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terça-feira, 22 de outubro de 2013

Do NADA, NADA vem?

Um Problema Para os Apologistas: A Proposição “Do Nada, Nada Vem” é Sintética ou Analítica?

3 de outubro de 2013 às 04:31

Um Problema Para os Apologistas: A Proposição “Do Nada, Nada Vem” é Sintética ou Analítica?

Por: Brian Vroman

Publicado originalmente em: http://www.infidels.org/kiosk/article856.html (Acessado em 23/09/2013)

 Os religiosos mais tradicionais afirmam que Deus tem certos atributos. Normalmente é dito que ele é onisciente, onibenevolente e onipotente. Mas é o último suposto atributo que nos interessa aqui. Porém, antes temos que definir os termos: O que o termo “onipotente” significa? A maioria dos teólogos usa tal termo para se referir a noção de que Deus pode fazer tudo o que não é logicamente impossível de se fazer. Portanto, Deus não pode fazer uma proposição necessariamente verdadeira ser falsa: Ele não pode fazer um círculo quadrado, ele não pode fazer 2+5=17. Teólogos aderem a esta definição de onipotente para se livrar de diversos paradoxos como este: Deus pode criar um objeto tão pesado que nem ele mesmo possa carregar? Tanto faz se a resposta é positiva ou negativa quanto a este paradoxo, ambas implicam num limite de poder de Deus. Simplesmente anexando regras delimitadoras a proposição de onipotência, dizendo que Deus não pode fazer o que é logicamente impossível, e depois então concluindo que certa limitação em particular não implica num verdadeiro limite no poder de Deus, os teólogos esperam evadir-se de problemas sobre a onipotência.

Porém, o que pensar sobre a alegação – Novamente feita por muitos, se não a maioria dos teólogos cristãos – de que Deus fez o universo ex nihilo? (Literalmente do nada).
Como se nota, esta afirmação apresenta uma dificuldade considerável para o teólogo, embora a meu ver, esse problema ainda não foi adequadamente discutido.

Para compreender o problema, devemos lembrar-nos do grande David Hume. Um conceito famoso de Hume, é que qualquer proposição que não é nem analítica nem sintética é sem sentido (Hume não usava esses termos). Uma proposição analítica é uma que é verdadeira por definição. Por exemplo: Todos os pais[1] do sexo masculino  são pais[2], é simplesmente uma igualdade semântica. “Pais masculinos” e “Pai” querem dizer a mesma coisa [3] (Alguém poderia dizer que este não é o caso para o termo “papai”, pois tem conotação emotiva adicional). Uma verdade matemática, como 2+1=3, é outro exemplo de uma afirmação analítica: 2+1 é apenas outra forma de dizer 3. Hume apontou que afirmações analíticas, as quais ele chamou de “associação de ideias”, eram meras tautologias e portanto, não ofereciam nenhum conhecimento novo sobre a realidade.

Por outro lado, afirmações sintéticas não são verdadeiras necessariamente – elas não são verdadeiras por definição. Um exemplo disto é “o gato está sobre o tapete”. Para saber se isso é verdadeiro, nos devemos observar se o gato está mesmo sobre o tapete. Como resultado da observação, pode ser constatado que o gato não estava no tapete, mas ao invés disso, talvez, ele esteja usando sua caixa de areia. Depois de uma observação mais próxima, podemos concluir que o que pensamos ser um gato é na verdade um cachorrinho peludo. Em outras palavras, proposições sintéticas são levadas a nosso conhecimento através dos nossos sentidos e, porque os nossos sentidos nos enganam, estas proposições jamais poderão ser conhecidas com completa e absoluta certeza. Em relação a algumas afirmações sintéticas, nós nos deparamos – se a certeza for nosso padrão – com a fraqueza inerente ao raciocínio indutivo. (Obviamente, esse não é o famoso conceito de Hume, o Problema da Indução, que lida com causalidade, um conceito que Hume disse não ser analítico nem sintético). Por exemplo: Podemos observar 100.000 cisnes brancos e depois, concluir que todos os cisnes são brancos. Porém, existe a possibilidade que o próximo cisne observado seja na verdade negro. William Lane Craig é o melhor debatedor do lado religioso da questão sobre Deus. Ele gosta de dizer: “do nada, nada vem”. Ele usa essa afirmação como um argumento para dizer que deve haver um agente criador, ou seja, Deus. Mas que tipo de proposição é a afirmação “do nada, nada vem”?

