O Argumento da Existência de
Não-Divindades [A Favor da Não Existência de Deus]
18 de agosto de 2013 às 16:55
O Argumento da Existência de
Não-Divindades
Por: Horia Plugaru
Publicado originalmente em: http://www.infidels.org/library/modern/horia_plugaru/aend.html(Acessado
em 13/07/2013)
Atenção: Esta é uma versão
traduzida autorizada pela Secular Web, protegida por Copyright.
Introdução
Este artigo defende o argumento de
que, se o tradicional Deus teístico existisse, há fortes razões para pensar que
existiriam apenas divindades. Eu chamo este argumento de "O Argumento da
Existência de Não-Divindades" (AEND). Se o argumento for correto, Deus não
teria motivos racionais para a criação de nosso mundo atual, que contém
Não-Divindades. Mas considerando que o mundo atual claramente existe, segue-se
que um deus - maximamente racional - não existe.
Depois de formalizar o argumento,
eu defendo a sua primeira premissa, a mais importante. Mais a frente, comento
sobre a importância do argumento e o defendo contra cinco objeções.
O Argumento da Existência de
Não-Divindades
O AEND pode ser formalmente
demonstrado da seguinte forma:
1 - Se o Deus teísta existisse,
então o único mundo que ele criaria conteria apenas deuses, ou seja, seres que
possuem a maioria de seus atributos.
2 - O mundo atual não contém
apenas deuses, na verdade, neste mundo existem exclusivamente Não-Divindades.
3 - Portanto, o Deus teísta não
existe. (A partir de 1 e 2, por Modus Tollens)
A segunda premissa do AEND é
verdade além de uma dúvida razoável. Os seres humanos, animais e plantas estão
longe de seres divinos. Sendo assim, a primeira premissa é a que precisa de uma
defesa mais extensa.
Apoio à Premissa (1)
De acordo com o teísmo, Deus é,
acima de tudo, um ser perfeito. Ele é um agente pessoal, onipotente, onisciente
e onibenevolente (moralmente perfeito e todo-amoroso). Vamos chamar esse ponto de
vista de “ponto de vista leigo” sobre Deus. Versões mais sofisticadas do teísmo
também dizem que Deus é um ser perfeitamente racional, completamente livre,
eterno (sem começo e sem fim), imutável (que não muda) e necessariamente
existente (existente em todos os mundos possíveis).
Tanto o ponto de vista leigo
quanto às versões mais sofisticadas do teísmo têm sido criticadas como
ininteligíveis ou incoerentes. Um leitor anônimo de uma versão prévia deste
artigo argumentou:
“Achei a ideia de “existência necessária” ininteligível. No meu ponto de vista,
é sempre possível que nada exista, mas mesmo que se eu estiver errado, e seja
necessário que alguma coisa (ou outra) exista, não vejo sentido algum na ideia
de que existe alguma coisa em particular que existe necessariamente. Como
[David] Hume disse, qualquer coisa que possa ser concebida como existente, pode
também ser concebida como não existente. Há ainda outros problemas com a
combinação de onipotência com outras propriedades em uma definição. Suponha
que um ser foi definido como "onipotente e onisciente". Será que tal
ser seria capaz de aprender alguma coisa nova?”.
No entanto, para o bem da nossa
conversa aqui, vou assumir que tanto o conceito leigo de Deus e dos teístas
sofisticados, são ambos coerentes. Teístas geralmente argumentam que Deus não
está sob nenhuma obrigação - moral, lógica ou metafísica- de criar qualquer
coisa. Se ele, todavia, escolhe por criar algo, ele faz isso por uma questão de
amor e generosidade de sua parte.
Então vejamos, se um ser tão
perfeito decide criar uma forma de vida por uma questão de amor e generosidade
de sua parte, esta forma de vida teria que ser a melhor forma de vida possível
de ser criada. Porque caso Deus crie algo que seja menos que o melhor possível
de ser criado, sem razão suficiente para tal, então ele seria um criador
imperfeito.
