínas dos romances de nossa época se entregem de uma paixão a outra, deixem um amor por outro, numa dolorosa luta para alcançar um ideal inacessível: a harmonia da paixão e a afinidade espiritual, a conciliação entre o amor e a liberdade, a união nascida do companheirismo e da independência recíproca.
Maia, a infatigável exploradora da sorte, exclama:
“Meu mais ardente desejo é encontrar um homem do qual jamais queira separar-me.” E aquela mulher errante termina as relações com seu amigo, unicamente porque aspira a alcançar o inextinguível ideal de uma união amorosa mais completa. A realidade presente engana todas essas mulheres, ansiosas por encontrar um amor perfeito e cheio de harmonia. Implacavelmente, têm que romper os laços do amor e partir novamente em busca da realização de seu sonho. É que estas infatigáveis sonhadoras esquecem que o que buscam, atualmente, com tanto afã, só poderá realizar-se em um futuro longínquo, quando os homens modelarem de novo suas almas, quando os homens chegarem a assimilar organicamente a idéia de que, em toda união amorosa, o primeiro lugar corresponde ao companheirismo e à liberdade.
A mulher do passado não sabia apreciar a independência pessoal. Mas, ter-lhe-ia servido para alguma coisa apreciá-la? Não há nada mais doloroso, nada que dê maior sensação de impotência do que uma esposa, ou uma amante do tipo da mulher do passado, abandonada. Quando o homem a abandonava, ou morria, a mulher não somente perdia a sua subsistência material, mas também, seu único apoio moral. A mulher do passado, incapaz de enfrentar a vida sozinha, tinha medo da solidão, e por isso estava sempre disposta a renunciar, quando se lhe apresentava a menor ocasião, à sua inútil e desagradável independência.
A mulher do novo tipo não somente não tem medo da independência, como cada dia aprecia mais seu valor, à medida que seus interesses se sobrepõem aos limites impostos pela família, pelo lar e pelo amor. Assim, não há nada mais espantoso para Vera Nikodinovna que a dependência material com respeito ao homem: “Oh, se eu viesse a depender de um homem, se eu viesse a precisar escolher um, para que fosse meu marido e para que me mantivesse, seria minha maior desgraça...” disse a uma amiga. Para Vera, ter um marido “proprietário e dono de sua alma” é um pensamento tão terrível como o cárcere para o prisioneiro que chegou a conquistar a liberdade com a fuga. “Jamais” - continua Vera - “adaptar-me-ei a essa escravidão. Já havia passado por uma experiência semelhante...”
“Esteve casada?”
“Não, não me casei nunca; mas vivi meu romance, tive uma paixão.”
A nova mulher se sente presa no matrimônio, ainda que este não seja mais do que laços exteriores. A mentalidade do homem do passado, que ainda permanece viva, cria laços morais que não são menos sólidos que as cadeias exteriores.
Portanto, as novas heroínas de nossa literatura fogem obstinadamente de tudo aquilo que possa prendê-las, ainda que seja só exteriormente, ao homem amado. A dependência material da mulher em relação ao homem, sua completa impotência para enfrentar o mundo sem se apoiar no braço de um homem, obrigava a mulher do passado a preocupar-se antes de tudo em concretizar suas relações com o homem, em consolidar de alguma forma as relações amorosas. Só então sentia-se segura. A nova mulher, obrigada a suprir por si só as necessidades materiais da vida, toma atitude negativa ou indiferente diante de todas essas formalidades que para ela não têm objetivo. Este novo tipo não tem nenhuma pressa em dar uma forma determinada às suas relações amorosas. Quando a amiga de Renée, em A Vagabunda, a interroga sobre que tipo de relações mantém com o homem amado, se uma união legal ou simplesmente uma união passageira, ela só pode responder com um movimento de ombros.
-Nós? Simplesmente nos amamos.
-“Muito bem, mas, e no futuro?”