Talvez ela seja sintética. Se for, o que Craig na verdade está dizendo é que ele nunca viu alguma coisa vir do nada e isso é tudo o que ele pode dizer. É como o exemplo dos cisnes brancos. Até o presente momento ele nunca viu algo vir do nada. Mas assim como no caso do observador dos cisnes - que pode eventualmente se deparar com um cisne negro em algum momento (A menos que esse observador tenha alguma razão independente para acreditar que não existem cisnes negros) - se a afirmação de Craig for sintética, ele não pode descartar a possibilidade de que algum dia ele possa ver algo vindo do nada.

Por outro lado, se afirmação de Craig “do nada, nada vem” é uma afirmação analítica, ou seja, se ele está afirmando que é verdade por definição, então ele está fazendo uma afirmação muito forte de que é logicamente impossível de que alguma coisa venha do nada. Mas se este for mesmo o caso, o que pode ser dito quanto à definição de onipotência? Craig teria que dizer que Deus pode fazer até mesmo o que é logicamente impossível. Mas isso nos leva novamente aos problemas que os teólogos querem evitar. Questões antigas como a de que se Deus pode fazer um objeto tão pesado que nem ele mesmo pode carregar precisam ser reconsideradas, porque estaria sendo dito que Deus pode fazer o que é logicamente impossível. E poderia ser sugerido, se esse for mesmo o caso, que as regras da lógica não abrangem Deus e alguém poderia pensar como é que as regras da lógica tem qualquer relação com Deus. No mínimo, isso apresenta um problema para Craig, visto que ele pretende usar argumentação lógica para provar que Deus existe.

Só que existe um problema muito mais significativo para Craig e os demais apologistas. Um dos argumentos mais fortes contra a existência de um Deus teísta é o bem conhecido Problema do Mal. Craig tenta contornar esse problema usando uma versão da Defesa do Livre Arbítrio. Em resumo, ele e outros apologistas de similar persuasão argumentam que é logicamente impossívelpara Deus criar um mundo no qual nem sofrimento nem o mal existem, considerando-se o fato de que criaturas com livre arbítrio vão algumas vezes escolher por fazer o mal. Mas se é realmente o caso de que Deus pode violar as regras da lógica criando algo literalmente do nada, então a Defesa do Livre Arbítrio também desmorona. Muitos, incluindo eu mesmo, argumentariam que não é logicamente impossível para Deus criar um mundo no qual suas criaturas seriam agentes morais dotados de livre arbítrio e mesmo assim optariam por fazer o bem em todas às vezes – Supostamente o céu não é assim? – Mas mesmo se alguém aceitasse que criar um mundo com criaturas livres que nunca fazem o mal é logicamente impossível, Craig ainda estaria em apuros. Ainda leríamos isso:

1 – Deus pode fazer o que é logicamente impossível de fazer;
2 – Então, como Deus não é contido pelos limites da lógica, é possível para Deus criar criaturas livres que vão optar por Sua vontade em todas as ocasiões;
3 – Não é logicamente possível para Deus fazer isso, mas então;
4 – É logicamente impossível para Deus criar o universo ex nihilo.


Outra opção aberta para Craig é tratar a afirmação “do nada, nada vem” como uma afirmação sintética. Mas então, a proposição não pode ser apresentada de forma alguma como uma provade que alguma coisa não pode vir do nada. Ao invés disso, é apenas uma admissão de que o próprio Craig nunca viu nada parecido em suas experiências passadas. Porém, é difícil imaginar que isso é o máximo que Craig está tentando alcançar. Existe ainda mais uma possibilidade. Lembre-se, Hume identificou uma última categoria para essas proposições, que não seriam nem analíticas nem sintéticas, só que essa categoria, é chamada de absurdo. Pode ser tentador concluir que quando Craig repete o seu mantra “do nada, nada vem”, essa afirmação cai na última destas categorias. Porém, é provável que o sentido da afirmação dele seja analítico, mas ao fazer isso, ele prejudica sua própria posição.

Notas Do Tradutor


[1] Aqui o uso da palavra “pais” é no sentido de “família”, no sentido de pai e mãe.
[2] Aqui nesta parte, o sentido da palavra “pais” é para se referir ao pai.
[3] Entendida a nota [1] a nota [2], fica claro que o autor quis dizer que “pais masculinos” (Inicialmente no sentido de pai e mãe, porém depois, adicionando-se a palavra “masculinos”) se refere ao pai. Ou seja, ambas as formas de falar apresentam o mesmo resultado: A pessoa está se referindo ao pai. É a mesma lógica do exemplo do 2+1=3.


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Item Reviewed: Do NADA, NADA vem? Rating: 5 Reviewed By: Gabriel Orcioli