Deus dotaria a sua criatura com
quais atributos? Seriam atributos que se assemelham aos seus próprios: Se Deus
é perfeito, então seus atributos são bons. Além disso, não há nenhum outro
atributo que é bom, mas que Deus não o tenha. Caso contrário, ele não seria
perfeito. Por exemplo: Uma vez que Deus é um agente pessoal, segue-se que ser
um agente pessoal é bom, e por isso Deus criaria um agente pessoal. Se Deus é
todo-poderoso, então ter poder é uma coisa boa, e por isso a sua criatura
também teria de ser poderosa. Se Deus é onisciente, segue-se que ter
conhecimento é uma coisa boa, e por isso a sua criatura deveria ter
conhecimento. Se Deus tem livre arbítrio, segue-se que ter livre arbítrio é uma
coisa boa, e por isso a sua criatura deveria ter livre arbítrio. E assim por
diante com o resto dos atributos divinos.
Mas Deus dotaria a sua criatura
com qual grau dos atributos? Bem, se um ser perfeito que cria voluntariamente,
pode criar nada menos que o melhor ser possível, então sua criatura deveria
possuir, os já mencionados atributos, no mais alto grau possível. Por exemplo:
O grau mais elevado de poder que um ser pode ter é a onipotência, lembrando que
possuir onipotência é ser capaz de fazer qualquer coisa que seja logicamente
possível. Deus não iria criar um ser menos do que onipotente, porque tal
criatura não seria a melhor possível de ser criada, afinal, podemos imaginar
uma criatura melhor que ela, uma mais poderosa. Uma vez que um criador perfeito
criaria o melhor ser possível, segue-se que Deus não escolheria dotar em nada
menos do que com a onipotência a sua criatura. Por razões paralelas, Deus
criaria um ser que é onisciente e moralmente perfeito. Se aceitarmos uma
definição sofisticada do teísmo, então a criatura de Deus também teria que ser
perfeitamente racional, completamente livre, eterna e imutável.
Se esta linha de raciocínio é
correta, um Deus perfeito que decide criar outro agente pessoal iria criar nada
menos do que outro deus: Uma criatura que é pessoal, onipotente, onisciente e
onibenevolente (moralmente perfeita e toda-amorosa). Se aceitarmos um teísmo
mais sofisticado, então a criatura de Deus também seria perfeitamente racional,
completamente livre, imutável e eterna. Vou me referir a um deus criado usando
a palavra "deus", em letras minúsculas. Assim como Deus é considerado
o maior ser que pode ser concebido, podemos considerar suas criaturas como os
maiores seres criados que podem ser concebidos.
Obviamente que esse tipo de deus
carece de uma das propriedades essenciais de Deus, de acordo com os teístas
mais sofisticados: Ele não existe necessariamente, mas contingente, dado o fato
de que Deus o trouxe à existência por um ato de livre arbítrio, não por
qualquer obrigação de fazê-lo. Consequentemente, o deus criado não é eterno, no
sentido de ter uma existência sem começo e sem fim, mas apenas no sentido de
ser imortal, ou seja, de ter uma existência sem fim. [1]
Quantos desses deuses Deus
criaria? Se um ser é trazido à existência por um ser moralmente perfeito, a sua
existência do primeiro é uma coisa boa. Mas Deus, sendo moralmente perfeito,
onipotente e perfeitamente racional, não pararia fazendo apenas uma
coisa boa, se ele é capaz de fazer mais.
Se criar um deus é bom, então,
criar dois deuses é melhor. Mas criar três deuses é ainda melhor do que criar
apenas dois. E assim por diante, ad infinitum. Deus deveria criar tantos
deuses quanto possível, a fim de dar ao maior número possível deles a
oportunidade de desfrutar da felicidade infinita, que decorre tanto da comunhão
com Deus quanto da comunhão com outros deuses, e de ser tão perfeito quanto
possível que eles sejam. Se um infinito real pode existir na realidade, então o
número de deuses será infinito. Se por outro lado, um infinito real não pode
existir na realidade, então Deus iria criar o maior número possível de deuses,
algo como trilhões de trilhões, um número extremamente grande. De qualquer
maneira, ele criaria muitos deuses, como mostra a primeira premissa do AEND.
Vamos chamar o mundo contendo Deus e todos os outros deuses criados de
"mundo A."
É este cenário logicamente impossível?