“Oh, Margot” - exclama Renée - “eu não penso no futuro!”
Até agora o conteúdo fundamental da vida da maioria das heroínas se reduzia aos sentimentos do amor. Este bastava para dar colorido até a uma vida cheia de privações de ordem material. Ao contrário, a ausência do amor tornava pobre e vazia a vida de uma mulher. Nem as riquezas exteriores, nem as honras, nem sequer as alegrias da maternidade podiam substituir para a mulher a perda de um amor venturoso. (39)
Se uma mulher não amava, a vida parecia-lhe tão vazia como seu coração. Esta é uma das características que estabelecem uma diferença nítida entre a mulher do passado e o homem. No homem, ao lado dos acontecimentos amorosos, existia sempre uma atividade particular. Enquanto a mulher enlouquecia languescia esperando por ele, o homem lutava contra o destino, em um mundo desconhecido e incompreensível para a mulher. A maioria das tragédias psicológicas das relações entre o homem e a mulher eram causadas pelo fato de que o homem, ansiosamente esperado ao regressar à casa depois de uma ausência, devido aos negócios ou ao trabalho, retirava os papéis da pasta, comia depressa e apressava-se para alguma reunião ou se entregava avidamente à leitura de um livro, ao invés de dedicar toda sua atenção à mulher que com tanto afã o havia esperado. A mulher não podia compreender esta atitude do homem, e seu coração explodia em reprovações. Ela havia deixado por acabar, uma blusa, para esperá-lo; havia abandonado a comida por fazer; havia adormecido as crianças com o único fim de ficar sozinha a seu lado, para fazê-lo esquecer os assuntos, os trabalhos e a política. As mulheres de todas as classes sofriam igualmente com esta incompreensão do homem e de seus interesses; porque tanto o homem como suas atividades estavam situados, para elas, em um mundo totalmente desconhecido, muito distante dos limites do aconchego familiar. A falta de compreensão da psicologia do homem era igual na mulher do professor e na mulher do funcionário, na mulher do operário e na mulher do empregado.
A exclamação da esposa ofendida: “Vais outra vez a tua aborrecida reunião” acompanhava e ainda acompanha da mesma forma o marido banqueiro e o proletário.
Entretanto, à medida que a mulher intervém no movimento da vida social, à medida que se converte em mola ativa do mecanismo da vida econômica, seu horizonte se alarga. Os muros de sua casa, que antes encerravam para ela todo o seu mundo, derrubam-se, e a mulher se apodera, inconscientemente no início, acabando por assimilálos, dos interesses que pouco antes lhe eram completamente desconhecidos e incompreensíveis.
O amor deixa de ser para a mulher o conteúdo único de sua vida, começa a ficar relegado a um lugar secundário, como sucede com a maioria dos homens. E certo que as mulheres do novo tipo passam alguns períodos de sua vida, nos quais o amor ou a paixão tomam completamente sua alma, sua inteligência, seu coração e até sua vontade; épocas em que todos os outros interesses da vida empalidecem ou ficam relegados a um segundo plano. Nestes momentos as mulheres do novo tipo podem viver também como as mulheres do passado. Mas, na mulher moderna, a paixão e o amor constituem apenas uma parte de sua vida, cujo verdadeiro conteúdo é algo mais sagrado e a cuja realização se entrega, isto é, um ideal social, o estudo da ciência, uma vocação ou o trabalho criador. A finalidade de sua vida é, geralmente, para a mulher moderna, algo muito mais importante, muito mais apreciado, muito mais sagrado que todas as alegrias do amor e todos os prazeres da paixão.
Disto nasce a atitude, completamente nova, da mulher com respeito ao trabalho, atitude que era impossível encontrar na~ heroínas dos bons tempos passados.
A heroína de Bennet teve seu primeiro encontro amoroso com o homem. Quando este lhe pergunta se pode ir vê-la na manhã seguinte, ela o interrompe quase com espanto, apesar de seu amor e de sua felicidade:
- “Só venha depois do almoço”.
