Um Problema Para os Apologistas: A
Proposição “Do Nada, Nada Vem” é Sintética ou Analítica?
3 de outubro de 2013 às 04:31
Um Problema Para os Apologistas: A
Proposição “Do Nada, Nada Vem” é Sintética ou Analítica?
Por: Brian Vroman
Os religiosos mais
tradicionais afirmam que Deus tem certos atributos. Normalmente é dito que ele
é onisciente, onibenevolente e onipotente. Mas é o último suposto atributo que
nos interessa aqui. Porém, antes temos que definir os termos: O que o termo “onipotente”
significa? A maioria dos teólogos usa tal termo para se referir a noção de que
Deus pode fazer tudo o que não é logicamente impossível de se fazer. Portanto,
Deus não pode fazer uma proposição necessariamente verdadeira ser falsa: Ele
não pode fazer um círculo quadrado, ele não pode fazer 2+5=17. Teólogos aderem
a esta definição de onipotente para se livrar de diversos paradoxos como este:
Deus pode criar um objeto tão pesado que nem ele mesmo possa carregar? Tanto
faz se a resposta é positiva ou negativa quanto a este paradoxo, ambas implicam
num limite de poder de Deus. Simplesmente anexando regras delimitadoras a
proposição de onipotência, dizendo que Deus não pode fazer o que é logicamente
impossível, e depois então concluindo que certa limitação em particular não
implica num verdadeiro limite no poder de Deus, os teólogos esperam evadir-se
de problemas sobre a onipotência.
Porém, o que pensar sobre a
alegação – Novamente feita por muitos, se não a maioria dos teólogos cristãos –
de que Deus fez o universo ex nihilo? (Literalmente do nada).
Como se nota, esta afirmação
apresenta uma dificuldade considerável para o teólogo, embora a meu ver, esse
problema ainda não foi adequadamente discutido.
Para compreender o problema,
devemos lembrar-nos do grande David Hume. Um conceito famoso de Hume, é que
qualquer proposição que não é nem analítica nem sintética é sem sentido (Hume
não usava esses termos). Uma proposição analítica é uma que é verdadeira por
definição. Por exemplo: Todos os pais[1] do sexo masculino são pais[2], é
simplesmente uma igualdade semântica. “Pais masculinos” e “Pai” querem dizer a
mesma coisa [3] (Alguém poderia dizer que este não é o caso para o termo
“papai”, pois tem conotação emotiva adicional). Uma verdade matemática, como
2+1=3, é outro exemplo de uma afirmação analítica: 2+1 é apenas outra forma de
dizer 3. Hume apontou que afirmações analíticas, as quais ele chamou de
“associação de ideias”, eram meras tautologias e portanto, não ofereciam nenhum
conhecimento novo sobre a realidade.
Por outro lado, afirmações
sintéticas não são verdadeiras necessariamente – elas não são verdadeiras por
definição. Um exemplo disto é “o gato está sobre o tapete”. Para saber se isso
é verdadeiro, nos devemos observar se o gato está mesmo sobre o tapete. Como
resultado da observação, pode ser constatado que o gato não estava no tapete,
mas ao invés disso, talvez, ele esteja usando sua caixa de areia. Depois de uma
observação mais próxima, podemos concluir que o que pensamos ser um gato é na
verdade um cachorrinho peludo. Em outras palavras, proposições sintéticas são
levadas a nosso conhecimento através dos nossos sentidos e, porque os nossos
sentidos nos enganam, estas proposições jamais poderão ser conhecidas com
completa e absoluta certeza. Em relação a algumas afirmações sintéticas, nós
nos deparamos – se a certeza for nosso padrão – com a fraqueza inerente ao
raciocínio indutivo. (Obviamente, esse não é o famoso conceito de Hume, o
Problema da Indução, que lida com causalidade, um conceito que Hume disse não
ser analítico nem sintético). Por exemplo: Podemos observar 100.000 cisnes
brancos e depois, concluir que todos os cisnes são brancos. Porém, existe a
possibilidade que o próximo cisne observado seja na verdade negro. William Lane
Craig é o melhor debatedor do lado religioso da questão sobre Deus. Ele gosta
de dizer: “do nada, nada vem”. Ele usa essa afirmação como um argumento para
dizer que deve haver um agente criador, ou seja, Deus. Mas que tipo de
proposição é a afirmação “do nada, nada vem”?