Não parece ser. Se Deus é onipotente, ele pode fazer tudo o que é logicamente
possível. Supondo-se que Deus exista, segue-se que todos os seus atributos,
tomados individualmente ou em conjunto, são logicamente possíveis. Não vejo
qualquer razão pela qual Deus não poderia criar um ser que sabe tudo o que há
para saber, ou que é moralmente perfeito e livre. Assim, Deus é de fato capaz
de criar outro ser que compartilha de seus atributos, exceto a sua existência
necessária (e consequente existência eterna). Nem parece ser problemático criar
mais de dois deuses com tais atributos. A Onipotência poderia levantar
dificuldades, por exemplo, poderia haver dois ou mais seres onipotentes? O
poder de um anularia ou limitaria o do outro? A resposta para a segunda
pergunta é não, pois, todos os seres divinos seriam moralmente perfeitos,
oniscientes e perfeitamente racionais. Assim, não poderia surgir nenhum
desacordo que iria levá-los a usar seus poderes de formas diferentes ou
contraditórias. Se adotarmos uma interpretação popular de onipotência – a de
que uma divindade é onipotente caso ela possa fazer qualquer coisa que está de
acordo com sua própria natureza – então não pode haver qualquer situação em que
dois ou mais deuses entram em conflito, pois todos eles têm a mesma natureza
perfeita.
E como todos os seres divinos
criados por Deus usam sua onipotência? Eles iriam usá-la exatamente da mesma
forma que Deus usou, ou seja, trazendo à existência mais deuses e pelas mesmas
razões, em termos de onibenevolência, que Deus tinha para criar outros deuses.
Se um infinito real não pode existir na realidade, então cada deus produziria
um número limitado de outros deuses. Mas e se um infinito real pode existir na
realidade, e Deus já havia criado um número infinito de deuses? Ainda seria
possível para esses deuses adicionar ainda mais deuses para o mundo A? Sim,
porque seria possível adicionar um novo infinito a um já existente, como vemos
no experimento do Hotel de Hilbert.
Considere um hotel hipotético com
infinitos quartos. Cada quarto tem um hóspede. Será que o hotel é capaz de
acomodar todos os novos hóspedes? Sim, basta mover o hóspede que está no quarto
1 para o quarto 2, o hóspede do quarto 2 para o quarto 4 e assim em diante.
Desta forma, todos os quartos de número ímpar estarão livres para os novos
hóspedes. Portanto, mesmo admitindo que infinitos possam existir na realidade e
que Deus já tenha criado um número infinito de deuses, ainda é possível para
esses deuses criarem um número infinito de outros deuses. Na verdade, uma vez
que deuses não são seres materiais, eles não ocupam espaço, então não haveria
qualquer necessidade de mover ou substituí-los como os hóspedes no Hotel de
Hilbert. Os deuses criados por outros deuses teriam exatamente os mesmos atributos
que os seus criadores: Consciência pessoal, onipotência, onisciência,
onibenevolência (perfeita moralidade e amor), perfeita racionalidade, liberdade
completa, imortalidade e imutabilidade.
O que pode ser dito sobre a
relação entre os seres divinos e tempo? Eles são atemporais? Eu acho que faz
mais sentido pensar nessa questão do tempo, entendendo que eles criam “no”
tempo [Estando eles no tempo] da mesma forma que Deus supostamente cria uma
nova alma assim que um ser humano é concebido. Mas também pode ser que esses
deuses possam trazer a existência outros deuses fora do tempo. O AEND não
requer especificamente um ou outro conceito sobre a relação dos deuses com o
tempo. Porém, de acordo com o segundo ponto de vista apresentado sobre o tempo,
até mesmo os deuses criados são eternos no sentido de deles não terem um começo
no tempo, uma vez que não há qualquer momento no tempo em que eles não existem.
No entanto, apenas para facilitar o entendimento, vou proceder sob a suposição
de que estes deuses criados existem no tempo.