- “Depois do almoço, por quê?”
“Ele não sabia o que pensar.”
“É que durante os últimos cinco anos de minha vida eu me acostumei a ser a dona de meus próprios atos. Todos os meus gostos, meus costumes, meu regime de vida já estão estabelecidos. Nunca recebo ninguém antes do almoço. Amanhã, precisamente amanhã, tenho muito que fazer.” “Será que este homem, como um conquistador, virá roubar minhas manhãs de trabalho? Sem que me desse conta despertou em mim uma surda inquietação pela minha liberdade e independência.”
Esta confissão nos revela uma nova característica da psicologia da mulher moderna. Uma mulher é capaz de retardar por sua própria vontade um encontro desejado e que a faria feliz. E faz isto unicamente porque está acostumada a escrever pela manhã, porque lhe doem as horas perdidas, roubadas ao trabalho. Para a mulher do passado, como seria possível que as horas entregues ao amor fossem horas perdidas? Tânia, a heroína do romance de Nagrodsafla, durante a lua de mel com Stark, sente-se continuamente atormentada pela consciência de sua ociosidade.
“Decididamente, reservar-me-ei o dia de hoje. Pedirei a Stark que me deixe só.” Porém Stark indigna-se e protesta diante de sua proposta. Este era o papel reservado, no passado, às heroínas dos romances.
“Todo um dia sem você”, diz-lhe em tom de criança caprichosa. “Não a molestarei. Ficarei quieto.” E prossegue logo depois: “Começo a odiar sua arte. E uma rival com a qual é difícil lutar.” Tânia cede uma vez mais, porém a consciência do trabalho abandonado a martiriza. Não é possível para ela entregar-se inteiramente ao prazer, encontrar calma em seus gozos amorosos, tendo seu trabalho que sofrer as conseqüências.
“Hoje trabalhei - escreve Târtia, feliz; trabalhei avidamente, com alegria, quase ininterruptamente, desde as primeiras horas da manhã.” E a descrição deste dia de traba
lho está escrita de maneira clara e alegre. Sente-se ao ler estas linhas que o ser de Tânia se libertou temporariamente da embriaguez da paixão e encontrou de novo a si mesmo. Com a paleta na mão, Tânia, entregue ao trabalho, despertou de seu sonho e se deu conta, de repente, de que iridependentemente dela e de Stark, além de sua atmosfera de paixão que os leva até o êxtase, existe um mundo, cheio de cores e prazeres, com suas próprias alegrias e sofrimentos. De repente se recorda de seu amigo Weber e lamenta seu abandono. Não se encontra uma mulher do tipo antigo, capaz de lançar um suspiro de alívio, à maneira dos homens, ao ver-se livre da embriaguez da paixão, ao retomar o trabalho abandonado, ao apreciar de novo o valor de sua existência independente, sua própria individualidade.
A maior tragédia para a mulher do passado era a perda ou a traição do homem amado. Para a nova mulher, a maior desgraça é a perda de si mesma, a renúncia ao seu próprio eu, sacrificado ao homem amado, à felicidade do amor. As mulheres do novo tipo se sublevam, não somente contra as correntes exteriores, mas, também contra a “escravidão do amor por si só”. Têm medo das correntes do amor com que a psicologia deformada de nossa época aprisiona os amantes. Acostumada a perder-se totalmente nos tormentos da paixão, a mulher, mesmo a mulher do novo tipo, vai ao encontro do amor quase sempre com um sentimento de ansiedade, temerosa de que a força do sentimento desperte nela as tendências atávicas, da mulher eco do homem, temerosa de que a paixão a obrigue a renunciar a si mesma, a abandonar seu trabalho, sua vocação e a finalidade de sua vida. Já não se trata da luta pelo direito ao amor, mas sim, do protesto contra a escravidão moral de um sentimento que exteriormente pode ser livre. Tudo isto significa a rebelião das mulheres de nosso período de transição, as quais, todavia, não aprenderam a conciliar a independência e a liberdade interior, com a força renovadora do amor.