Talvez ela seja sintética. Se for,
o que Craig na verdade está dizendo é que ele nunca viu alguma coisa vir do
nada e isso é tudo o que ele pode dizer. É como o exemplo dos cisnes brancos. Até
o presente momento ele nunca viu algo vir do nada. Mas assim como no caso
do observador dos cisnes - que pode eventualmente se deparar com um cisne negro
em algum momento (A menos que esse observador tenha alguma razão independente
para acreditar que não existem cisnes negros) - se a afirmação de Craig for
sintética, ele não pode descartar a possibilidade de que algum dia ele possa
ver algo vindo do nada.
Por outro lado, se afirmação de
Craig “do nada, nada vem” é uma afirmação analítica, ou seja, se ele está
afirmando que é verdade por definição, então ele está fazendo uma afirmação
muito forte de que é logicamente impossível de que alguma coisa venha do nada.
Mas se este for mesmo o caso, o que pode ser dito quanto à definição de
onipotência? Craig teria que dizer que Deus pode fazer até mesmo o que é
logicamente impossível. Mas isso nos leva novamente aos problemas que os
teólogos querem evitar. Questões antigas como a de que se Deus pode fazer um
objeto tão pesado que nem ele mesmo pode carregar precisam ser reconsideradas,
porque estaria sendo dito que Deus pode fazer o que é logicamente impossível. E
poderia ser sugerido, se esse for mesmo o caso, que as regras da lógica não
abrangem Deus e alguém poderia pensar como é que as regras da lógica tem
qualquer relação com Deus. No mínimo, isso apresenta um problema para Craig,
visto que ele pretende usar argumentação lógica para provar que Deus existe.
Só que existe um problema muito
mais significativo para Craig e os demais apologistas. Um dos argumentos mais
fortes contra a existência de um Deus teísta é o bem conhecido Problema do Mal.
Craig tenta contornar esse problema usando uma versão da Defesa do Livre
Arbítrio. Em resumo, ele e outros apologistas de similar persuasão argumentam
que é logicamente impossívelpara Deus criar um mundo no qual nem sofrimento
nem o mal existem, considerando-se o fato de que criaturas com livre arbítrio
vão algumas vezes escolher por fazer o mal. Mas se é realmente o caso de que
Deus pode violar as regras da lógica criando algo literalmente do nada, então a
Defesa do Livre Arbítrio também desmorona. Muitos, incluindo eu mesmo,
argumentariam que não é logicamente impossível para Deus criar um mundo no qual
suas criaturas seriam agentes morais dotados de livre arbítrio e mesmo assim
optariam por fazer o bem em todas às vezes – Supostamente o céu não é assim? –
Mas mesmo se alguém aceitasse que criar um mundo com criaturas livres que nunca
fazem o mal é logicamente impossível, Craig ainda estaria em apuros. Ainda
leríamos isso:
1 – Deus pode fazer o que é
logicamente impossível de fazer;
2 – Então, como Deus não é contido
pelos limites da lógica, é possível para Deus criar criaturas livres que vão
optar por Sua vontade em todas as ocasiões;
3 – Não é logicamente possível
para Deus fazer isso, mas então;
4 – É logicamente impossível para
Deus criar o universo ex nihilo.
Outra opção aberta para Craig é
tratar a afirmação “do nada, nada vem” como uma afirmação sintética. Mas então,
a proposição não pode ser apresentada de forma alguma como uma provade que
alguma coisa não pode vir do nada. Ao invés disso, é apenas uma admissão de que
o próprio Craig nunca viu nada parecido em suas experiências passadas. Porém, é
difícil imaginar que isso é o máximo que Craig está tentando alcançar. Existe
ainda mais uma possibilidade. Lembre-se, Hume identificou uma última categoria
para essas proposições, que não seriam nem analíticas nem sintéticas, só que
essa categoria, é chamada de absurdo. Pode ser tentador concluir que
quando Craig repete o seu mantra “do nada, nada vem”, essa afirmação cai na
última destas categorias. Porém, é provável que o sentido da afirmação dele
seja analítico, mas ao fazer isso, ele prejudica sua própria posição.
Notas Do Tradutor
[1] Aqui o uso da palavra “pais” é
no sentido de “família”, no sentido de pai e mãe.
[2] Aqui nesta parte, o sentido da
palavra “pais” é para se referir ao pai.
[3] Entendida a nota [1] a nota
[2], fica claro que o autor quis dizer que “pais masculinos” (Inicialmente no
sentido de pai e mãe, porém depois, adicionando-se a palavra “masculinos”) se
refere ao pai. Ou seja, ambas as formas de falar apresentam o mesmo resultado:
A pessoa está se referindo ao pai. É a mesma lógica do exemplo do 2+1=3.

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