É complicado - isso se não for
impossível - descrever exatamente como Deus cria outros deuses, e então, como
esses outros deuses criam outros deuses, e assim por diante. A princípio,
poderia ser dito que o AEND enfrenta o que poderia ser chamado de
"problema de modus operandi". Porém, isso na verdade não é um
problema para o AEND, visto que o mesmo não se propõe a resolver esse tipo de
coisa, mas apenas argumentar que se caso Deus exista e, decida criar alguma
coisa, então ele criaria um mundo contendo muitos e muitos deuses. Como
Nicholas Everitt disse: “o ateísmo não pode ser mais preciso do que o
teísmo que o mesmo rejeita”. [2]
A primeira premissa do AEND também
tem algum suporte bíblico: "Sede vós, pois perfeitos, como vosso Pai que
está nos céus é perfeito" Mateus 5:48. Se Deus quer que suas criaturas
sejam perfeitas assim como ele é, então seria razoável para ele criar deuses em
vez de seres humanos, uma vez que apenas um deus pode ser perfeito como Ele.
O mundo A tem três excelentes
características, no mais alto grau possível, que certamente agradam a Deus: É
absolutamente livre de (1) O Mal, (2) A Feiura Estética [3] e (3) Ceticismo
Quanto a Sua Existência. De fato, os deuses criados, que são moralmente
perfeitos, oniscientes, completamente livres e racionais, nunca vão fazer nada
de errado, assim como Deus nunca faz nada errado. Na verdade, em qualquer ponto
no tempo, o mundo A contém a maior quantidade possível de amor e harmonia entre
todos os seus habitantes. Além disso, os deuses sabem que Deus existe e que
eles devem sua existência abençoada a ele. Assim, sem exceção, todos eles
seriam profundamente gratos a Deus e iriam escolher livremente aprecia-lo e
adorá-lo ao máximo, como seu criador. Cada um desses deuses seria tão feliz e
contente quanto possível, encontrando a maior alegria não só em sua existência
individual, mas especialmente na companhia de Deus e de todos os outros deuses.
Podemos discutir se o mundo A é
mesmo perfeito, pois novos habitantes sempre podem ser adicionados a ele
(independentemente da existência de infinitos reais). Talvez pudesse
ser dito que se o mundo A contém, digamos dez deuses no momento t, este mundo
não seria realmente inferior ao mundo A no momento s, que contém onze deuses.
Talvez o mundo A no momento t e o mundo A no momento s são mundos diferentes,
mas ambos são perfeitos. O fato de o décimo primeiro deus estar faltando no
mundo A no momento t, não significa necessariamente que o décimo primeiro deus
foi prejudicado de alguma forma, pela simples razão de que ele não existe no
mundo A no momento t. Como David Benatar disse, "a ausência de prazer não
é ruim se não houver alguém para quem esta ausência é uma privação." [4]
Assim, é completamente possível, tanto para o mundo A no momento t ser perfeito
- porque ele não contém qualquer coisa negativa que poderia prejudicar a sua
perfeição - quanto o mundo A no momento s ser perfeito. O mundo A no momento s
é preferível em detrimento do mundo A no momento t, porque no mundo A no
momento s existe uma criatura infinitamente feliz a mais, mesmo que os dois
mundos sejam perfeitos. Porém, a meu ver, o fato de que o mundo A no momento s
é preferível ao mundo A no momento t, implica que o mundo A no t poderia ser
melhorado, e isso abre espaço para melhorias no mundo A no momento t, ou seja,
isso mostra que o mundo A no momento t não é verdadeiramente perfeito.
No entanto, supondo que é
irracional (como eu acho que é) sustentar a hipótese de que o mundo A é
perfeito, o mundo A ainda pode ser considerado o melhor mundo possível no
sentido de que é o melhor mundo que pode logicamente existir em qualquer dado
momento. Ou seja, apesar de o mundo A no momento s ser melhor do que o mundo A
no momento t, o último ainda é o melhor mundo possível que pode existir em t,
mesmo pensando que ele não seja perfeito.
Mas vamos supor que não podemos
justificar a afirmativa de que o mundo A é o melhor mundo possível. É
indiscutível que, a qualquer momento no tempo, o mundo A é melhor do que o
nosso mundo real (Vamos chamá-lo de mundo B).