A mulher do passado, quando se desligava do amor, submergia no mundo incolor de sua vida cinzenta e pobre de conteúdo. A mulher do novo tipo, quando escapa do cativeiro do amor, recobra sua liberdade com alegria e surpresa. “Terminou a submissão do pensamento”, escreve triunfalmente a heroína de Kredo, depois de haver-se convencido de que havia passado a embriaguez da paixão, de que já terminaram todos os sofrimentos, agitação e temores. Outra vez sente-se livre e seu coração não está destroçado, apesar de o homem amado ter desaparecido repenfinamente de sua alma. Irina regozija-se quando “sente que recupera as forças e a energia que diminuíam sempre que tentava penetrar nas profundezas de uma alma estranha àsua, esforço que lhe dava uma sensação de humilhação. Por isso o despertar de Irina é alegre.”
Libertar-se do cativeiro de um pensamento alheio, escapar à dor e ao sofrimento, voltar a si mesma, encontrar de novo a personalidade perdida, constitui a maior felicidade para a mulher-individualidade; sentimentos estes incompreensíveis e desconhecidos para as mulheres do passado.
Foi necessário, para não fracassarem todos os sentimentos da mulher, nos momentos em que o homem se afastava de sua vida, que se produzisse uma enorme transformação em sua alma; foi preciso que enriquecesse poderosamente sua vida intelectual e que chegasse a acumular um grande capital de valores próprios. Precisamente porque a vida da nova mulher não se reduz a amar, porque tem em sua alma uma reserva de necessidades e interesses que a tomam uma individualidade, mudamos nosso critério de apreciação sobre a personalidade da mulher. Durante muitos séculos a mulher foi valorizada, não pelas propriedades de sua alma, mas sim, pelas virtudes femininas que exigia a moral burguesa da propriedade: a pureza, a virtude sexual. Não haveria perdão para a mulher que pecasse segundo o código da moralidade sexual. Por isso, os romancistas evitavam, com todas as precauções, a queda de suas heroínas preferidas, enquanto deixavam que as outras pecassem como os homens, ainda que estes não perdessem por isto seu valor moral.
As heroinas dos romances contemporâneos, as mulheres celibatárias, freqüentemente infringem as proibições do código corrente da virtude sexual, sem que o autor nem o leitor considerem essas heroinas como tipos viciados. Admiramos a audaciosa Magda, de Sudermann, mesmo tendo esta moça pecado várias vezes. Matilde, a heroína de Hauptmann, comove-nos apesar de seus amores ilegítimos e de possuir filhos de vários amantes. (40)
Apesar destes fatos ocorrerem com a maioria dos homens, nós os respeitamos assim mesmo.
Sem nos darmos conta disto, experimentamos uma modificação em nossa psicologia no que se refere à nova moral em formação. O que há cinqüenta anos classificávamos como uma mancha indelével em uma moça solteira ou em uma mulher, hoje consideramos como um fato que não necessita nem de justificativa nem de perdão. Jorge Sand teve que defender o direito da mulher de abandonar seu marido por um amante que elegeu livremente. Na paradisíaca Inglaterra, Grent Allan, não faz muito tempo, teve que tomar sob sua proteção a mãe solteira. À medida porém, que a mulher se torna independente, que deixa de depender de um pai ou de um marido, à medida que participa ao lado do homem da luta social, o velho critério torna-se completamente inútil.
A acumulação gradativa na mulher de características e sentimentos morais humanos nos ensina a nela apreciar não somente a representante do sexo, mas também uma individualidade. Ao mesmo tempo desaparece o antigo critério, que considerava a mulher como a fêmea, capaz de assegurar ao marido um rebento legítimo.
Primeiramente a vida nos ensinou a aplicar estes critérios somente às almas superiores; por isto perdoamos as infrações do código corrente da moral sexual às artistas, às mulheres de talento.
“Mas, por que hão de ser as almas superiores as únicas que gozam desses direitos?”, pergunta com razão Bebel.
“Se Goethe e Jorge Sand - tomemos estas duas personalidades como exemplo, ainda que sejam muitas as que agiram da mesma forma - atreveram-se a viver conforme os desejos de seu coração; se as aventuras amorosas de Goethe ocupam volumes inteiros, devorados com entusiasmo respeitoso por admiradores de ambos os sexos, por que, então, condenar em outros o que precisamente nos encanta em Goethe e Jorge Sand?” (41)
Seguramente riríamos dos hipócritas que fossem capazes de negar um aperto de mão a Sarah Bernhardt ou de abandonar um espetáculo por imoral. Mas, quando se trata de simples mortais, vacilamos freqüentemente antes de reconhecer uma personalidade, duvidamos da atitude que devemos adotar ante a mulher livre do tipo celibatário. Se verdadeiramente estivéssemos decididos a aplicar a estas mulheres a medida moral dos tempos passados, seríamos obrigados a abandonar todas as figuras das mulheres mais belas e humanas da literatura contemporânea. Enquanto as mulheres do passado, educadas no respeito à pureza imaculada da virgem, se esforçavam em conservar sua virtude, tinham necessariamente que esconder e dissimular os sentimentos reveladores das necessidades naturais de seu corpo, o traço característico da mulher do novo tipo é a afirmação de si mesma, não somente como individualidade, mas também como representante de seu sexo. A rebelião das mulheres contra a falsidade da moral sexual é um dos traços mais vivos da nova mulher.
Tem que ser assim, porque na mulher, na mãe, a vida fisiológica ocupa, contrariamente às concepções que lhe foram inculcadas de maneira hipócrita, um papel muito mais importante que no homem. A liberdade de sentimento, a liberdade de eleger o homem amado, que pode chegar a ser o pai de seus filhos, a luta contra o fetiche da moral hipócrita, tais são os pontos do programa que realizam, silenciosamente, as mulheres do novo tipo. O traço típico da mulher do passado era a renúncia à atração da carne, a máscara da pureza, inclusive no matrimônio. A nova mulher não abdica da sua natureza de mulher, não foge da vida, nem de suas alegrias terrenas, que a realidade, tão avara em sorrisos, lhe concede. As heroínas modernas são mães sem estar casadas; abandonam o marido ou o amante; sua vida pode ser rica em aventuras amorosas, e, entretanto, nem elas mesmo, nem o autor ou leitor contemporâneo as consideram criaturas perdidas. As aventuras do amor livre e sincero de Matilde, de Olga, de Maia, têm uma ética própria, talvez mais perfeita que a passiva virtude da Tatiana, de Puchkin (42), ou a moral negligente de Lisa, de Turguenev. (43)
Esta é a mulher moderna: a autodisciplina, ao invés de um sentimentalismo exagerado; a apreciação da liberdade e da independência, ao invés de submissão e de falta de personalidade; a afirmação de sua individualidade e não os estúpidos esforços por identificar-se com o homem amado; a afirmação do direito a gozar dos prazeres terrenos e não a máscara hipócrita da “pureza”, e finalmente, o relegar das aventuras do amor a um lugar secundário na vida. Diante de nós temos, não uma fêmea, nem uma sombra do homem, mas sim uma mulher-individualidade.