As diferenças entre o mundo A e o
mundo B são tremendas em favor da preferência do primeiro. O mundo B contém
grandes quantidades de mal excruciantes, tanto morais (como estupro,
assassinato, roubo, guerra, etc.) e naturais (como terremotos, tsunamis, defeitos
congênitos, doenças, etc.). Bilhões de habitantes do mundo B nunca tiveram uma
crença teísta e, consequentemente, nunca deram a Deus o que lhe é devido,
agradecendo, amando e o adorando. A afirmação de que o nosso mundo real,
o mundo B, é o melhor possível, parece tão absurda que ela foi, por vezes,
justificadamente ridicularizada. [5] Portanto, mesmo se o mundo A não fosse
perfeito nem o melhor mundo possível, seria indiscutivelmente muito superior ao
mundo B, independentemente do número de deuses que ele contivesse em qualquer
momento no tempo. Assim, se o Deus perfeito do teísmo clássico existisse, ele
definitivamente preferiria o mundo A ao invés do B.
Além disso, Deus não iria trazer à
existência os dois mundos ao mesmo tempo, o mundo A e o mundo B. Primeiro, a
soma do mundo A com o mundo B (Vamos chama-lo de mundo C) seria inferior ao
mundo A. De fato, apesar da agradável existência no mundo A, o mundo C também
conteria o mal, a feiura estética, e descrença, já que eles estão presentes no
mundo B. Em segundo lugar, seria extremamente injusto criar, por um lado,
deuses que são garantidos para desfrutar de sua existência ao mais alto grau
possível por toda a eternidade, e por outro lado, seres que são propensos a
suportar um sofrimento considerável e até mesmo podem se arriscar cair no
eterno sofrimento de maior grau possível, ou seja, no Inferno. Para evitar essa
injustiça, Deus teria de escolher entre A ou B. [6]
Por essas razões, concluo que Deus
teria todos os motivos para (1) preferir o mundo A em detrimento do mundo B e
(2) nunca criar qualquer coisa diferente do mundo A. Portanto, a primeira
premissa do AEND é justificada.
Comentários Sobre o AEND
O AEND é uma versão do que pode
ser chamado de Argumento Da Imperfeição, cuja forma geral pode ser formalizada
como o seguinte:
A – Se o Deus (perfeito) do teísmo
existisse, então, o único mundo que ele iria criar (e permitir sua existência)
seria um mundo perfeito.
B - O mundo atual não é um mundo
perfeito.
C - Portanto, o Deus do teísmo não
existe [7] (A partir de 1 e 2 por Modus Tollens)
Como tal, o AEND é simplesmente um
refinamento do que já foi feito antes no raciocínio ateísta, aquele em que a
ideia de "um mundo perfeito" é descrito de forma mais pormenorizada.
A importância do AEND reside na
sua descrição de que, o melhor mundo logicamente possível, o mundo A,
considerando que Deus exista, é muito mais razoável, plausível e intuitivo do
que o mundo existente. Em outras palavras, o mundo A é exatamente o tipo de mundo
que seria de esperar de existir se Deus existisse. Deus é visto como um criador
generoso e perfeito, por isso, devemos esperar que ele desse as suas criaturas
os seus atributos no mais alto grau possível. Ele deseja que o maior número de
suas criaturas sejam infinitamente felizes, o que acontece dentro da medida do
logicamente possível no mundo A. Deus também quer que seus seres tenham
verdadeiro livre arbítrio, bem como não façam mal moral, ele conseguiria isso
criando somente o mundo A. Ele também deseja que suas criaturas o amem
livremente ao máximo, o que também é conseguido criando somente o mundo A.
Por outro lado, o mundo B nem
chega perto do que esperamos que um deus perfeito crie. Os habitantes do mundo
B estão longe de serem perfeitos: Não só eles são limitados cognitivamente,
moralmente e fisicamente, mas tem também imperfeições muito graves na maneira
como seus corpos funcionam. [8] Bilhões de seres humanos não só carecem de
felicidade infinita, mas sua existência pode ser caracterizada com precisão, no
máximo, como um equilíbrio razoável entre a felicidade e a infelicidade, isso
quando eles não são absolutamente miseráveis. Embora possa haver verdadeiro
livre arbítrio no mundo B, há também uma grande quantidade de mal moral, isso
sem contar as enormes quantidades de sofrimento causado por desastres naturais.
Uma grande parte da população do mundo B nunca teve uma crença teística e,
consequentemente, nunca adorou e amou maximamente a Deus.