Notas
1 Tomemos como exemplo a
moral simplista do homem em suas relações sexuais, moral que considera como um
fato natural e inevitável... a prostituição. Dora, a heroína de vanguarda da
novela de Winitchenco, A Autolealdade, é uma mulher que se sente enteriormente
livre e que assilimila sem submeter à crítica essa verdade masculina do mundo
burguês. Com uma finalidade superior, para demonstrar a profundidade de seu
sentimento pelo homem que ama, para afirmar sua personalidade e evidenciar quâo
separados estão seus sentimentos de uma simples agitação sangüínea, Dora compra
um homem... A falsa veracidade masculina de classe é aceita neste caso por uma
mulher que aspira a libertar-se, buscando uma verdade superior.
2 Ver capítulo A nova mulher na literatura.
3 Isto explica porque os romancistas contemporâneos elegem suas heroínas entre as mulheres representantes do meio burguês. Apenas encontramos uma heroína pertencente à classe operária. Entretanto, os escritores encontrariam um rico material se decidissem descer até estas camadas da sociedade, onde a dura realidade contemporânea cria, não isoladamente, mas em massa, o tipo de mulheres dotadas de uma nova estrutura moral, com novas necesidades e emoções.
4 Os traços psicológicos isolados, característicos da nova mulher, se encontram nas heroínas de Gorki muito mais frequentemente do que nos outros escritores russos. Sua alma sensível de artista, aberta à realidade futura, sabe apoderar-se com muito mais facilidade do que a dos outros escritores, dos traços que escapam aos olhos dos demais e que se encontram mais estreitamente ligados à realidade capitalista.
5 Grete Meisel – Hess – A Crise sexual.
6 Convém assinalar que as considerações expostas por Meissel – Hess sobre a deformação da psicologia masculina, dão a chave de outro problema que até agora havia permanecido obscuro. O pouco costume que os homens têm de levar em consideração a psicologia faminina – a incapacidade para compreender seus sentimentos – não somente os conduz a não prestar a menor atenção à alma da mulher, como vai ainda muito mais além: conduz os homens a ignorar totalmente, com a mais surpreendente ignorânica, as sensações fisiológicas da mulher durante o ato mais íntimo de suas relações. Os médicos sbem, a insatisfação das mulheres no ato sexual provoca, freqüentemente, doenças nervosas. É surpreendente que a literatura impregnada pela psicologia masculina haja deixado passar em silêncio este fato que explica toda uma série de dramas familiares e de amor. Quando Maupassant se atreve a abordar a questão na novela “Uma Vida”, sua “revelação” provoca uma ingênua surpresa na maioria dos homens.
7 Este ensaio foi escrito em 1918.
8 Matilde, novela de Karl Hauptmann.
9 Suderman: A Pátria.
10 Colette Iver: Princesas da Ciência.
11 Schnitzler: Caminho da liberdade.
12 Potapenko: Na Névoa.
13 Wimitchenko: Na Balança da Vida.
14 Idem.
15 Id.
16 Sangar: Notas de Anna.
17 Grigoriev: O Ocaso.
18 Colette e Willy: A Vagabunda.
19 Bennet: O Amor Sagrado.
20 Grete Meisel: A Voz.
21 Ilsa Frapan: Trabalho.
22 Hedwing Dohm: Christa Rouland.
24 Yuchkevitch: Saída do Círculo.
25 Wassermann: Renata Fuchs.
26 Grent Allena: A mulher que se atreveu.
27 Winnichenko: Na Balança da Vida.
28 Else Jerusalén: O escaravelho sagrado.
29 O. Rounow: Luta.
30 Bernard Shaw: O primeiro trabalho de Fanny.
31 Hauptman: Solitárias.
32 S. Undset: Jenny.
33 Romain Rolland: Jean Christophe.
34 Idem.
35 G. Aterton: Julia France e sua época.
36 Marie Antine: A Terra Prometida.
37 Por exemplo, Rosa de Vita Omnium Breve.
38 A maioria dos autores citados nestas páginas são mulheres. Muitas de suas obras carecem de verdadeiro valor artístico; mas, para o fim a que nos propomos nestas páginas, elas nos oferecem um ponto de vista incomparavelmente mais exato do que as obras dos escritores de sexo masculino, que são superiores, em geral, por seu valor literário. Quase todos os romances escritores por mulheres contêm trechos puramente biográficos que são precisamente os que maior interesse apresentam para o nosso trabalho. As obras que refletem sem artifícios a verdade da vida, as que nos mostram mais exatamente a psicologia da mulher contemporânea, suas dores, seus problemas, seus desejos, contradições, complicações e tendências, serão as que melhor nos servem para enriquecer nosso material no estudo do novo tipo de mulher em formação. Desde que as mulheres escritoras deixaram de imitar cegamente os modelos criados pelos homens e se atreveram a descobrir os mistérios da alma feminina que até então haviam permanecido ocultos, inclusive para os artistas mais geniais, desde qua as escritoras começarama expressar na sua própria língua sobre os problemas da mulher, suas obras, ainda que careçam algumas vezes da beleza exterior da criação artística, têm um valor e uma significação especial. Em suma todos esses trabalhos nos ajudam a conhecer a mulher celibatária, a mulher do novo tipo, em formação.
39 É característico observar como a maternidade tem sido sempre considerada como último refúgio da felicidade da mulher. Se o matrimônio não a tornara feliz, se a mulher se via obrigada a renunciar a uma união amorosa ou se tinha enviuvado, restavam então, como último refúgio, os cuidados e as alegrias da maternidade. A maternidade raramente era considerada como um fim em si mesma. Somente perto da velhice, despertavam na mulher sentimentos atávicos da espécie, só então aparecia a família com algum sentido na vida, e se convertia em um ídolo, que adorava, e para o qual exigia, despoficamente, a adoração dos outros membros da família.
40 As aventuras amorosas de Matilde não nos impedem de respeitar sua personalidade íntegra e pura. Assim como Matilde, sentimos piedade e desprezo por sua irmã Marta, operária como ela, mas que regressa com dinheiro de cada aventura. Há todo um abismo entre a liberdade de Matilde e a venalidade de Marta.
41 A. Bebel: A Mulher
42 Puchkin: Eugenia Onieguin
43 Turguenev: Ninho de fidalgos
2 Ver capítulo A nova mulher na literatura.
3 Isto explica porque os romancistas contemporâneos elegem suas heroínas entre as mulheres representantes do meio burguês. Apenas encontramos uma heroína pertencente à classe operária. Entretanto, os escritores encontrariam um rico material se decidissem descer até estas camadas da sociedade, onde a dura realidade contemporânea cria, não isoladamente, mas em massa, o tipo de mulheres dotadas de uma nova estrutura moral, com novas necesidades e emoções.
4 Os traços psicológicos isolados, característicos da nova mulher, se encontram nas heroínas de Gorki muito mais frequentemente do que nos outros escritores russos. Sua alma sensível de artista, aberta à realidade futura, sabe apoderar-se com muito mais facilidade do que a dos outros escritores, dos traços que escapam aos olhos dos demais e que se encontram mais estreitamente ligados à realidade capitalista.
5 Grete Meisel – Hess – A Crise sexual.
6 Convém assinalar que as considerações expostas por Meissel – Hess sobre a deformação da psicologia masculina, dão a chave de outro problema que até agora havia permanecido obscuro. O pouco costume que os homens têm de levar em consideração a psicologia faminina – a incapacidade para compreender seus sentimentos – não somente os conduz a não prestar a menor atenção à alma da mulher, como vai ainda muito mais além: conduz os homens a ignorar totalmente, com a mais surpreendente ignorânica, as sensações fisiológicas da mulher durante o ato mais íntimo de suas relações. Os médicos sbem, a insatisfação das mulheres no ato sexual provoca, freqüentemente, doenças nervosas. É surpreendente que a literatura impregnada pela psicologia masculina haja deixado passar em silêncio este fato que explica toda uma série de dramas familiares e de amor. Quando Maupassant se atreve a abordar a questão na novela “Uma Vida”, sua “revelação” provoca uma ingênua surpresa na maioria dos homens.