A luz destes fatos é bem razoável
pensar que se o mundo A é logicamente possível e Deus é um criador perfeito,
então ele deveria criar somente o mundo A, ao invés do mundo B.
A saber, a prática de imaginar
mundos logicamente possíveis, a fim de sustentar a hipótese de que o nosso
poderia ser melhorado, não é novidade alguma. Por exemplo, John L. Mackie
argumentou que a existência de Deus é logicamente incompatível com a existência
do mal, porque há um mundo possível que Deus poderia ter criado onde os agentes
sempre escolhem livremente o bem. Como ele diz:
Se Deus fez o homem de tal forma
que em suas escolhas livres que, por vezes, preferem o que é bom e às vezes o
que é mau, por que ele não poderia ter feito os homens de tal forma que eles
sempre escolheriam livremente o bem? Se não há impossibilidade lógica em um
homem livremente escolher o bem em uma ou em várias ocasiões, não pode haver
uma impossibilidade lógica em sua liberdade de escolher o bem em todas as
ocasiões. Neste caso, Deus não tinha somente uma das duas possibilidades: Ou
fazer inocentes autômatos ou fazer seres que agindo com livre arbítrio, às
vezes fariam coisas erradas, ele teria, é claro, uma melhor possibilidade, a
saber, de fazer seres com livre arbítrio, porém, que sempre escolhessem fazer o
bem. [9]
No entanto, não está claro e ainda
está confuso o uso do termo "seres" no argumento de Mackie. Que tipo
de ser Mackie está se referindo quando ele fala de “fazer seres com livre
arbítrio, porém, que sempre escolhessem fazer o bem”? Será que ele está se
referindo a seres humanos, como o início da citação sugere? Ou a seres
metafísicos superiores como deuses? Alvin Plantinga, o crítico mais famoso do
argumento de Mackie, aparentemente toma o termo "seres" para se
referir a seres humanos, pois no seu livro Deus, Liberdade e o Mal (1977), Plantinga
rejeita o argumento de Mackie considerando um caso hipotético de um ser humano,
o prefeito de Boston, Curley Smith. O conceito de Plantinga de “Depravação
Transmundos” também sugere que ele tinha seres humanos em mente. De acordo com
Plantinga, um agente sofre da Depravação Transmundos se em qualquer mundo
possível em que ele é criado, ele realiza livremente pelo menos um ato
moralmente condenável. Então, argumenta Plantinga, é possível que nem mesmo
Deus possa criar um mundo que contém seres livres que nunca fazem o mal.
No entanto, se substituirmos
"homens" por "deuses" no argumento de Mackie, a resposta de
Plantinga falha. Sabemos que os seres humanos são criaturas falíveis, que são
obrigados a optar por cometer um ato moralmente errado, pelo menos uma vez.
Assim, parece possível que os seres humanos de fato sofrem da Depravação
Transmundos. Porém – E é aqui que o AEND se torna muito relevante – o mesmo não
pode ser dito sobre deuses moralmente perfeitos, oniscientes, perfeitamente
racionais e completamente livres. Nenhum teísta tradicional pode dizer que Deus
sofre da Depravação Transmundos, porque se isso fosse verdade, Ele não seria
perfeito. Os deuses no mundo A não podem sofrer da Depravação Transmundos,
porque eles também são seres moralmente perfeitos, oniscientes, perfeitamente
racionais e completamente livres. O AEND mostra que, ao contrário do que
Plantinga concluiu, existe um mundo – o mundo A – no qual os agentes livres
sempre escolhem fazer o que é eticamente necessário. Portanto, épossível
que Deus, sendo onipotente, pudesse criar um mundo com criaturas livres que
nunca escolhem fazer o mal.
Outros filósofos argumentam que
Deus poderia ter melhorado o mundo real, criando seres humanos com maior
inteligência ou uma tendência a fazer o que é moralmente necessário. [10]
Outros ainda argumentam que um mundo onde os seres humanos não têm
livre-arbítrio poderia ser superior ao nosso mundo. [11] Porém, supondo que
Deus exista, porque ele criou os seres humanos para começar? O AEND desafia essa
premissa oculta, sustentando que deveríamos esperar que Deus criasse nada menos
do que outros deuses. Assim, a própria existência do ser humano é por si, é uma
prova contra o teísmo.