7 Este ensaio foi escrito em 1918.
8 Matilde, novela de Karl Hauptmann.
9 Suderman: A Pátria.
10 Colette Iver: Princesas da Ciência.
11 Schnitzler: Caminho da liberdade.
12 Potapenko: Na Névoa.
13 Wimitchenko: Na Balança da Vida.
14 Idem.
15 Id.
16 Sangar: Notas de Anna.
17 Grigoriev: O Ocaso.
18 Colette e Willy: A Vagabunda.
19 Bennet: O Amor Sagrado.
20 Grete Meisel: A Voz.
21 Ilsa Frapan: Trabalho.
22 Hedwing Dohm: Christa Rouland.
24 Yuchkevitch: Saída do Círculo.
25 Wassermann: Renata Fuchs.
26 Grent Allena: A mulher que se atreveu.
27 Winnichenko: Na Balança da Vida.
28 Else Jerusalén: O escaravelho sagrado.
29 O. Rounow: Luta.
30 Bernard Shaw: O primeiro trabalho de Fanny.
31 Hauptman: Solitárias.
32 S. Undset: Jenny.
33 Romain Rolland: Jean Christophe.
34 Idem.
35 G. Aterton: Julia France e sua época.
36 Marie Antine: A Terra Prometida.
37 Por exemplo, Rosa de Vita Omnium Breve.
38 A maioria dos autores citados nestas páginas são mulheres. Muitas de suas obras carecem de verdadeiro valor artístico; mas, para o fim a que nos propomos nestas páginas, elas nos oferecem um ponto de vista incomparavelmente mais exato do que as obras dos escritores de sexo masculino, que são superiores, em geral, por seu valor literário. Quase todos os romances escritores por mulheres contêm trechos puramente biográficos que são precisamente os que maior interesse apresentam para o nosso trabalho. As obras que refletem sem artifícios a verdade da vida, as que nos mostram mais exatamente a psicologia da mulher contemporânea, suas dores, seus problemas, seus desejos, contradições, complicações e tendências, serão as que melhor nos servem para enriquecer nosso material no estudo do novo tipo de mulher em formação. Desde que as mulheres escritoras deixaram de imitar cegamente os modelos criados pelos homens e se atreveram a descobrir os mistérios da alma feminina que até então haviam permanecido ocultos, inclusive para os artistas mais geniais, desde qua as escritoras começarama expressar na sua própria língua sobre os problemas da mulher, suas obras, ainda que careçam algumas vezes da beleza exterior da criação artística, têm um valor e uma significação especial. Em suma todos esses trabalhos nos ajudam a conhecer a mulher celibatária, a mulher do novo tipo, em formação.
39 É característico observar como a maternidade tem sido sempre considerada como último refúgio da felicidade da mulher. Se o matrimônio não a tornara feliz, se a mulher se via obrigada a renunciar a uma união amorosa ou se tinha enviuvado, restavam então, como último refúgio, os cuidados e as alegrias da maternidade. A maternidade raramente era considerada como um fim em si mesma. Somente perto da velhice, despertavam na mulher sentimentos atávicos da espécie, só então aparecia a família com algum sentido na vida, e se convertia em um ídolo, que adorava, e para o qual exigia, despoficamente, a adoração dos outros membros da família.
40 As aventuras amorosas de Matilde não nos impedem de respeitar sua personalidade íntegra e pura. Assim como Matilde, sentimos piedade e desprezo por sua irmã Marta, operária como ela, mas que regressa com dinheiro de cada aventura. Há todo um abismo entre a liberdade de Matilde e a venalidade de Marta.
41 A. Bebel: A Mulher
42 Puchkin: Eugenia Onieguin
43 Turguenev: Ninho de fidalgos


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