O AEND aumenta muito o padrão que
um mundo criado por um Deus perfeito deve obedecer. Se o mundo A é
absolutamente livre do mal, descrença e feiura estética, então todo mundo
existente que contém estas coisas ruins - mesmo que no menor grau - pode ser
considerado uma prova da inexistência de Deus. Vamos verificar o que Theodore
M. Drange diz sobre o mundo B: “É complicado dizer que Deus deveria eliminar todo o
sofrimento, pois definitivamente existem alguns tipos de sofrimento que fazem
do mundo um local melhor, ao contrário de se esses mesmos sofrimentos não
existissem. Daria para citar vários exemplos, mas é suficiente dizer que algum
sofrimento é necessário, justamente para poder haver um certo contraste.
De outra forma, a vida humana seria muito entediante para ser aproveitada.”
[12] Bem, o AEND mostra que não há necessidade de nem mesmo uma pequena
quantidade de mal. Assim como Deus não precisa do mal a fim de evitar o tédio,
no mundo A não há necessidade de qualquer tipo de contraste que o mal poderia
criar. Assim, devemos esperar que não houvesse qualquer quantidade de mal num
mundo criado por Deus.
O mesmo pode ser dito sobre a
não-crença. Uma vez que no mundo A não existe nenhum não-teísta, segue-se que
um mundo que contenha nem que seja apenas um não-crente não é criado por Deus.
Portanto, como existe um mundo assim [Com não-crentes], ele é uma prova de que
Deus não existe, porque se Deus existisse, ele não criaria tal mundo, criaria
apenas o mundo A.
O AEND prova que um mundo criado
por Deus também não deve ter quaisquer casos de feiura estética, o que não é o
caso do nosso mundo. O AEND também reforça o Argumento da Confusão, que
argumenta que Deus não existe, a partir de considerações sobre as divergências
entre os teístas sobre questões doutrinárias cruciais. No mundo A não existe
qualquer desacordo de qualquer natureza entre os agentes, então segue-se que um
mundo que contenha nem que seja a mínima discordância – sobre assuntos
religiosos ou quaisquer outros – demonstra que Deus não existe.
Em resumo, o AEND apresenta
excelentes bases para muitos tipos de argumentos ateístas, demonstrando que um
mundo criado por Deus não pode conter nem mesmo qualquer mínimo defeito.
Respostas a Objeções ao AEND
Objeção 1 (O1): A
primeira premissa do AEND afirma que, Deus criaria apenas um mundo contendo
exclusivamente muitos e muitos deuses (O que foi chamado de mundo A). Mas
aparentemente isso parece não fazer muito sentido, porque há certos tipos de
bem que não existem no mundo A. Alguns exemplos desses bens incluem a
curiosidade intelectual (O tipo de curiosidade que nos motiva a aprender mais
sobre o mundo) disciplina, o poder de resistir à tentação, compaixão,
perseverança e coragem. Portanto, não fica claro como e se o mundo A é melhor
que o mundo B, logo, não está claro porque Deus deveria ter criado o mundo A ao
invés do mundo B.
Resposta: Os tipos de bem
mencionados acima não são intrinsecamente valoráveis. Eles são bons apenas se
existirem certas dificuldades ou deficiências que precisam ser superadas
usando-se desses bens. Uma vez que no mundo A não existe nenhuma dificuldade ou
deficiência a ser superada, segue-se que a sua não presença no mundo A não faz
falta alguma.
Vamos considerar a curiosidade e a
disciplina. Como eu argumentei em outro local, “Curiosidade e disciplina não
são coisas boas por si mesmas. Essas coisas são importantes quando somos
ignorantes, pois elas nos dão a vontade de aprender mais e de aprender de forma
mais eficaz. Se nós já sabemos (em alto grau) tudo o que é útil para nós, então
a curiosidade e disciplina são desnecessárias”. [13] Nem mesmo o ato do
aprendizado deveria ser visto como intrinsicamente bom. Apenas o conhecimento é
valoroso por si mesmo. Aprender é bom no mundo B, porque é a única forma de
seus cidadãos ganharem conhecimento. Porém, no mundo A não existe necessidade
para aprender coisas, porque todos os seres de lá são oniscientes e, portanto,
sabem de tudo o que há para saber. Consideremos a compaixão agora, ela também
não é uma coisa boa por si mesma. Nós devemos ter compaixão somente quando
existe sofrimento para ser aliviado. Mas logicamente seria melhor se não
existisse nenhum tipo de sofrimento que clama por compaixão. A não presença de
qualquer tipo de sofrimento no mundo A é preferível ao intenso e amplamente
espalhado sofrimento encontrado no mundo B. Portanto, mesmo pensando que todos
os habitantes do mundo A sejam moralmente perfeitos e extremamente compassivos,
a compaixão simplesmente não existe, porque ela não é necessária. Desde que um
mundo sem sofrimento é preferível em detrimento de um mundo que contenha
sofrimento, um mundo onde a compaixão não é necessária é preferível em
detrimento de um mundo onde ela é necessária. [14]
Nicholas Everitt faz uma
observação semelhante no que diz respeito ao poder virtuoso para resistir à
tentação: “Dado que os seres humanos estão sujeitos à tentação, é bom que eles
tenham em algum grau o poder de resistir à tentação. A segunda propriedade
ajuda, por assim dizer, para neutralizar o efeito da primeira. Mas a
neutralização não é valiosa se não existe a tentação, então seria melhor que
nenhuma delas existisse”. [15]
A perseverança é persistência
constante, apesar das dificuldades, dos obstáculos ou desânimo. É útil ser
perseverante no mundo B, onde existem muitas dificuldades e obstáculos, porém
ela é completamente inútil no mundo A, onde não existe nenhum tipo de dificuldades
ou obstáculos.
Portanto, a não presença de certas
coisas no mundo A como a compaixão, coragem, o poder de resistir à tentação,
perseverança e o desejo de aprender, não sinalizam qualquer problema ou
imperfeição no mundo A, o que faz com que Deus deva escolher o mundo A ao invés
do mundo B. Por outro lado, a existência de tais coisas no mundo B é uma
indicação de imperfeições no mesmo.
Mas talvez, um crítico poderia
argumentar que se Deus fizesse o mundo A, a felicidade suprema (Que consiste em
ter todos os atributos de Deus e estar na presença Dele e dos outros deuses)
seria muito fácil de adquirir e, uma meta tão importante deve ser conseguida
através de importantes esforços. No entanto, primeiro temos que lembrar que os
deuses do mundo A são completamente livres, assim como Deus também é. Se as
ações de Deus não tem nenhum significado moral, elas jamais poderiam ser
louváveis. Mas esta consequência é claramente rejeitada por teístas. Portanto,
se as ações de Deus tem significado moral, então as ações dos deuses também tem
significado moral.
Ralph Wagenet descreve a liberdade
de Deus da seguinte forma:
[Deus] não é vinculado a qualquer
restrição inadequada ou involuntária. Claramente não é escravidão ficar
restringido por restrições que você, por si mesmo, escolheu, sendo elas
consistentes com quem você é e com seus desejos. O oposto da liberdade é a
compulsão: Agir obrigatoriamente de forma incompatível com sua consciência e
valores. Deus é absolutamente livre, sendo que nada nem ninguém pode obriga-lo
a fazer algo que ele ache repugnante. [16]
Todos os deuses do mundo A tem
exatamente o mesmo tipo de liberdade absoluta. Sendo eles moralmente perfeitos
e perfeitamente racionais, eles vão livremente escolher fazer o que é certo, e
não vão fazer o que é errado. Se Deus é absolutamente livre e, portanto, sua
liberdade é muito significante, então também é muito importante à liberdade
possuída pelos deuses do mundo A. Portanto, suas escolhas como amar e adorar a
Deus e amar a todos os outros seres no mundo A, são muito importantes e não são
determinadas por nada fora deles. Então, num sentido muito importante, eles
certamente merecem sua existência abençoada, visto que eles mesmos livremente
escolherem todas as possiblidades corretas.
Mas é aqui que um crítico poderia
replicar que, a onisciência de tais deuses e o seu caráter moralmente perfeito,
tornam a tarefa de escolher muito mais fá

0 comentários:
Postar um comentário
As opiniões expressas ou insinuadas pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, as da home page ou de quaisquer outros órgãos.